HONORÁRIOS:

UMA QUESTÃO DELICADA

 

INTRODUÇÃO

A tendência a levar vantagens impera em alguns meios, e está intimamente vinculada ao “processo primário”, que acompanha todas as criancinhas, nos primeiros tempos de suas vidas.  Qualquer pulsão gera tensão e movimento, em busca de alívio pelo caminho mais curto (a “via-curta”) e, de preferência, sem que se pague preço algum. Mas, para vivermos em sociedade, ou seja, para “com/vivermos”, temos que aprender a nos segurar, para nos conduzir. É através da família e da cultura que vamos descobrindo que não somos o “umbigo do mundo”, temos que levar em conta a complexidade das coisas, fazendo escolhas, o que implica em renúncias, em cuidados e em trocas mutuamente vantajosas. Pouco a pouco, desenvolve-se o “processo secundário”, como fruto e condição de amadurecimento.

A questão do estabelecimento de honorários para o trabalho do profissional liberal encontra-se estreitamente ligado a esse dilema existencial que, em uma das pontas, vincula-se às pressões do onipresente processo primário (ainda que inconsciente!) e ao desenvolvimento (muitas vezes ínfimo e inadequado) do processo secundário.

Vamos conversar sobre o assunto?

 

FORMAÇÃO

É ilusão pensar que, ao concluir um curso universitário, estamos com nossa formação profissional completa. A experiência faz muita diferença. Mesmo assim, podemos acumular anos e anos de experiência, sem, de fato, nos aprimorarmos. O aprimoramento depende de uma série de fatores; entre eles, da paixão pela profissão que escolhemos, da seriedade e do empenho com que nos dedicamos a ela.

Antigamente, os cursos superiores eram supervalorizados e os diplomas recebidos eram olhados com respeito. Hoje, bem sabemos da existência de cursos “fracos”, inspirados apenas em objetivos comerciais, e de alunos que são sistematicamente aprovados, na medida em que sua real capacitação não é levada em conta, pois o que interessa é “manter o cliente feliz”… Pior: não são poucos os estudantes que, de fato, não estudam; faltam às aulas e pedem que alguém “assine a presença” por eles, bem como assinam trabalhos feitos por alguns colegas, sem pudor algum e sem sequer tomarem conhecimento do assunto; compilam textos da internet ou pagam para quem comercializa “trabalhos científicos”; “colam” e “dão cola”; processam ou ameaçam professores que os reprovam. Que profissionais estamos formando? Ou, por outro lado, que tipo de profissionais somos nós? A partir de quê critérios estabelecemos nossos honorários profissionais?…

Além disso, há estudantes particularmente talentosos que, ao escolheres sua profissão, estão baseados em pendores naturais, em estímulos ambientais, em uma genuína vocação. Estes estudam com prazer e por prazer. Não perdem oportunidade para testarem e aplicarem seus conhecimentos, buscando sempre mais, na teoria e na prática. O título adquirido através do curso e do diploma fica inserido em sua personalidade, fazendo parte de sua identidade psíquica, e representa apenas um começo de história. Estes alunos a e recém-formados ssociam-se a instituições de classe, participam de atividades de caráter teórico e técnico, fazem muitas leituras, buscam ajuda de profissionais mais experientes, através de cursos de aperfeiçoamento e assessorias, etc. Sabem que, para um profissional idealista, ambicioso e com suficiente autocrítica, nunca se chega ao destino final, mas a diferentes etapas de uma construção, com chances de durar tanto quanto a própria vida. Em síntese, sempre temos o que aprender!

O estabelecimento de honorários tem que estar baseado na capacitação do profissional e numa experiência que apenas em parte tem a ver com os anos de trabalho, mas muito tem a ver com uma renovação constante, na teoria, na técnica e nos cuidados em relação a se mesmo, enquanto pessoa.

AUTOESTIMA E O RESPEITO POR SI MESMO

A autoestima e o respeito por si mesmo são decisivos no estabelecimento do contrato profissional, no que se refere aos deveres de parte a parte, e isto inclui a questão dos honorários.

