Castelos de areia – mitos sobre o amor

Castelos de areia*

Iara L. Camaratta Anton

Referíamos a mitos de felicidade, tal como “almas gêmeas”, “amor escrito nas estrelas” e “felicidade para sempre, por exemplo. E nos demos conta de que…

… “Em alianças dessa natureza, é mínima a predisposição a se lançar um olhar mais atento e crítico à sua própria relação, pois esse, necessariamente, devassaria os véus que tentam encobrir os aspectos nos quais a realidade não se encaixa em seus moldes idealizados. O casal fica firmemente unido, na tentativa de permanecer fiel ao seu contrato inicial, cuja principal cláusula diz respeito à preservação das referidas ilusões. Negam, reprimem, projetam. Contudo, essas defesas mostram-se insuficientes para sustentarem, por longo tempo, as forças conflitivas que se movem dentro de ambos (enquanto casal), dentro de cada um (enquanto indivíduos) e dentro do sistema maior que os abriga, sustenta e desafia.

São necessários reforços constantes para que se conserve uma imagem convincente. Esses reforços consistem em edificar ilusões sobre ilusões. É como construir castelos em areia, frágeis na base, na estrutura e no seu todo. Não são necessárias nem chuvas, nem ventos, nem mudanças nas marés, nem terríveis tempestades, para que tais castelos se ­destruam. As brisas mais leves, as chuvas mais finas, o sereno das madrugadas, a suavidade com que passam os dias mais suaves… tudo contribui para que, com o passar de pouco tempo, ainda que lentamente, essas lindas, porém efêmeras construções, percam suas formas e, finalmente, se desfaçam. Mantê-las intactas exige mais do que atenções e cuidados constantes. É tarefa praticamente impossível, ainda que os artistas decidam não investir nunca mais em qualquer outro tipo de atividade.

Os casamentos dos contos de fadas, bem como os casamentos idealizados no século XX, são como esses castelos de areia. Os casais que conhecemos em nossos consultórios, quando adeptos desse tipo de ilusão, apresentam sintomas, geralmente através de uma de suas partes, que atua como porta-voz. Eventualmente, ainda assim tentam usar a terapia (individual, de casal ou de família) sem que seja tocada a imagem que criaram para o seu vínculo. Diferentes sintomas prestam-se para denunciar-encobrindo. Se o terapeuta aceitar essa imposição silenciosa, estará fadado a uma aliança tão falsa e inoperante quanto aquela que, querendo ou não, sabendo ou não, está sendo colocada em suas mãos.”