Realidade e fantasia

Este era meu sonho de menina, de adolescente, de jovem mulher.

Cavalos faziam parte do meu mundo real e imaginário. Eu lia muito e escutava atentamente às histórias que meu pai contava. Havia cavalos em terras de meus avós. Eu e meus irmãos, desde cedo, acompanhávamos corridas, no antigo Hipódromo dos Moinhos de Vento e, depois, no Hipódromo do Cristal. Meus tios buscavam os cavalos no campo e os encilhavam, para que pudéssemos dar algumas boas cavalgadas, seja em selas femininas, pequenas e bem acolchoadas (nas quais as damas montavam de lado, para manterem unidas as pernas e em forma seus longos e belos vestidos dominicais) ou em selas tradicionais, de couro rústico e cobertas por feltro e mantas de lã.

E lá ia eu, acompanhada pelo olhar atento de minha mãe… Ia longe, serelepe e feliz, até muito além do que ela conseguia me observar. E tecia sonhos. Eu me imaginava galopando velozmente, com os cabelos soltos ao vento, segurando-me apenas nas longas crinas daqueles animais imensos e, simplesmente, adoráveis, que povoavam minha imaginação. Ia muito além do que meus pais e meus tios poderiam supor. E corria alguns riscos calculados, guiada pela por uma boa dose de ousadia e de bom senso. Nunca me feri. Nunca me arrependi. E sempre sonhava com algo mais, muito mais.

Cedo, eu me dei conta de que os cavalos representavam, para mim, força, vigor, sensualidade, imaginação e liberdade. Sabia que uma boa cavalgada implicava em treino, cuidado e responsabilidade. Ah, como eu queria cavalos meus, e tê-los livres, em enormes pradarias. Nada me encantava mais do que apreciar cenas desse tipo, especialmente quando viajávamos para o planalto gaúcho, passando por São Francisco de Paula, Barragem do Salto, Cambará do Sul, Fortaleza, Itaimbezinho. Foi nestas localidades que eu pude apreciar as mais belas cenas equestres, que me pareciam exclusivas do meu amado Rio Grande do Sul, cujas fronteiras eu poucas vezes tinha ultrapassado até aquela fase de minha vida.

Foi então que, já adulta, eu tive o meu primeiro cavalo. Ele se chamava, simplesmente, Ventania.

 

 

 

Ventania 

Nós nos conhecemos numa linda tarde de verão. Ele nos fora apresentado como um “cavalo de patrão”, e ficamos inteiramente deslumbrados ao vê-lo, exatamente conforme as imagens que me deslumbravam, destes ágeis e elegantes animais, a correrem pelas campinas. Havia colinas, e lá vinha ele, Ventania, à frente de um bando de cavalos. Era castanho, ágil, esbelto, e suas crinas voavam ao vento. Sim, era este o cavalo que eu queria. Era com ele que eu, desde a infância, havia sonhado.

Lembrava que meus tios e primos corriam atrás dos cavalos, quando iam buscá-los para mim e meus irmãos. Com Ventania foi diferente. Alguém assobiou, ele mudou o rumo e veio voando ao nosso encontro. Disseram-me para oferecer ração, e ele, docemente, pôs-se a comer em minhas mãos. Não resisti a acariciá-lo, e Ventania não ofereceu qualquer resistência. Pelo contrário: roçou aquela cara linda na minha, como se fôssemos amigos de infância. Foi ali que começou nossa verdadeira história de amor.

Mas… nós nos demos conta de que eu não era aquela amazona que imaginava ser, ao cavalgar nos velhos cavalos de minha infância. Eu tinha muito a aprender. E, então, fui fazer aulas de equitação.

Tudo errado. A professora corrigia minha postura, o modo como eu o envolvia com minhas pernas e como eu posicionava meus pés; ensinava-se a segurar os arreios, a regular pressão, a comandar, a entrar em harmonia com meu lindo companheiro de aventuras. Não era fácil. Eu tinha que aprender a controlar, primeiro, a mim mesma, superando vícios de infância e minha própria inocência: afinal, a verdade-verdadeira é que eu nunca fora uma amazona. Era só imaginação. Feito Dom Quixote e Sancho Pança, eu passara a vida cavalgando animais muito dóceis, cuja principal missão consistia em levar minha avó e toda a família a missas que ocorriam mensalmente na capela do povoado, ou levar meus tios às compras, nas cidades vizinhas. Feito Dom Quixote e Sancho Pança, eu estava razoavelmente protegida, pois minhas aventuras equestres eram bem menos ousadas do que eu desejaria…

Foi assim que, jovem adulta, ao fazer meu curso de equitação, percebi como esta unidade cavalo-cavaleiro reproduz o funcionamento do psiquismo humano. A professora de equitação dizia:

- Abraça o corpo dele com tuas pernas, confortavelmente, e ajeita teus pés de forma que ele perceba, com uma simples pressão de teus calcanhares, se tu queres que ele ande, trote, ou galope. É tudo muito sutil.

- Segura os arreios delicada e firmemente, Eles devem estar bem regulados, nem curtos e nem soltos demais, para que o cavalo possa se locomover com tranquilidade e bem-estar, porém sem que fique à mercê de seus próprios caprichos. Teus comandos têm que ser claros, ainda que sutis. O menor movimento de teus dedos será captado por ele, que saberá exatamente o que fazer.

- Postura ereta, leve, elegante. Ele irá te sentir não como um corpo estranho, mas como parte dele. Unidade. Cavalo e cavaleiro precisam funcionar como se fosse um só. Ele vai adorar estar contigo, e tu com ele.

Sim, era verdade. E eu concluí que

O que é saudável pressupõe o equilíbrio de forças, ou seja, autoconter-se, para autoconduzir-se. É como bem sabe quem aprecia, por exemplo, uma bela cavalgada. Cavalo e cavaleiro devem operar em harmonia. Pernas unidas, ligadas ao corpo do animal. Rédeas curtas, não demais. Apenas o suficiente para conduzir. Pequenos sinais, quase que imperceptíveis, são reconhecidos por ambos os parceiros. E lá se vão os dois, pelo espaço que se abre diante dos seus olhos… Corpo e mente em harmonia. Autoconter-se para bem conduzir-se. A nada, então, se tem a temer…” (A Escolha do cônjuge, p. 203).

Se você se interessou por essa história, aguarde os próximos capítulos. E, se você se interessou pelos temas de psicologia “insinuados” através desta escrita, leia mais em “A escolha do Cônjuge – um entendimento sistêmico e psicodinâmico” (Iara L. Camaratta Anton & ARTMED/GRUPO A), nos capítulos 11: “Agressividade e inveja” e 12: “Sentimentos de culpa, ressentimentos e controle”. Obrigada pela atenção!