Mas em que consistem a autoestima e o respeito por si mesmo?

Um grande risco está em que sejam ilusórios, inflacionários, com bases em fantasias narcísicas e não em dados concretos.

Um bebê, em condições ideais, é amado por si mesmo e por aquilo que representa para seus pais e para as pessoas que o cercam e com ele se encantam. Mas, pouco a pouco, a realidade se impõe e ele descobre que precisa refrear alguns de seus impulsos e conduzir-se de modo a merecer as respostas favoráveis que tanto deseja. Ele – como todos nós – deseja ser desejado, e isto tem seu preço. Assim, com bases nas experiências de vida, vai desenvolvendo múltiplas habilidades, de acordo com seus talentos naturais e os estímulos de seu meio. Passa a evitar comportamentos que causam transtornos e adora ser recebido com sorrisos, com palavras de estímulo, com olhares de satisfação e, assim, vai se sentido realmente merecedor dos bem-estares que experimenta.

Descobrimos – ou deveríamos descobrir – que a realização de nossos anseios tanto mais rica e consistente se torna, quanto mais e melhor nos sentirmos, efetivamente, merecedores, pelo investimento feito, pela seriedade e pelo carinho com que assumimos nossos compromissos.

Não é tão simples assim. Isto significa, em termos profissionais, que temos que avaliar o quanto já investimos em nossa carreira e nos sentimos capacitados para assumirmos os desafios propostos.  Significa termos uma noção clara do tempo que disponibilizamos para as responsabilidades assumidas – e isto vai, frequentemente, muito além do tempo ocupado diretamente com o cliente ou o paciente. Outro detalhe é que, além de nós, talvez esteja toda uma equipe de apoio que, além, de necessária, deverá ser com justiça remunerada. Avaliação e autocrítica são decisivos. São ou deveriam ser?…

Há quem cobre demais, não levando em conta suas reais condições ou não avaliando adequadamente a relação custo-rendimento ou os dados de uma realidade mais ampla, como a época e o local em que o trabalho vem sendo realizado. Ingenuidade ou megalomania podem estar orientando o valor sugerido, eventualmente até a partir da imaginação que “se eu cobrar ‘bem’, serei melhor reconhecido e valorizado”. Não é bem assim. Se nós “trabalharmos bem” e cobrarmos honorários justos e viáveis, então, sim, poderemos ser adequadamente reconhecidos e valorizados.

Há circunstâncias em que profissionais que recém entram no mercado são pressionados a “cobrarem mais”, para não fazerem “concorrência ilícita” com aqueles que atuam há mais tempo e para não desvalorizarem a profissão. Mas isto também pode ser injusto e inadequado, pois como fica a situação do mais jovem e de que modo ele vai entrar no mercado de trabalho, se não puder compensar o menor tempo de estudos e experiências com um valor compatível? Existem diferenciais que merecem ser levados em conta, sem que se caia em valores exorbitantes, na formação de cartéis ou em valores efetivamente aviltantes. O mercado de trabalho também merece ser considerado: por que as pessoas de menor poder aquisitivo não teriam acesso a nenhuma prestação de serviço, uma vez que não conseguem contratar algo mais oneroso?

Assunto delicado, muito delicado, no qual inúmeros fatores devem ser levados em conta, referentes ao profissional e ao exercício de sua profissão, aos interesses de classe e à realidade socioeconômica de seu meio.

Em muitas circunstâncias, as dificuldades de estabelecer honorários justos estão ligadas a conflitos inconscientes, à baixa autoestima, ao medo de não ter trabalho e a sentimentos de culpa que ocorrem quando, de maneira racionalmente injustificável, o profissional não se sente capacitado e nem merecedor de receber pelo que faz. Nestes casos, uma psicoterapia seria indicada como a melhor alternativa para a superação.

