Entrevista para Jessica Fontoura / UNIMED/março de 2010

Como funciona a terapia de casal?
A terapia de casal consiste numa oportunidade de “reencontro” entre os parceiros, num ambiente relativamente neutro, com a participação de um terapeuta atento e interessado, que faz perguntas e levanta hipóteses, na tentativa de ampliar a possibilidade de que ambos se escutem, se vejam e se compreendam da melhor forma possível.
Alguns terapeutas assumem posições mais ativas, intervindo, aconselhando, determinando tarefas a serem cumpridas. Outros – e eu me enquadro neste grupo – adotam recursos que ampliem o auto-conhecimento, o reconhecimento do parceiro como um “outro”, e não como mera extensão sua, o respeito às diferenças e uma capacidade de lidar saudavelmente com as divergências. Daí o título de meu livro mais recente, lançado pela Editora Casa do Psicólogo (SP): “O Casal diante do Espelho”. Em alguns momentos pode ser doloroso, mas no geral acaba se tornando muito gratificante olhar para o outro, para si mesmo e para a relação com um olhar mais atento, profundo e amoroso. Em síntese, no meu entender, a terapia de casal pode ser metaforicamente representada justamente por esta imagem: a de um casal diante do espelho.
Por sua experiência, que tipo de problemas leva um casal a procurar uma terapia em conjunto?
São muitos, geralmente encadeados, embora um deles possa predominar. Por exemplo: o desencanto, quando o estágio da paixão se desfaz sem que o amor ocupe seu lugar; a falta de criatividade, de iniciativas e de motivos para comemorações a dois; a inércia, a monotonia do cotidiano, o pouco investimento em si mesmo e na relação; a diminuição de prazeres compartilhados, ligados à própria rotina, à intimidade do lar, à convivência com família e amigos, a ambições e sucessos de ordem intelectual, artística e cultural; poucas afinidades, crenças e valores muito diferentes; indiferença, apatia e desleixo; irritabilidade, mau humor e grosserias; inveja, ciúmes, infidelidades… Cabe acentuar que também o nascimento dos filhos e vários pontos ligados à convivência com eles e ao processo educacional são freqüentes geradores de stress na vida conjugal.

Que resultados pode alcançar a terapia de casal?
Um ponto que interessa é onde “realmente” o casal deseja chegar. Suas metas são viáveis, levam o outro em consideração? A fantasia de muitos pares é que o terapeuta poderá contribuir para que “o outro” mude. O foco da terapia de casal, porém, está na “relação em si”, ou seja, naquilo que acontece “entre eles”. Muitos sentem-se aliviados do peso de serem os vilões da história, os coitadinhos, vítimas ou culpados. E interessante é que estes sentimentos negativos muitas vezes os acompanham desde os primeiros anos de suas vidas, repetindo-se “aqui e agora”.
Considero que os principais resultados podem ser: diálogos mais afetivos e, também, mais “efetivos”; modificações na forma de expressarem pensamentos, sentimentos e desejos, bem como de escutarem um ao outro; abandono a idealizações que só trazem prejuízo à auto-estima e ao amor mútuo; substituição destas idealizações por metas viáveis; aumento da tolerância a frustrações e da capacidade de administrar melhor aos conflitos; vida sexual mais criativa, plena e satisfatória, etc. Cada casal é único e não se pode estabelecer critérios universais para se avaliar os resultados.

Em geral, quem aceita melhor o tratamento, o homem ou a mulher?
Ambos. Há alguns anos, quase sempre era a mulher que tomava a iniciativa. Na atualidade, muitos homens não só tomam a iniciativa, como se dedicam intensamente para que a relação com a parceira seja cada vez melhor. E é um conforto para as mulheres contar com esta parceria e cumplicidade. Naturalmente, em virtude de algumas questões neuróticas, existem aqueles casais que buscam ajuda mas, inconscientemente, projetam no outro todos os males e boicotam os sucessos que tomam como desejáveis.

Em geral, de quem parte a proposta de o casal partir para o tratamento, do homem ou da mulher?
Na atualidade, tanto homens quanto mulheres propõe, muitos deles a partir de confidência e sugestão de amigos que já fizeram terapia; de estímulos oriundos de leituras, de palestras e da mídia em geral e também por indicações médicas.
Que argumentos posso utilizar para convencer meu companheiro a procurar ajuda profissional?
De um modo geral o que mais e melhor estimula é conversar francamente, fora das situações onde ambos estão mal-humorados, discutindo e acusando-se mutuamente. A proposta não pode soar como ameaça ou castigo, mas sim como oportunidade que vai beneficiá-los.
Terapia de casal é um investimento, que implica em tempo, dinheiro e genuíno interesse mútuo em favor de uma convivência mais gratificante. Para mim, é muito forte a convicção de que “qualquer coisa” pode merecer uma terapia, mas o que realmente conduz a resultados favoráveis é o “desejo” de se tratar e de (com)viver melhor.