Sobre segredos em nossas vidas

SOBRE SEGREDOS EM NOSSAS VIDAS

1. NOSSOS MAIS DELICIOSOS SEGREDOS

Há alguns segredos simplesmente deliciosos, você concorda?…

Aqueles que guardamos apenas para nós, certos de que ninguém no mundo vai descobrir. Eles talvez nos divirtam, talvez nos deem a sensação de que temos um espaço privado que, de tão íntimo, só dá acesso ao sol, à lua, às estrelas… a uma brisa que sopra de leve…

Aqueles que, de tão preciosos, são guardados numa espécie de sacrário que, contudo, emana ao redor uma aparentemente inexplicável sensação de bem-estar.

Há também aqueles que compartilhamos com pessoas muito especiais, que sintonizam com nossos melhores sentimentos, nossas alegrias e conquistas, e que vibram conosco; e que acolhem nossos anseios e temores, que nos ajudam a curar feridas e que, por sua vez, também compartilham conosco sua intimidade.

Trata-se de deliciosos segredos, que nos dão prazer, diferenciam-nos uns dos outros, protegem-nos de olhares intrusos… Mas nem todos são assim…

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2. SEGREDOS NOCIVOS 

Mas, em matéria de segredos, nem sempre e nem em tudo é assim como nós vimos na postagem anterior, quando conversávamos sobre “deliciosos segredos”.

O fato é que os segredos, na sua imensa maioria, são guardados a sete chaves, tendo nascido de nossos sentimentos de culpa, vergonha e medo. Medo de sermos apontados, condenados, rejeitados. Ou, em outros casos, podemos guardar segredos por razões extremamente egoístas, negando o direito alheio à informação e tentando obter ou conservar vantagens, em prejuízo de pessoas próximas ou distantes, ou, inclusive, da sociedade de um modo geral.

Segredos definem espaços e alianças. Pressupõem incluídos e excluídos, talvez também protegidos e injustiçados. Alguns deles causam danos à formação da própria identidade, ao desenvolvimento psicossocial, psicossexual, intelectual e econômico. Trata-se de segredos nocivos.

Dentre estes, por exemplo, podemos destacar os segredos sobre a origem (adoção, concepção a partir de adultério, de abuso sexual ou outra de modalidade, considerada ilícita…); infidelidades diversas (alienação parental e várias modalidades de traição aos pactos amorosos, familiares, comerciais, etc); dívidas; fatos considerados vergonhosos, recontados sob a forma de mitos familiares…; violências (verbais, sexuais, físicas, sociais…); preconceitos (raciais, sexuais, socioeconômicos e culturais); patologias físicas e transtornos emocionais…

Nestes casos, os segredos são frutos de sofrimentos mal resolvidos e não resolvem a problema algum. Muito pelo contrário! Eles afastam, segregam, prejudicam às pessoas que dele (direta ou indiretamente) participam, criam limites intransponíveis a relações onde imperam intimidade e confiança.

E tem mais: expressam os sentimentos ocultos através da formação de sintomas… Este doloroso caminho de “saída” também pode funcionar como “canal de acesso”, permitindo que, enfim, ocorra algum encontro pessoal que permita vencer a barreira e descobrir soluções mais efetivas para os dramas vividos.

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3. PRIVACIDADE

Diferente de segredos, temos a privacidade.

Em terapia, muitas vezes, o conteúdo dos segredos tem que ser delicada e firmemente trabalhado, bem como os sentimentos e as fantasias que os acompanham. Desta forma, passo a passo, podem adquirir o status de privacidade, resultando em conforto e segurança psíquicos.

Na época atual, estamos observando um super-estímulo à auto-exposição, através de “selfies”, das mídias sociais, de comportamentos e de falas em público. O princípio que rege esse padrão de comportamento é “você é aquilo que parece ser”.

Falhas em relações de apego podem gerar a busca desenfreada pela sensação de acolhimento, de cumplicidade e de aprovação. Quanta ingenuidade!

A intolerância a frustrações e a impulsividade levam a que algumas pessoas exponham-se impensadamente, com consequências, por vezes, desastrosas. Quanta imprudência!

O exibicionismo tende a levar-nos para a frente do espelho, para o centro do palco, como se nós fôssemos tudo de bom. Quanta vaidade!

Nestas circunstâncias, corremos o risco, sim, de não investirmos nosso precioso tempo na construção de vínculos reais, profundos e verdadeiros.

E, se tivermos a felicidade de tê-los, seguramente faremos o possível para preservar nossa privacidade, pois é nela que se encontra o altar-mor, com o sacrário que abriga aquilo que temos de mais sagrado:

Nossa intimidade.
Nossas crenças e valores.
Nossas histórias mais pessoais,
que incluem momentos difíceis, muito difíceis,
e felizes, muito felizes.
Aquelas histórias nas quais amamos e fomos ou somos
muito amados.

É em nossa privacidade que encontramos nossos principais estímulos e amparos – usualmente, não em segredos nocivos. Estes merecem ser cuidadosamente des/cobertos, transformados em narrativa e compartilhados com quem se mostra confiável o bastante para participar de nossa intimidade, com delicadeza, respeito e consideração.

Afinal, são nossos laços e histórias que nos constituem, e nos permitem viver bem o presente, enquanto a vida durar!

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