RELAÇÃO ENTRE ADULTOS

Quando nasce um bebê, os pais se contentam com os sinalizadores de bem-estar, como um sono tranquilo, um bom apetite, olhares e sorrisos de reconhecimento, e todas as demais demonstrações de crescimento. Estas são as recompensas. Mas os desafios crescem, gradativamente, de modo que se passa a esperar cada vez mais deste investimento amoroso. Dar de si mesmo por amor não significa dar gratuitamente. Esperar retorno, por sua vez, não significa fazer cobranças. Significa que pais amorosos, dedicados e responsáveis avaliam, mesmo sem se dar conta, as respostas aos seus investimentos, apreciando o desenvolvimento de habilidades, de comprometimentos, de retornos por parte de seus filhos. À medida que crescem, as crianças se encarregam de várias responsabilidades, em benefício próprio e de sua família e de seus amigos. Ao se tornarem adultos, devem ter desenvolvido ótimas condições de autonomia e de reciprocidade, dando e recebendo equilibradamente.

Ser generoso é ser justo, e não magnânimo. As pessoas excessivamente empenhadas em serem simpáticas, em darem mais do que recebem, são coniventes com aqueles a quem poderiam julgar exploradoras. Se nós estivermos aspirando justiça social, temos que começar por nós mesmos, definindo e respeitando acordos tão justos quanto possível.

Um contrato de trabalho tem que ser absolutamente claro, atendendo a condições de ambos os lados. Isto implica em direitos e deveres, em responsabilidades e cuidados, ou seja, em mutualidades. Vale para qualquer profissão.

Um dos problemas que enfrentamos é o das pessoas que assumem tarefas para as quais não estão aptas ou em relação às quais são estabelecidos parâmetros que não serão cumpridos. Isto é muito grave. Qualidade de produtos e de serviços, pontualidade e respeito, definitivamente, não fazem parte dos atributos de muitos profissionais que ocupam toda a escala socioeconômica e cultural que nos cerca e da qual fazemos parte – desde o cidadão analfabeto e despreparado, até aquele que ostenta as melhores titulações, sem fazer jus a elas. Se quisermos um mundo melhor, é preciso que comecemos por nós mesmos, tanto na posição de produtor ou prestador de serviços, quanto na posição de clientes. Se encararmos com seriedade qualquer um desses lugares e nos situarmos neles com propriedade, estaremos fazendo a nossa parte.

Por vezes, a dificuldade maior está em lidar com as frustrações, com receio de perder o autocontrole, de se tornar desagradável, de “fazer feio” e de perder o amor e a admiração de nossos semelhantes. Aqui, estamos falando de dificuldades emocionais que podem nos perturbar bastante e que mereceriam uma boa atenção terapêutica. Muitas pessoas têm dificuldade em estabelecer, contratar e cobrar seus honorários. Outras tantas têm dificuldade em pagar, entrando no rol dos eternos devedores que, ainda, são capaz de tentarem minimizar seus desconfortos invertendo as posições, colocando-se no ligar de vítimas e falando mal de seus credores!

EM TERAPIA

Para encerrar, compartilho um pequeno recorte do livro “O casal diante do espelho. Psicoterapia de casal – teoria e técnica”, publicado pela Casa do Psicólogo e cuja nova edição deverá estar no mercado em fins de setembro deste ano de 2013. Na edição anterior, está entre as páginas 102 e 110 e, evidentemente, restringe-se ao contrato entre o psicólogo e o casal que busca ajuda terapêutica, embora se aplique também a psicoterapias individuais. Ainda que o presente artigo diga respeito aos honorários das mais diversas profissões liberais, a conclusão abaixo foca especificamente a questão dos honorários em relação à terapia:

“Uma vez chegados a um acordo acerca dos horários e do espaçamento entre as sessões, os honorários do terapeuta também têm que ser claramente definidos, bem como as possibilidades de renegociação e de reajustes. Em relação a este assunto, se as sessões nas quais o casal falta forem cobradas, este princípio deverá ser informado, bem como questões referentes a férias do casal e a férias ou outras ausências da parte do terapeuta. Serão estes períodos conciliáveis ou  não? Quais os critérios a serem seguidos para que nenhuma das partes seja prejudicada, em favor da outra? É evidente que um terapeuta que se ausenta, não importa a razão, não tem direito a cobrar nada. Mas e em relação a saídas dos pacientes? Aqui entram em cena critérios que cada terapeuta tem que avaliar, para dar início a um acordo que lhe pareça justo, levando em conta a realidade sócio-cultural da qual ele e seus pacientes fazem parte.” (…)

