IN/FIDELIDADES

RESUMO DO TEMA ABORDADO NA FEIRA DO LIVRO DE PORTO ALEGRE, NO DIA 02/11/16, NA SALA LESTE DO SANTANDER CULTURAL, A CONVITE DA SPRGS, COM PARTICIPAÇÃO DOS COLEGAS SONIA SEBENELO E DIEGO VILLAS-BOAS.

 

TEMA COMPLEXO:

In/fidelidade é um tema complexo, muito mais do que pode parecer, à primeira vista. Ele esteve no cerne das atenções do Curso Intensivo 2016, que ministrei no Salão Nobre do Grêmio Náutico União, e faz parte de novo capítulo da terceira edição de “O casal diante do Espelho. Psicoterapia de casal – teoria e técnica” (Editora Pearson/Casa do psicólogo/SP).

Ser fiel é ser leal, confiável, coerente. O prefixo “in” sugere ausência de fidelidade. E o acréscimo de um “s” no final dessa palavra abre um leque de possibilidades para a busca de entendimento a respeito do tema!

Fidelidade, penso eu, necessariamente começa na relação do sujeito consigo mesmo – com suas crenças, seus valores, seus ideais.

Ocorre que o self é fruto de uma multiplicidade de fatores, tais como a cultura e a época em que vivemos, nosso círculo de relações. Nossas famílias, com ênfase nos pais e cuidadores, são os principais representantes de nossos sistemas de pertencimento.  São eles que nos reconhecem, denominam, estabelecem lugares, possibilidades e limites…  São eles nossas principais  fontes de inspiração e modelos de identificação. Para sempre, estarão vivos dentro de nós, com seus estímulos, cobranças e proibições, funcionando como faróis, dos quais podemos nos aproximar ou afastar, mas lá estão, iluminando a escuridão.

Acontece que é escuro, ou obscuro, o que se passa em nosso mundo inconsciente. Em outras palavras: é, em sua essência, invisível.  O que vemos (ainda assim, apenas em parte) são comportamentos, sentimentos, modos de pensar.  Vemos a ponta do iceberg, conforme diria Freud. A questão das in/fidelidades desponta através de ações e discursos (falsos ou verdadeiros) que as acompanham e pretendem justificá-las ou encobri-las…

 

POR “BAIXO DO PANO”

 

Gestos de infidelidade costumam ser encobertos, disfarçados, negados e renegados. Eles podem ocorrer em muitas esferas, embora tradicionalmente sejam associados às áreas amorosa e sexual. Traição à confiança do eleitor, na administração pública, nas políticas partidárias, nas relações empregado-empregador são alguns exemplos de como e quanto se pode enganar e ser enganado. Vamos, porém, centrar nossas atenções no seio das famílias e, em especial, nos fenômenos que envolvem casais.

Deslealdades, em famílias, ocorrem em situações nas quais uns levam vantagens sobre outros, estabelecendo jogos de poder, que envolvem trabalho, dinheiro, direitos e deveres. Palavras e silêncios facilmente são usados como medidas auto-protetoras ou, até, como armas letais… E, curiosamente, muitas vezes, aquele que se julga o dono da verdade e da razão nem se dá conta de como é o mais injusto, esmaga e destrói. O inverso também é válido: imobilizar-se, vitimizar-se e, até, “suicidar-se enquanto pessoa” pode ser uma das mais eficazes armas para exercer vinganças e fazer dos outros eternos prisioneiros de cobranças que talvez nem se justifiquem… Cuidado com a força dos fracos!…

Ao invés de nos limitarmos a acusações mútuas ou a apontarmos as culpas alheias, poderia ser mais eficaz e transformador podermos sair em busca do entendimento das motivações para todas essas (e muitas outras) formas de traição, de deslealdades, de infidelidades… Afinal, poder confiar e ser merecedor de confiança é uma das principais condições para que se possa com/viver dignamente.

O que ocorre “por baixo dos panos”, em relação a in/fidelidades?…

Havíamos sugerido que “Fidelidade, necessariamente começa na relação do sujeito consigo mesmo – com suas crenças, seus valores, seus ideais”. E mais: ” o self é fruto de uma multiplicidade de fatores”, é mundo interno, inconsciente, do qual se vê apenas a parte externa, como se esta fosse a ponta de um iceberg. Então, a capacidade de ser fiel, confiável, bem como todas as espécies de in/fidelidade, estão a serviço de forças invisíveis, que merecem e necessitam ser decodificadas, para que se possa com/viver melhor.

“Lealdades familiares” estão no cerne de múltiplas deslealdades que ocorrem no aqui e no agora. Em alguns casos, por um viés transgeracional, filhos não têm a permissão de amar e ser amados; seus vínculos são superficiais, efêmeros, permeados por diversos tipos de traição, sempre com a permissão (mesmo que extra-oficial) e a bênção das famílias de origem. Aos seus parceiros, é atribuída a função de procriar e de servir ou… desaparecer. Casos extra-conjugais e promiscuidade sexual, o que se configura, formalmente, como traição amorosa, podem estar a serviço de uma espécie de fidelidade entre gerações. Trata-se de, no mínimo, um funcionamento neurótico, e merece ser tratado como tal.

