MORDIDAS & ATAQUES TRAIÇOEIROS

AS FORMAS MAIS PRIMITIVAS DE AGRESSÃO

IARA L. CAMARATTA ANTON

Psicóloga – Psicoterapeuta individual e de casais – Escritora

O comportamento revoltante e reincidente de Suarez durante jogo da Copa do Mundo remete-nos a análise de um tema fundamental na vida de um ser humano: a agressividade.

Buscar entendimentos e justificativas a partir da história pregressa e de inúmeros outros fatores, como está se observando em relação ao “Mordedor da Copa”, pode significar mera conivência com a perpetuação dos mesmos gestos antissociais, ao invés de se promover as mudanças desejáveis.  Ser recebido de braços abertos e com aplausos pelos seus, e com desculpas por parte de muita gente funciona como reforço coletivo à irresponsabilidade e à impunidade, que nada tem a ver com uma real democracia.

Agressividade é uma espécie de “energia vital”, habitualmente acionada pelas mais diversas frustrações que experimentamos, como a fome, a dor, e a ansiedade, por exemplo. Quanto maior o sofrimento, maior a energia agressiva acionada, visando alívio de tensões, resolução do problema e algum tipo de prazer.  Quanto menor a capacidade de resistência a frustrações, mais a pessoa mostra-se impulsiva e incapaz de conter-se, para melhor conduzir-se. Em síntese, “a agressividade, por si só, não é um bem e nem um mal – depende do que se faz com ela”.       É nos braços dos pais e no convívio com “outros significativos” que se aprende a tolerar frustrações, a conter impulsos, a peneirar desejos e adequar métodos para alcançar objetivos justos e viáveis.  A forma como, desde a infância e até sempre, somos contidos e conduzidos em nossas impulsividades funciona como estímulo para nosso modo de ser, imprimindo em nossas mentes os principais modelos de identificação e renovando alertas a respeito do que se faz necessário para que a convivência entre os seres vivos torne-se possível, segura e confortável. Nossos atos têm consequências e, num processo de democracia, temos que arcar com elas. Nada a ver com violência e com qualquer tipo de vingança, mas sim com a aquisição de um forte senso de responsabilidade pessoal e social. Quando impera, dentro e fora de nós, um senso de coletividade e de justiça social, não há espaço para a impunidade.

Por que a tal mordida que um jogador sofreu durante uma partida da Copa do Mundo teve tamanha repercussão, seguida de censura pública e tão severa punição? Por que cotovelaços, joelhadas e empurrões não repercutem tanto, apesar de também representarem falta de espírito esportivo e de lealdade em relação ao colega, ainda que rival?

Entre outras razões, porque morder é um dos primeiros atos de agressão de um ser humano: todos os bebês, em maior ou menor escala, mordem. Mordem porque estão nascendo os dentinhos, mordem para atacar um amiguinho, mordem para provocar reações, mordem porque lhes alivia tensões e proporciona prazer. O que é natural num bebê ou numa criança de escola maternal é impensável em crianças menores, adolescentes e, pior ainda, em adultos.  O que justifica, então, um jogador de futebol, em plena Copa do Mundo ou em outra circunstância qualquer apresentar um comportamento tão primitivo, emparelhando-se com o colega do time adversário, para mordê-lo?! Mais grave ainda: pelas costas? E sendo reincidente?

Para mim, uma única resposta: impunidade.

E o que dizer de reações tão intensas, dentre seus compatriotas e tantas outras pessoas, diante da pena atribuída pela Fifa, sem a possibilidade de recorrer? Que importa o fato de ele ser o principal jogador de seu país?

Imagino que se trate da velha mania de não avaliar a gravidade dos gestos e dos fatos, de “passar a mão em cima” e de apoiar a inconsequência.

Enormes problemas socioculturais e políticos atingem nosso país e o mundo – problemas estes que, paradoxalmente, são justificados, aprovados e alimentados pela própria sociedade que protesta, comete vandalismos e vende o voto para quem lhes representa interesses pessoais e imediatos.

Malfeitores são presos, e imediatamente soltos. Prisioneiros, em invés de terem oportunidade de trabalho, estudo e crescimento pessoal, ficam vegetando em locais insalubres, do ponto de vista físico e mental. Políticos e outros cidadãos corruptos não costumam devolver à sociedade o que a ela devem. O investimento em educação e saúde é inadequado e insuficiente. Então, tomo a liberdade de insistir nesse ponto de vista: onde há impunidade, não há uma real democracia.

No meu entender, a pena ao mordedor foi adequada, pois restringe os movimentos de quem não merece constar entre aqueles que são reconhecidamente desportistas – a prática de esportes deveria ser, por essência, ética, oportunizando que a agressividade natural do ser humano seja adequadamente sublimada – inclusive da parte daqueles que, na torcida, estão se identificando com seus ídolos e com seus times. Nada tem a ver com vingança ou com a busca de “bodes expiatórios”, mas sim a adoção de atitudes socialmente coerentes, consequentes, responsáveis, valendo o mesmo para todos os jogadores que cometem delitos e que são violentos e traiçoeiros. Vale para todas as pessoas.

Ser responsável e consequente é ser democrático, é ser justo, é tudo de bom!