SOBRE O ATENDIMENTO A SITUAÇÕES DE CRISES, NO CONSULTÓRIO DO PSICÓLOGO
PARA ANA ALIFANTIS CARDOSO
POR IARA L. CAMARATTA ANTON*

DESCREVER SITUAÇÕES DE CRISE ATENDIDAS NO CONSULTÓRIO DO PSICÓLOGO

Crises são, por definição, situações que envolvem mudanças, passagens e, consequentemente, riscos e oportunidades. Assim sendo, devem ser consideradas sempre efêmeras, transitórias. Onde há alguma cronicidade, já não se trata de crise, muito embora possam surgir momentos de crise dentro de quadros crônicos.

Em consultório, podemos receber principalmente três grupos de pessoas em situação de crise. O primeiro é aquele que nos procura, temendo uma situação iminente ou já no auge de uma crise, porém sem um vínculo terapêutico prévio conosco. O segundo é aquele que, ao longo do processo terapêutico, já com uma aliança bem estabelecida, atravessa pelas situações de vida que envolvem crises previsíveis (como início da carreira profissional ou possíveis mudanças nesta; casamento; gestação, nascimento de filhos, falecimento de um ente querido já doente ou idoso…) ou imprevisíveis (como uma crise econômica, acidente grave, luto inesperado…). O terceiro é o que implica em retorno de paciente que já havia feito terapia e que, neste momento da história, está vivendo uma situação crítica, e decide retomar o tratamento.

Usualmente, observa-se uma importante elevação da ansiedade, muito provavelmente incluindo mudanças no humor, que pode se mostrar instável, ou depressivo, ou maníaco. Faz bastante diferença se o paciente vem porque assim o deseja ou se é conduzido sob pressão por seus familiares. A motivação e a confiança na pessoa do terapeuta e no tipo de ajuda que este pode oferecer, são decisivas. Se não existirem, é fundamental que procuremos criar um contexto de acolhimento que propicie a formação de laços. A capacidade de escuta, o respeito pelos sentimentos expressos, as intervenções adequadas à pessoa e às circunstâncias que ela está vivendo são indispensáveis a que se crie um espaço propício à confiança e à formação de um vínculo saudável.

Avaliar possíveis riscos ao paciente ou a quem o cerca constitui-se num dos ingredientes principais de crises agudas (em qualquer um dos grupos acima citados). Em algumas situações temos que pensar imediatamente num suporte médico (psiquiátrico, evidentemente) e medicamentoso; eventualmente, o abrigo hospitalar pode se fazer útil ou, até, indispensável, tendo em vista uma recuperação mais rápida e consistente, em ambiente seguro, suficientemente protegido. Trata-se de exceções à regra, mas este último recurso deve ser considerado, por uma questão ética, que envolve respeito e consideração pelo paciente, quando ele mesmo não se encontra em condições de se proteger, a ponto de correr riscos graves, que poderiam envolver, por exemplo, suicídio e/ou homicídio.

QUAL O REFERENCIAL TEÓRICO E QUAIS AS TÉCNICAS UTILIZADAS?

Em situações de crise, mais uma vez temos que levar em conta os três grupos de pessoas que buscam a ajuda terapêutica, acima citados, somando-se a isto o tipo e o grau de riscos que, eventualmente, fazem parte da situação de crise específica, apresentada neste momento da vida.
Abordagens iniciais envolvem, necessariamente, técnicas de continência e de apoio (acolhimento, atenção, diálogo, aconselhamento, orientação…), bem como outras intervenções ativas, sempre que necessário. A inclusão de familiares e de outros suportes afetivos em algumas ou em todas as sessões, eventualmente, pode ser não apenas recomendável como também imprescindível.

Quando já existe uma aliança prévia e o paciente está ou esteve em terapia com o mesmo profissional, a prevenção da crise através das técnicas que norteiam e caracterizam o referido processo é um dos principais recursos dos quais se dispõe. Mesmo assim, a situação de desequilíbrio pode surgir, em circunstâncias, intensidades e formas inesperadas. Aqui as já referidas técnicas de apoio, continência e intervenções ativas podem ser de fundamental importância, bem como o encaminhamento para profissionais que possam complementar o atendimento com recursos medicamentosos e outros. Em se tratando de psicanálise ou psicoterapia de orientação psicodinâmica, alguns profissionais preferem delegar o apoio a um colega de sua confiança, em um atendimento paralelo. Cada situação merece ser tratada como “única”, respeitando-se as suas diversas particularidades. Recursos interpretativos passam para um segundo plano ou são radicalmente evitados em alguns tipos de crises, porém em outros, quando estas são esperadas e ocorrem em níveis leves ou moderados, podem se constituir numa ferramenta de inigualável valor. Da mesma forma, há casos em que as abordagens cognitivo-comportamentais podem ser as indicadas.

Psicóloga – CRP 07/0370 – Especialista em Psicologia Clínica Aplicada (PUCRS); Psicoterapia de Orientação Analítica (PUCRS); Terapia de Casal e de Família (Domus) e Psicanálise dos Vínculos (Instituto Contemporâneo). Autora dos livros “A escolha do cônjuge – um entendimento sistêmico e psicodinâmico” (ARTMED/Grupo A); “Homem e Mulher – seus vínculos secretos” (ARMED/Grupo A); “O casal diante do espelho. Psicoterapia de casal – teoria e técnica” (Casa do Psicólogo/Pearson). Psicoterapeuta individual e de casais.