RELAÇÕES AMOROSAS E SUAS PATOLOGIAS, DE ACORDO COM AS TEORIAS SISTÊMICAS (Em tempos de Corona-Virus)

RELAÇÕES AMOROSAS E SUAS PATOLOGIAS,

DE ACORDO COM AS TEORIAS SISTÊMICAS

(Em tempos de Corona-Virus)

 

Em pleno ano de 2020, estamos atravessando por uma longa e grave fase de pandemia, devido ao novo “Corona Virus”. A ordem dada pela OMS é, simplesmente, “fiquem em casa!”

Eu fico, você fica, nós ficamos. Se vale para mim, vale para os outros. Se vale para os outros, é óbvio que vale também para mim – salvo claras exceções. É pelo bem de todos. Esse princípio tem tudo a ver com a vida em sociedade, tem tudo a ver com “civilização”. Exige renúncias, exige firmeza. Exige capacidade de conviver.

Mais do que nunca, funcionalidade e disfuncionalidade, saúde e patologias (individuais, conjugais, familiares e sociais) são colocadas à prova. Convivência é sempre um desafio. Convivência em situação de, por assim dizer, “confinamento” torna-se mais instigante ainda.

É tão bom ser próximo, estar próximo, trocar abraços e beijos. Mas não demais e nem durante o tempo todo. Sentir-se sufocado conduz à impaciência, aumenta a irritabilidade. Existe um ir e vir, um certo equilíbrio entre proximidade e distância que, ao invés de afastar, reforça os laços, favorece o bem-estar. Estamos referindo a fronteiras, cuja demarcação facilita a vida em comum.

Entre alguns casais, da mesma forma que em suas famílias, as fronteiras são muito tênues, o que geralmente se faz seguir por hierarquias mal definidas. Quem é quem? Quais os papéis e as funções, os deveres e os direitos de cada um? Alguém está em desvantagem, sobrecarregado, enquanto outro tem mais regalias, exercendo tiranias sobre os demais? E, afinal, quem manda nessa casa?

Dentre os papéis temos, por exemplo, marido, esposa, pai, mãe, filhos, irmãos, donos da casa, profissionais, estudantes… A cada papel, correspondem diferentes funções, o que significa diferentes compromissos direitos. Dentre as funções, pode e deve haver certa flexibilidade, de acordo com o crescimento e o desenvolvimento de cada um, com as necessidades rotineiras ou circunstanciais, etc. Assim, desenvolvem-se as competências, modos de ser e de agir.

O casal está no cerne disso. Quais são suas principais crenças e valores – os mais profundamente arraigados e, talvez, inconscientes? Como ambos se relacionam, como levam-se em consideração, como se aproximam ou se afastam, como ajustam suas diferenças e divergências? Tudo isso reflete-se na relação familiar, definindo o presente o influenciando poderosamente no futuro de cada um.

Nessa época de reclusão, devido à pandemia pelo Corona Virus, o “estar junto” pode significar uma verdadeira tortura, para ambos os parceiros, evidenciando o quanto um e outro já não se toleram, ou quanto, ao não saberem administrar bem suas frustrações, usam o cônjuge ou um dos filhos como “lata de lixo”, onde jogam, impiedosamente, seu mal-estar. Outros, em compensação, evidenciam e fortalecem laços, decididos a conviverem tão harmoniosamente quanto possível. São criativos, sabem se ocupar e mantém um bom nível de comunicação.

Havendo, no seio da família, muitas disputas e jogos de poder, é bem possível que, do ponto de vista sistêmico, a “patologia de hierarquias” esteja no cerne da questão.

Nós bem sabemos que todas as crianças, nos primeiros anos de sua vida, apresentam fortes crises de birra, cada vez que se sentem contrariadas. Rejeitam, limites, comandos, sem pudor algum. E mais: irmãos brigam entre si, disputam atenções e privilégios. Muitos casais simplesmente não sabem como administrar tais desafios, tais descargas emocionais, desorganizando-se interna e externamente: pai e mãe, marido e mulher, acabam descarregando no outro o mal-estar, e culpam-se mutuamente pelas atitudes dos filhos que, na verdade, podem estar adequadas ao ciclo evolutivo, fazendo parte de aprendizagens necessárias. O mundo não é exatamente como queremos. Temos que conter nossos impulsos e emoções, para melhor nos conduzirmos em nossas vidas e em nossos vínculos.

Mas nem todos aprendem. Muitos crescem, tornam-se adultos, casam, têm filhos, trabalham, chegando, talvez, a altos cargos e salários, sem jamais terem superado os dilemas mais primitivos de suas vidas. “Sua majestade, o bebê”, continua agindo como “um reizinho em seu troninho”, impondo o que quer – simplesmente porque quer – e reagindo de forma intempestiva e desrespeitosa, perante qualquer frustração.

Em se tratando de casais, os excessos tendem a conduzir e escolhas amorosas complementares. Por exemplo: o dominador, une-se a uma pessoa fraca e submissa, sem voz ativa. Ou não consegue manter relacionamento algum. Ou chega às vias-de-fato, mostrando-se violento, física e emocionalmente. O mesmo tende a ocorrer na relação com os amigos e em relacionamentos profissionais. É um abusador. Importante lembrar que, embora eu esteja usando os adjetivos no masculino, poderíamos empregar os mesmos no feminino – obviamente.

Aqui, podemos mencionar outras duas patologias, examinadas das pelas teorias sistêmicas: a patologia dos triângulos e a patologia das alianças.

Onde há três, facilmente surge o medo de ficar em segundo plano, em desvantagem ou, mesmo, ser excluído. Em parcerias funcionais ou saudáveis, esse receio (natural, universal) não impede que as pessoas envolvidas sintam-se confortáveis, seguras de sua importância no contexto, não necessitadas de entrarem em “jogos de poder”. Mas, quando a realidade é outra, a tendência é formarem-se conluios, ou melhor, alianças, de modo a que uma das partes seja desqualificada e, portanto, desfavorecida. Há deslealdades a permear o seio dessas famílias.

O tema é muito amplo e não vou me alongar. Só gostaria que aplicássemos essas noções no momento atual, para tentarmos compreender o que pode se passar no seio das famílias, relativamente confinadas, devido à pandemia por Corona Virus. Pensando nesses fenômenos, tipo “fronteiras, hierarquias, triângulos e alianças”, em que aspectos as famílias e, principalmente, os casais, podem ser beneficiados? Que desafios experimentam, diferentemente de outras fases de suas vidas? Que histórias os casais mais bem-sucedidos, mais felizes, têm para nos contar? Nestas circunstâncias, de “apertamento”, é mais fácil ou mais difícil amar e ser amado?