“Em suma, parte dos elementos a serem considerados está no fato de que o terapeuta compromete um espaço de sua agenda profissional e de sua vida particular para atender a “este casal” e, portanto, não tem “este espaço disponível” para outros pacientes e nem para atividades de cunho pessoal. De nada adianta um telefonema “a tempo, liberando o horário” pois, ele não poderá encaixar outras pessoas, já que não estará disponível, digamos, nas semanas seguintes.”(…)

“Acordos prévios, muito claros, são necessários ao estabelecimento de uma boa aliança. E os pacientes precisam se organizar, na prática e afetivamente, para o encontro consigo mesmo, através das sessões terapêuticas. E, para tanto, é indispensável “se pensarem” num determinado lugar, em um determinado espaço de tempo, e com a participação de tais e tais pessoas. Portanto, da parte dos pacientes e de seu terapeuta, é necessário um bom nível de comprometimento e de proteção ao horário destinado a tais eventos.”

“Chegamos a outro ponto: os direitos do terapeuta. Ele também “se prepara” para receber os pacientes. E faz parte deste preparo preservar-lhes os horários combinados, sem destinar a outros possíveis interesses ou interessados.  O comprometimento é mútuo e uma das trocas estabelecidas está na remuneração pelo exercício da profissão – mesmo que os pacientes não compareçam por razões muito justificadas. Um princípio bastante infantil poderia ser resumido nestas singelas palavras: “Se eu tiver que perder, por que você haveria de ganhar?” Por trás delas, surgem inúmeros significados, a serem compreendidos de caso a caso. Ilustrando: “Hoje, eu não irei. Deixo você livre para atender à outra pessoa ou para se ocupar de qualquer coisa, mas lembre que este horário é meu.” Aqui, mais uma vez, faz parte da relação terapêutica analisar os vários fenômenos que se manifestam nela mesma, transferencialmente ou não, porque, com toda a certeza, as reações que no setting se apresentam são as mesmas do dia-a-dia, ainda que através de outra roupagem. Como um terapeuta pode esperar que um casal desenvolva um bom nível de intimidade e comprometimento entre si, se as combinações, as tentativas de transgressão e suborno como, por exemplo, de levar vantagem e fingir inocência, não puderem ser analisadas ao se manifestar, na própria relação terapêutica?

“Combinações claras, além de organizadoras, oferecem oportunidade de expressão, tanto dos aspectos saudáveis das personalidades envolvidas no contrato, quanto de suas dificuldades, cujo exame e solução estão sendo propostos.” (…).

“Por vezes, é na análise de atrasos, infreqüências, de tentativas de burla, de alterações contratuais e de outras exceções à regra, é que se encontra material para intervir em aspectos de maior consistência. O com+trato terapêutico oportuniza diversas observações, favoráveis ou desfavoráveis, acerca das atitudes dos cônjuges em relação a si mesmos, a outras pessoas e ao próprio terapeuta.”

“Regras e combinações são indispensáveis ao processo terapêutico. Afinal, como as pessoas envolvidas nesta aliança – pacientes e terapeuta – haveriam de se organizar, prática e emocionalmente, para a evolução do processo? Como e em que medida o casal tende a ser fiel ao seu contrato de amor e convivência? E como seriam reconhecidos e abordados certos conteúdos, se não existissem combinações prévias norteadoras?”

 SÍNTESE

Clareza, simplicidade, seriedade e comprometimento em toda e qualquer relação profissional consistem em padrões comportamentais, derivados de atitudes muito íntimas, que podem ser singelamente entendidas como éticas, plenas de dignidade e respeito em relação a si mesmo e a seus semelhantes. A questão dos honorários faz parte disso.