BAIXA TERAPIA

Iara L. Camaratta Anton*

 

Tive a grata satisfação de assistir “Baixa Terapia”, com Antônio Fagundes e elenco, em uma das sessões de estreia desta peça teatral, em São Paulo.

Tragicômica, provoca risos ao colocar três casais em situação inusitada, a partir de tática criada por terapeuta em comum que, tendo marcado, propositalmente, o mesmo horário para todos, desafia-os a discutirem entre si e a buscarem soluções para seus conflitos conjugais, sem a sua presença. Eles não se conhecem e, naturalmente, protestam contra a exposição da própria intimidade. Ela havia deixado, além de bebidas e canapés, uma série de envelopes, com indicação de tarefas, em ordem crescente.

Bem, essa situação seria inviável, pois nenhum profissional poderia promover encontros de casais em terapia sem objetivos claros e o consentimento destes e, da mesma forma, não poderia expor os conteúdos que são compartilhados com ele. Isso seria uma perfeita “traição da confiança”, uma falha ética grave, passível de ação judicial. Mas a proposta da “Baixa Terapia” nada tem a ver com técnicas terapêuticas, e sim com a criação de um espaço cênico para que situações que perpassam a vida de muitos casais impactem o público, levando-nos ao riso e a profundas reflexões.

Como agem e reagem os casais, diante de múltiplos desencontros e contradições que fazem parte de sua vida em comum? O que leva a que se escolham, comportando-se como “cara ou coroa”, numa relação visivelmente complementar? Como induzem os filhos a comportamentos socialmente contestáveis? Falar com simplicidade sobre fantasias e desejos sexuais é viável e facilita a vida a dois? O que está por trás de relacionamentos supostamente perfeitos, harmoniosos, porém marcados por segredos e jogos de poder?  Em que circunstâncias as pessoas servem-se de sintomas para, de alguma forma, denunciar seus desencontros íntimos e punirem o parceiro que as oprime?

Antônio Fagundes descobriu essa peça em Buenos Aires e, há dois anos, tem trabalhado nela, incluindo parte do público em ensaios e, finalmente, abrindo espaço para discussões com a plateia após as sessões. Achei muito oportuno que uma senhora presente no auditório tenha, entusiasmada, aplaudido essa “nova forma de terapia”, pois sua intervenção oportunizou esclarecimentos a respeito dos temas “confidencialidade, ética e justiça”. Meu receio está justamente em interpretações indevidas acerca de recursos terapêuticos. A mídia bem poderia explorar esse tema, quando abordar a excelente peça “Baixa Terapia”…

Ficamos, todos, encantados. Os atores foram, merecidamente, aplaudidos de pé. Mas a peça somente virá a Porto Alegre após a temporada recém-iniciada em São Paulo. Certamente, permanecerá por muitos anos em cartaz!

Efusivos parabéns, Antônio Fagundes e companhia!

* Psicóloga. Psicoterapeuta individual e de casais. Autora dos livros “A escolha do cônjuge – um entendimento sistêmico e psicodinâmico” (ARTMED/Grupo A) e “O casal diante do espelho. Psicoterapia de casal – teoria e técnica” (Pearson/Casa do Psicólogo); docente em Psicoterapia individual e de casal.