Comentários sobre o TCC do Curso de Formação em Terapia de Casal e Família, realizado no Domus, e da autoria de Juliana Garcia

*Iara L. Camaratta Anton

Psicóloga – CRP 07/0370 – AGATEF 275

Sumário

O presente artigo analisa aspectos conflitivos revelados por alguns pacientes em psicoterapia, ao se confrontarem com suas inclinações homoafetivas e homossexuais.

Introdução:

Em primeiro lugar, quero agradecer ao Domus pela oportunidade de comentar o TCC apresentado por nossa colega, a psicóloga Juliana Garcia, e cumprimentar à autora pela excelência de sua pesquisa e fundamentação teóricas.

Proponho-me a fazer uma análise de cunho muito pessoal, tomando como base uma experiência clínica e uma fundamentação teórica bastante amplas e abstendo-me de citar autores, ainda que tratando com seriedade e certa profundidade esse tema tão complexo e atual, cada vez mais presente em nossa sociedade e em nossos consultórios.

Tendências homossexuais e homoafetivas, até há pouco tempo, estavam condenadas ao silêncio, enchendo de vergonha e temores àqueles que a experimentavam. Ainda que existam mudanças, estas são muito mais acentuadas no discurso do que na prática e nos sentimentos das pessoas a esse respeito.

Observa-se uma tendência a se desenvolver novos conceitos, tendo em vista banir preconceitos ou, ao menos, ocultá-los. Chegamos a um ponto em que muitos de nós podemos aderir ao discurso do momento, no intuito de não sermos discriminados, ao não acompanharmos o pensamento que, agora, toma-se como de vanguarda. O conceito de falso-self pode aplicar-se não apenas aos homossexuais e homoafetivos que não conseguem se assumir como tal, mas também aos heterossexuais, que aderem a um discurso sem, de fato, serem coerentes consigo mesmos, com aquilo que sentem e que pensam nos recantos mais íntimos de seu ser. Nesse clima, o dilema de Ricardo, paciente de Juliana, reflete não apenas o que se passa dentro de si mesmo, mas também o que se passa no seio de sua família e na sociedade da qual ele faz parte.

Terapeutas homofóbicos

Para que um terapeuta possa exercer adequadamente seu papel e suas funções, é fundamental que saiba sobre si mesmo, e que tenha posições claras, para não se ver comprometido com a necessidade de parecer o que não é, enreda            ndo-se em tramas defensivas, que ele mesmo armou. Se ele for preconceituoso e homofóbico ou não tiver suficiente clareza sobre o que pensa e sente, facilmente corre o risco de se defrontar com pontos cegos, de não criar espaço para que o paciente se revele ou de tentar enquadrá-lo em alguma alternativa qualquer.

No momento atual, não são raros os terapeutas que buscam encontrar em suas próprias análises, psicoterapias ou supervisões, um respaldo para melhor lidarem com o que pacientes homossexuais e homoafetivos esperam encontrar em seus consultórios. Buscam reconhecer em si mesmos aqueles componentes obscuros, conflituados, ainda mal-elaborados, que dificultam o atendimento prestado a seus pacientes. A tentativa é de descobertas e de resolução de conflitos. E essa tentativa, por vezes, é estimulada pelo surgimento de transferências e contratransferências, com as quais têm uma dificuldade especial em lidar. Que fazer perante confissões que despertam mórbidas curiosidades, ou aversões, ou inesperadas excitações? Como trabalhar fantasias eróticas, desejos ou repulsas instintivos? Que focos eleger, que rumos tomar, e de que forma seguir?…

Como, em nossa cultura, as possibilidades de “assumir a homossexualidade e a homoafetividade” são recentes, nada mais natural de que muitos de nós, terapeutas, nos encontremos relativamente despreparados para assumirmos adequadamente nosso papel e nossas funções e que, movidos por um senso ético de fundamental importância, procuremos os recursos teóricos, técnicos e pessoais necessários.

Homem e Mulher = Masculino e Feminino?

Anatomia não é o destino! Nasce-se, salvo raras exceções, com uma genitália que identifica se somos menino ou menina, homem ou mulher. E as crianças, desde tenra idade, são identificadas como tal, ao receberem um nome próprio adequado e uma série de estímulos que as orientam.

Além disso, num determinado momento de suas vidas, desperta-se a consciência de gênero, e surgem perguntas como:

- Por que o meu pipi é diferente do pipi de fulano?

- Onde está o “tico” de minha irmãzinha?

- Eu queria tanto um “batonzinho” igual ao de meu primo!

- Por que o pipi do papai é tão maior do que o meu?

- Mamãe, onde está o seu pipi?

E assim por diante…

Esse é um momento que marca a formação da identidade de gênero pois, ao se assinalar em que consiste ser homem ou mulher, assinala-se também as principais características de um e de outro, bem como papéis e funções típicos, sentimentos que se experimenta e se desperta a esse respeito:

- Quem vale mais: os homens ou as mulheres, os meninos ou as meninas?