Se, acima, referimos a patologias familiares, transgeracionais, de ordem narcísica, podemos também ter como foco patologias narcísicas por parte dos indivíduos que se envolvem em relacionamentos marcados por qualquer tipo de in/fidelidade. Eu, eu e mais eu = tão somente eu! A pessoa só pensa em si mesma e só age tendo em vista seus próprios interesses. O outro não é reconhecido e valorizado em sua alteridade, mas apenas como um “doador de suprimentos”. Cumpridas suas funções, seu destino é desaparecer, permanecendo à disposição, se for o caso. Mas quem é este “outro”, que se  coloca (repare: “se” coloca!) nesse tipo de relacionamento? Ele também sofre de patologias narcísicas, e a auto-anulação, seguramente, está a serviço de baixa autoestima, de sentimentos de culpa inconscientes e ou de infinitas outras motivações pessoais.

A questão das díades e dos triângulos também merece ser considerada. Estar a dois é uma experiência ímpar, seja ela maravilhosa ou aterrorizante. Pode envolver intimidade, aconchego, cumplicidade, bem-estar, confiança mútua. Pode significar limitações, aprisionamentos ou, até, engolfamento. Assim, a presença de outros, sob a forma de terceiros, que também possibilitam a formação de outras díades, significa afrouxamento de nós, libertação, novas possibilidades e enriquecimentos, distribuição de responsabilidades… O que eram “nós” transformam-se em “laços”. Ou não! Por vezes, triângulos implicam em traição de confiança, em abandonos, em prejuízos. Depende do que ocorre onde, ao invés da limitação a díades, o universo relacional se amplia.

Mas o fato é que algumas pessoas são sempre engolfadoras e, estejam onde estiverem, em qualquer fase da vida, tendem a se apegar desmedidamente e transformar o outro em extensões suas. Estas sofrem demais diante de terceiros, sejam estes simplesmente amigos, colegas de profissão ou, até, familiares ou seres distantes. Estas podem ver traições inclusive onde não há. Têm ciúme da própria sombra. São leais a si mesmas, imaginando que, se o comportamento for outro, ficarão inteiramente sós e perdidas pelo mundo.

E há aquelas que têm muito medo de serem engolfadas, sofrendo de gamofobia ou de outras formas de ansiedade, que as impedem de serem leais aos seus. É como se, continuamente, estivessem diante de alguma cilada e se defendem através da superficialidade, de inúmeros gestos de deslealdade, da multiplicidade de relacionamentos e de infinitas formas de infidelidade. São fiéis a um instinto de sobrevivência que foi contaminado por uma história de vida demasiadamente frustrante.

Bem… esta é apenas uma amostra do que pode estar “por baixo do pano”, quando as pessoas tendem a agir de forma não confiável. Em síntese, cabe a cada um de nós procurarmos ser coerentes com o discurso e a prática, com os compromissos assumidos, com as relações de confiança estabelecidas. E exigirmos coerência. Se o outro não for confiável, por que seguirmos juntos? Ou há como trabalharmos nossos vínculos e encontrarmos soluções mais efetivas?

Quanto aos terapeutas, individuais, de casal ou de família, cabe que respeitemos a alteridade e não tentemos encaixar os pacientes em nossos próprios moldes, mas unir-nos a eles, quando estes se dispõem a investirem na instigante viagem ao encontro de si mesmos. Nenhum de nós é dono da verdade e nenhum de nós pode “resolver o problema do outro”. Mas podemos, sim, estar ao lado de quem deseja nossa parceria enquanto busca crescer com a vida.

 

MAIS CONTEÚDOS A RESPEITO DESSE TEMA:

Em “O casal diante do espelho. Psicoterapia de casal – teoria e técnica” (Anton, Iara L. Camaratta. Pearson/Casa do Psicólogo. SP: 1916.

  1. IN/FIDELIDADES EM TERAPIA: triângulos iniciais; infidelidade; traição e tradição; in/fidelidades em famílias autoidealizadoras; lealdades familiares x in/fidelidade/s; caamento abeto; erotismos feminino e masculino; redefinindfo fidelidades e in/fidelidades; dissociação entre amor e sexo; in/fidelidades: uma questão de mercado?; a esposa, o marido e a “outra”; sexo no cativeiro; confissões de culpa: uma faca de dois gumes (pág. 209 a 248).
  2. RECONSTRUÇÃO EM TERAPIA DE CASAL: reconstrução e novas narrativas; fragmentos e distorções refletidos no espelho; função especular e terapia de casal; reedição de histórias prévias; o “acontecimento’; novas narrativas e reconstrução de significados; a linguagem na “re)construção de significados (pág. 145 a 160).

 

 

 

Em “A escolha do cônjuge – um entendimento sistêmico e psicodinâmico” (Anton, Iara L. Camaratta. ARTMED/Grupo A. POA: 2012. 

  1. SOBRE UM DETERMINADO “CONTRATO SECRETO” (pág. 110 a 121)
  2. FUNCIONALIDADE E DISFUNCIONALIDADE NAS RELAÇÕES AMOROSAS (pág. 125 a 135).
  3. A EFEMERIDADE NO AMOR (pág. 264 a 275).
  4. FIXAÇÃO MATERNA: A ESCOLHA IMPOSSÍVEL (Pág. 266 a 275).
  5. A ORIENTAÇÃO NARCISISTA (pág. 291 a 305).
  6. SEXUALIDADE (pág. 338 a 410).

A quem interessar… boa leitura!