AMORES TANTALIZANTES:

SOFRIMENTOS QUE NÃO TÊM FIM!

Iara L. Camaratta Anton

Inúmeros conceitos, referentes à mente e às relações humanas, inspiram-se na mitologia de povos diversos. “Amores tantalizantes” é expressão que faz algum sentido para você? Se for “amor”, pode ser “tantalizante”?… Você sabe quem foi “Tântalus”?

Tântalus vivia nas proximidades do Olimpo e, certo dia, ousou apoderar-se do manjar dos deuses, no Olimpo, sendo, então, severamente punido por Zeus: acorrentado num lago de águas cristalinas, em um bosque cheio de árvores frutíferas, foi condenado a nunca mais saciar sua sede ou matar sua fome, em meio à tamanha abundância. Lembre-se que Zeus, o deus dos deuses, permitia-se tudo, mas era extremamente rigoroso e, até, cruel, quando sofria alguma contrariedade!

 

A água subia, até quase seus lábios… mas não o suficiente para que ele pudesse beber. As árvores floriam, as frutas formavam-se, amadureciam e caiam na relva ou, até, no lago… mas ele não tinha como alcançá-las…

David Zimerman, inspirado neste mito grego, denominou “vínculos tantalizantes” àqueles nos quais a relação “não ata e nem desata”, criando-se um círculo vicioso, que envolve jogos de sedução e poder, capazes de produzir prazeres intensos e fugazes, seguidos por frustrações imediatas e extremamente dolorosas. Esperança e decepção constituem-se na marca registrada dessas histórias, que parecem não ter fim.

Que motivações e conflitos inconscientes levam casais a se escolherem e a se envolverem, em condições aparentemente tão adversas? As teorias acerca da comunicação humana demonstram que boa parte desta é não-verbal, sendo que uma enorme gama de mensagens vai sendo continuamente emitida, captada e interpretada.

Não há erro na emissão e na recepção de mensagens, mas pode haver na interpretação dos dados! Distorções são fruto de diversos fatores, entre eles nossa história pessoal, nossos modelos de identificação e nossos mecanismos de defesa. Mas, se houve algum erro de interpretação no início de um relacionamento, a convivência implica numa repetição de fatos e, quanto aos fatos, por que se tolera o intolerável, se minimiza os danos, se maximiza acusações e queixas estéreis, e se constitui o vínculo?

 

Nem o conselho de amigos, a repetição da história e o bom senso em outras áreas da vida, mostram-se efetivos para que se rompem elos tantalizantes. Parece que nem a memória do ciclo que se repete serve para nada! Aqui, estamos diante de um processo complexo pois, assim como sugere o Mito de Tântalus, há culpas a serem expiadas, há castigos que devem ser cumpridos, sem quaisquer possibilidade de evasão. Zeus, o deus dos deuses, pode ser associado ao superego, que acusa por crimes supostamente cometidos, de tal modo que o paciente deverá penar exatamente na área onde “pecou”. Se a pena é dirigida à conjugalidade, esse fato pode ser tomado como um indício de que o “crime” foi no terreno vincular (Relações fraternas? Conflitos em relação ao gênero? Édipo?…). O intuito seria punir o parceiro, identificando-se com Zeus? Ou ser punido?

A indicação seria alguma abordagem terapêutica que permita, ao indivíduo ou ao casal, tanto a obtenção de insigts, quanto a elaboração de conflitos inconscientes.

Que recursos e princípios terapêuticos podem servir como apoio ao profissional que, pela cronicidade do quadro, corre o risco de também se tornar prisioneiro, num processo que não tem fim?

Esse tema está presente em diversos capítulos dos livros indicados na bibliografia abaixo e recebe um capítulo especial no livro a ser lançado em 2018, cujo título será, simp0lesmente, “Vínculos”.

 

 

ANTON, I, L. C, A escolha do cônjuge – um entendimento sistêmico e psicodinâmico. POA: ARTMED/GRUPO A.

 

____. Homem e Mulher – seus vínculos secretos. . POA: ARTMED/GRUPO A.

____. O casal diante do espelho. Psicoterapia de casal – teoria e técnica. SP: PEARSON/Casa do Psicólogo.

ZIMERMAN, D. E.       Os quatro vínculos. POA: ARTMED/GRUPO A.