CASA:

MORADIA, LAR OU PRISÃO?…

Iara L. Camaratta Anton

 

 

Brincando de “casinha”

Quem, dentre nós, nunca brincou “de casinha”?…. Casinhas criadas sob as mesas de nossas casas, entre poltronas e sofás, ou com velhos lençóis amarrados nas cadeiras… Ou definindo espaços num gramado imenso, com pedras roliças, como numa planta-baixa… Montando móveis, com caixas de sapato ou outras sucatas quaisquer que, num piscar de olhos, adquiriam o status de tudo o que se podia querer e sonhar…

Ah, sim, alguns de nós ganhamos de presente lindas casinhas de brinquedo… mas nada tinha a mesma graça do que, sem elas ou a partir delas, nossa imaginação pudesse criar.

No espaço da “casa real” de nossas infâncias, criamos nossas “casas imaginárias” e, finalmente, aqui estamos, em pleno século XXI, ocupando espaços nos quais se misturam nossas realidades e fantasias.

Não é sem razão que “A Casa”, cantada por “Boca Livre” fez tanto sucesso, na década de 70 – e não só entre as crianças:

 

A CASA

Boca Livre

Era uma casa muito engraçada,

Não tinha teto, não tinha nada!

Ninguém podia entrar nela não,

Porque na casa não tinha chão.

Ninguém podia dormir na rede,

Porque na casa não tinha parede.

Ninguém podia fazer pipi,

Porque penico não tinha ali!

Mas era feita com muito esmero,

Na Rua dos Bobos, número Zero!

Mas era feita com muito esmero,

Na Rua dos Bobos, número zero!…

 

E lá se foi a infância e, com ela, parte de nossos sonhos. Apenas parte, pois outro tanto se transformou em projetos e, dentre estes, alguns constituem a nossa realidade.

Pensemos em nossas casas. O que foi feito das casinhas de nossa infância? De uma forma ou de outra, aqui estão, constituídas de tijolos, madeira ou papelão, transformadas em lar, moradia ou prisão.

 

Casa, enquanto lar

A tradução da palavra casa, é ampla, creio que em quase todos os idiomas. A casa sonhada, possivelmente, é aquela que abriga, protege e aconchega, É aquele espaço que denominamos lar, de onde podemos partir tranquilamente, e para o qual sempre estamos dispostos a retornar, seja para nossos descansos, seja para nossas melhores comemorações.

Lar! Não é somente o “Aurélio” que apresenta esse verbete como sinônimo de “família”. Isto significa que, se residirmos sozinhos, não temos um espaço que mereça assim ser denominado?…

Lar pode ser algo imenso, como a pátria, o torrão natal. Algo muitas vezes pequenino, como um ninho ou uma toca de animal… E, o mais interessante de tudo: é a cozinha, a parte da casa onde se acende o fogo.

Lar, lareira… aconchego, espaço de intimidade, lugar para ser feliz… Não aprisiona, abriga. Mais do que abriga: liberta.

Em sua origem latina, a palavra “lar” constitui-se em substantivo masculino; na língua portuguesa, passa para o feminino. Por que será?…

Inferências pessoais: talvez porque o lar, um verdadeiro lar, permite o encontro entre o côncavo e o convexo, o parecido e o diferente, o humano e a produção de humanidade.

 

Casa, enquanto apenas moradia

Mas, para muitos, a casa não passa de uma habitação, um lugar onde as pessoas talvez nem mesmo se encontrem, onde pode haver beleza aparente, aliada a um vazio interior. Alguns, nela se escondem, porque não sabem para onde ir. Outros, para ela retornam, dia após dia, mas sem, nunca, verdadeiramente voltar. Dentre estes, muitos postergam, tanto quanto possível, a hora de “estar em casa”. Cheia de silêncios, em suas paredes simbolicamente nuas, é possível que ecoem todos os gritos de revolta ou de medo que seus habitantes guardam em seus peitos. Cheia de ruídos, ou de vozes alteradas, podem estar expondo e reforçando a dificuldade de seus moradores revelarem o que se passa em si mesmos. Casa, apenas casa. Era esta a casa de nossas brincadeiras de infância? É para ela que desejávamos ir, é para ela que, dia após dia, queremos retornar?

