CRIANÇAS & CONFLITOS PARENTAIS* 

 MANIFESTAÇÕES INFANTIS X CONFLITOS PARENTAIS 

Crianças levadas à terapia freqüentemente estão refletindo conflitos mal-resolvidos, da parte de seus pais. A experiência clínica tem demonstrado que os “problemas” que elas apresentam expressam, na maior parte das vezes, os dilemas normais de um ser humano em desenvolvimento. A criança e seus pais trocam estímulos, continuamente. Que estímulos são estes e de que modo se manifestam é fator decisivo nos rumos da história. O modo como o casal parental lida com as manifestações infantis está arraigado em suas próprias vivências e no “contrato secreto”, ou seja, inconsciente, que caracteriza seu vínculo conjugal.

Por vezes, os adultos atribuem a seus filhos funções anti-naturais, projetam neles  seus próprios conflitos, e conduzem-nos para becos sem saída. Quanto mais os pais necessitam de uma criança com problemas – mesmo que acreditem no contrário – menos chances ela tem de aproveitar bem uma terapia individual. A abordagem familiar costuma ter resultados mais rápidos e consistentes, sendo que, a partir dessa experiência terapêutica, muitos pais passam a reconhecer suas próprias dificuldades pessoais e vinculares, concluindo que o filho os levou ao tratamento…

 

 

DA PSICOTERAPIA INFANTIL A OUTRAS ALTERNATIVAS IMPORTANTES, COMO TERAPIA INDIVIDUAL DE ADULTOS OU TERAPIA DE CASAIS E DE FAMÍLIAS

 

Com certeza, algumas crianças apresentam dificuldades emocionais importantes e, até mesmo, quadros que indicam severa patologia. Como tal, precisam de tratamento psicológico e, muitas vezes, medicamentoso.

Mesmo assim, nos dias de hoje, a partir da experiência clínica pessoal, de grupos de estudo teóricos e técnicos, e de outras fontes de in/formação, minha tendência seria não aceitar crianças em terapia estritamente individual, na medida em que as entendo como fruto de um sistema que as gera e nutre física e emocionalmente. Potenciais genéticos e outros podem ou não se manifestar e ganhar corpo, o que depende de uma série de outros colaterais. Um deles, de vital importância, diz respeito ao meio-ambiente favorável à eclosão e ao desenvolvimento da saúde ou da doença.

 

Todas as crianças apresentam comportamentos potencialmente perturbadores, ainda que façam parte das expectativas normais de desenvolvimento. Um exemplo simplíssimo está nas crises de birra ao longo da fase que Freud denominou anal. Elas podem desencadear perplexidade e mal-estar entre os adultos, bem como acusações mútuas, constrangimento e dificuldade em impor limites adequados. Avaliações incorretas geram dificuldade em entender que o negativismo, acompanhado pelas referidas crises de birra, fazem parte da descoberta do eu e do desenvolvimento da autonomia pessoal. Assim, facilmente os pais se excedem nas tentativas de controle ou, pelo contrário, submetem-se aos caprichos infantis, por não suportarem qualquer tipo de confronto. O que era para ser simplesmente um importante passo na evolução egoica, passa a ser fonte de conflitos e pode resultar num permanente desequilíbrio nas relações conjugais e familiares, bem como na formação de sintomas. Quando o casal atingiu certo grau de maturidade e de capacidade de lidar com suas próprias emoções, mais provavelmente saberá lidar com estes e outros desafios do ciclo evolutivo, e a criança irá experimentá-los saudavelmente, crescendo e aprendendo a viver bem, etapa após etapa.

 

 QUESTÃO FUNDAMENTAL: O QUE EU FALO COM MEU FILHO OU COMO EU ADMINISTRO MEUS PRÓPRIOS CONFLITOS, PARA MELHOR RESOLVER MEUS DILEMAS EXISTENCIAIS? EIS A QUESTÃO! 

Em terapia de casal, mesmo quando esta é procurada a partir de algum conflito do qual a criança apresenta-se como causa ou porta-voz, a tendência é que os pais venham a perceber como, quando, por quê e para quê envolvem o filho em seus problemas. Uma vez que conseguem administrar melhor a si mesmos, enquanto indivíduos e enquanto par, a tendência é que os pequenos respondam com significativa mudança nos comportamentos até então considerados perturbadores. Dentre as inúmeras razões para as respostas positivas, está o desenvolvimento de uma maior capacidade de lidar com os conflitos íntimos e relacionais e o desenvolvimento de melhor capacidade de comunicação.

 

Recortes do capítulo I, intitulado “Crianças x terapia de casal”, do  livro “O Casal diante do Espelho. Psicoterapia de casal – teoria e técnica”, de Iara L. Camaratta Anton. (Editora Casa do Psicólogo/ Pearson)