- Por que?

- Que importância tem um para o outro?

- O que sente um pelo outro?

- Quais os discursos vigentes?

- Que partes desses discursos são coerentes com a prática?

Essas e outras indagações costumam ter como principais focos de atenção a própria criancinha (sempre ocupando lugar central), seus pais e cuidadores e seus irmãozinhos.

No caso de Ricardo, a pessoa merecedora de amor era o pai que, ao desaparecer precocemente, mostrou-se frágil, contrariando idéia de que os homens são fortes e protetores; abandonou-o aos cuidados de uma mãe castradora e hostil, de um irmão preconceituoso e tirânico. Se essa não for a realidade “factual” é, ao menos, o que diz a realidade psíquica por ele revelada. E é exatamente isso que deve ser levado em conta, durante todo o processo: existem registros e interpretações revelados a partir de suas subjetividades, tão ou mais importantes e constituintes do que a realidade “factual”.

Em vários pontos da leitura do TCC que está sendo comentado, perguntei-me o quanto e como deu-se o processo transferencial, as pessoas do pai, da mãe e do irmão sendo projetadas na pessoa do terapeuta. Também o quanto e como as vivências de Ricardo no seio de sua família repercutem em suas escolhas amorosas e sexuais e nas diversas manobras evitativas que ele emprega continuamente.

Ser homem ou mulher não significa ser masculino ou feminino, hetero ou homossexual e afetivo. Cada ser humano apresenta uma infinidade de combinações possíveis, e as questões relativas ao gênero são de uma enorme complexidade, tendo em vista as representações e inclinações psíquicas, os sentimentos e os comportamentos adotados. Para nos aliviarmos da ansiedade desencadeada diante de tantas variáveis, corremos o risco de buscarmos avidamente por definições, tão inúteis quanto, por si só, limitadoras. No caso de Ricardo, por exemplo, o que e quem ganha quando se conclui, por exemplo, que ele “é” um homossexual? Que utilidade clínica e prática estariam vinculadas a uma “identidade formalmente assumida”? Será que, no momento em que houvesse uma resposta conclusiva, não se estaria correndo o risco de fechar portas e janelas, conduzindo-o por um cada vez mais estreito funil?

A riqueza de um processo terapêutico está em ampliar o contato consigo mesmo e o desenvolvimento de defesas melhor elaboradas, que representam novas e mais ricas formas de se interpretar e elaborar conflitos conscientes e inconscientes. Definidos e redefinidos os conflitos e seus significados, espera-se que se encontrem novas formar de administrá-los, de lidar com eles. A tendência, usualmente, é repetirmos os mesmos padrões, num ciclo interminável. É o que Ricardo revelava à sua terapeuta: entre compulsões e defesas, atuava suas fantasias e ambivalências – e assim foi que encerrou a terapia dando a impressão de que as mudanças apresentadas não foram nem profundas, nem consistentes e nem duradouras. Talvez trate-se apensas de uma pausa. Às vezes, é preciso parar, até mesmo para, mais adiante, retornar ao tratamento e aproveitá-lo melhor. Interessante é que, nessas pausas, muitas vezes as pessoas seguem trabalhando internamente aquilo que foi tratado e, ao retornarem, observamos que as sementes plantadas e cuidadas com tanto carinho germinaram, desenvolveram-se e aqui estão, em busca de alimento, luz e calor, para que sigam adiante, em busca de seus próprios frutos.

Identidade x desejo

Identidade é algo substancial, estruturante. “Eu sou”. E a identidade de gênero é a primeira a ser anunciada, a partir de exames pré-natais e do nascimento de um bebê. Só depois de definido o gênero, escolhe-se o nome e, comumente, opta-se por um nome não-ambíguo.

Outros fatores ligados à nossa identidade são relativamente secundários. Profissão, por exemplo. Cor da pele, dos olhos, estatura… Tudo isso e muito mais detalhes fazem parte da identidade e diferencial cada ser, mas quase tudo se organiza ao redor daquele conceito primordial: homem ou mulher.

Quando se fala em identidade de gênero, pode estar havendo certa ambiguidade, pois um homem é um homem – mesmo que seus desejos sejam dirigidos, preferencial, ocasional ou exclusivamente, às pessoas do mesmo sexo. Inclinações homossexuais podem ser entendidas como elementos que definem identidade? Penso que não. Num documento de identidade ou num currículo, por exemplo, uma pessoa declara nome, gênero, filiação, data e local de nascimento, profissão… e não tem que declarar, nunca, suas preferências sexuais. Provavelmente, essa exigência só apareceria tendo em vista escolhas discriminatórias. No meu entender, não faz parte daquilo que se define como identidade.

Um homem com marcantes tendências femininas, não deixa de ser homem por isso. Há homens muito assumidos como tal, que assumem com maestria funções ditas maternas, cuidados para com suas famílias e seus lares, mostrando-se amorosos e sensíveis, sendo hetero ou homossexuais. Nestes casos, qual a sua identidade? Tem como se restringir e rotular a quem quer que seja, a partir de inclinações como estas? Alguém teria que declarar-se “sou um homem-maternal”, para dizer que assumiu sua “verdadeira identidade”?