 

Casa, enquanto prisão

E tem a casa que se transforma em prisão. Não estou referindo exatamente àquelas nas quais carrascos abusadores prendem suas vítimas, ou nas quais filhos desnaturados abandonam seus idosos e doentes. Estou pensando é em famílias retentivas, que erguem fronteiras cerradas, extremamente rígidas, prendendo seus herdeiros em amarras talvez invisíveis, atribuindo a eles legados pesados, antinaturais, passados geração a geração. Nestas casas, o que se vive não é intimidade, é cumprimento de dever, sustentado por sentimentos de culpa descabidos e, quem sabe, por tolas vaidades.

 

A casa que habitamos e a família que habita em nós

“A Casa”, cantada por Boca Livre, é uma casa sem chão, sem paredes e nem teto. Ela é sustentada pela imaginação. A casa que habitamos, pelo contrário, tem tudo isto, mesmo que, simbolicamente, não tenha nada.

Precisa chão, onde lançar seus alicerces, e onde possamos caminhar com leveza, conforto e segurança. E é em nossa história de vida que o chão se estabelece…

Precisa paredes – tal qual nossas famílias e nossos laços amorosos. Paredes fortes, consistentes, com aberturas, pelas quais circulam o ar e a luz, e pelas quais se possa sair – e entrar -, dando acesso, inclusive, a pessoas “de fora”, porém muito especiais. Não a qualquer pessoa. A casa-lar protege e, para proteger, seleciona.

Simbolicamente, o contorno que envolve as famílias e os casais pode ser representado por linhas tracejadas, indicativas de fronteiras permeáveis (Minuchin, Umbarger). Não com fronteiras difusas, que mal e mal oferecem contorno, mal e mal permitem a experiência de pertencimento. Não com fronteiras rígidas, típicas de cativeiros físicos e emocionais.

São as famílias de fronteiras permeáveis que permitem o crescimento e a expansão de seus filhos. São elas que permitem que, fora de seus limites, geração à geração, os filhos, e herdeiros, possam encontrar seus pares, amando e sendo amados. São elas que permitem que a palavra “casa”, na prática, mereça o nome de lar. Simbolicamente, mesmo que a “residência” seja num JK, no centro de uma grande metrópole, permite que se viva, com plenitude, a canção com a qual Elis Regina encantou toda uma geração, sugerindo que chão, paredes e teto podem estar perfeitamente integrados com espaços amplos, claros e luminosos, verdadeiros “lugares para ser feliz”:

CASA NO CAMPO
Zé Rodrix – Tavito, 1972 – cantada por Elis Regina

Eu quero uma casa no campo
Onde eu possa compor muitos rocks rurais
E tenha somente a certeza
Dos amigos do peito e nada mais
Eu quero uma casa no campo
Onde eu possa ficar no tamanho da paz
E tenha somente a certeza
Dos limites do corpo e nada mais
Eu quero carneiros e cabras
Pastando solenes no meu jardim
Eu quero o silêncio das línguas cansadas
Eu quero a esperança de óculos
E um filho de cuca legal
Eu plantar e colher com a mão
A pimenta e o sal
Eu quero uma casa no campo
Do tamanho ideal, pau-a-pique e sapê
Onde eu possa plantar meus amigos
Meus discos e livros e nada mais…

LEIA MAIS E COM FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA EM:

A Escolha do cônjuge – um entendimento sistêmico e psicodinâmico – ARTMED, Iara L. Camaratta Anton:

- Cap. V: Contribuições da Teoria Geral dos Sistemas

- Cap. IX: Funcionalidade e disfuncionalidade das relações amorosas

- Cap. XIV: Fixação materna: a escolha impossível

- Cap. XV: A carência básica do amor

Homem e Mulher – seus vínculos secretos

ARTMED, Iara L. Camaratta Anton:

- Cap. II: Homem e mulher – seus vínculos secretos

- Cap. IV: “Encaixes perfeitos” ou “laços de família”

Cap. VII: Solidão: o drama, o sonho, a poesia

Cap. IX: Direito à privacidade: um velho dilema entre pais e filhos

Cap. XVI: Família: casa, lar ou prisão?

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