Alguém pode ser homem, mas odiar sê-lo e recusar a assumir-se como tal. Mas, nem por isso, deixa de ser homem, mesmo que travestido. Se optar por uma cirurgia transexual, aí sim, sua identidade muda. E agora?…

Quero, por essas razões, insistir que o foco de uma terapia de paciente homossexual e homoafetivo eventualmente poderá se constituir numa busca de identidade, mas acredito que o principal foco, tendo em vista o sucesso clínico, está na análise das pulsões e dos desejos, das fantasias conscientes e inconscientes e das relações com a própria família, com seus pares e com a sociedade da qual participa. Possivelmente, em alguns momentos, a relação paciente/terapeuta, transferência/contratransferência merecem especial atenção, tendo em vista a compreensão e a atualização de conteúdos do mundo interno e a elaboração de conflitos.

A questão do desejo e do temor

Ricardo via-se inundado por conflitos, desde sua infância. A rejeição demonstrada por sua mãe, deve-se a que? Ele deveria ter nascido menina e decepcionou-a por não satisfazer suas expectativas? Qual a posição dele e de seu irmão nesta sua família nuclear? E quais as posições de seu pai e de sua mãe em suas respectivas famílias de origem? Que lugares ocuparam e que funções eles exerceram em suas histórias pregressas? Que aspectos das mesmas estariam se reapresentando quando se uniram e quando tiveram seus próprios filhos? O que levou a que o irmão fosse o preferido da mãe e o tema “homossexualidade” se tornasse tão gritante entre eles? Por que e de que modo Ricardo era tão facilmente reconhecível por seus novos parceiros sexuais? O sexo “bruto” entre os homens, que tanto o fascinava, era um modelo que imaginava presente na vida sexual de seus pais e irmão? De onde tirava suas conclusões a respeito da sexualidade feminina, se ele conhecera intimamente (e de forma tão limitada) a uma única namorada e à sua própria mãe? A que mais desejava, a que rejeitava e tomava como insuportável, em relação a amor e à sexo? O que temia, do que fugia? Em seu meio, como era recebida e avaliada, ainda que em tese, a questão da homossexualidade?

As perguntas, as questões são inúmeras. Simplesmente, infindáveis. O acolhimento ao paciente revela uma disponibilidade da pessoa do terapeuta e uma oportunidade para o repensar-se, ressignificar-se e redefinir os rumos de sua própria história.

No caso de Ricardo, repetidas vezes ele retomou àquela pergunta básica: quem sou eu? As respostas possíveis o conduziriam a um ponto central, de efeito estruturante: a definição de sua identidade pessoal. A partir disso, ele poderia passar para uma etapa seguinte: e agora, o que faço com isso? Mas, no meu entender, essa busca ansiosa por sua “identidade” pode se constituir no desenvolvimento de uma defesa auto-limitadora: ao obter uma resposta conclusiva, do tipo “eu sou um homossexual”, ele desiste da terapia, pois (suponho) não quer abandonar seu velho projeto de adequar-se às expectativas de seu meio. Pensa em casar, fugindo às críticas e hostilidades de seu irmão e à rejeição por parte da mãe… mas será que algo, de fato, mudaria em relação a essa família? Muito improvável!… Mantém as aparências… mas que aparências se, em qualquer lugar, muitas pessoas o identificam como gay? Mantém as distâncias, ao casar com uma mulher que mora tão longe, e manter presentes as possibilidades de encontros-culpados com seus amantes eventuais. Por que tudo isso?… Para que?…

Ricardo começou a trilhar o caminho terapêutico. Talvez tenha o suspendido no momento em que tivesse que declarar: “eu desisto… não consigo e talvez nem mesmo deseje decidir nada… se eu sou e não sou, se eu quero e não quero… com que olhos te olho… com que olhos vais, tu, me olhar?…”

Ele partiu da terapia precocemente, como seu pai partiu da vida, e o deixou.

Ele deixou a terapeuta precocemente, sem sabermos o quanto, nela, se refletia, a imagem do pai amoroso, a quem não queria decepcionar; ou da mãe e do irmão, cuja rejeição temia sofrer. A transferência é influenciada por algumas características da pessoa do terapeuta, de suas posturas e métodos. Mas é, antes de tudo, um processo inconsciente, espontâneo, o deslocamento de conteúdos internos do paciente. E quando nós, de modo algum, nos identificamos com aquilo ou aqueles que em nós estão sendo projetados, corremos o risco de não identificarmos um material importante a ser trabalhado.

Afinal, neste caso, nós não somos… não somos o pai, a mãe e o irmão! E, ao não podermos nos reconhecer como tal, corremos o risco de deixar passar por perto um material decisivo para o sucesso terapêutico.