POA, 03 de janeiro de 2011

POLÊMICA

Lauro Quadros está de férias, e é Túlio Millman que, brilhantemente ocupa a cadeira do entrevistador, reunindo quatro profissionais de diferentes áreas para, a partir do estímulo dado pelas notícias que, em destaque, circulam pela mídia mundial, analisemos alguns aspectos que povoam a imaginação das pessoas, quando um casal de tamanha diferença etária resolve assumir e declarar formalmente sua união que, de estável, passa a merecer o título de “casamento”. Assista o programa em sua íntegra nestes site e blog (www.iaracamaratta.com.br) ou no site da Sociedade de Psicologia (www.sprgs.org.br).

O POVO NAS RUAS

Chamam atenção os comentários do povo nas ruas e muitas de nossas considerações ao longo do programa. Cria-se uma situação delicada: “quem não pecou, que atire a primeira pedra…” O que quero dizer com isto?

Quero reafirmar o que comentei durante o bate-papo no Polêmica: de um modo geral, não temos que criticar as opções alheias, exceto quando elas representam algum malefício a quem quer que seja. Se o dono da Play-Boy e uma de suas “coelhinhas” optam pelo casamento, seja lá por que razão for, temos mais é que respeitá-los. Ou será que todas as escolhas que nós mesmos fizemos na vida são isentas de possíveis críticas e questionamentos? Isto não existe. Falhamos por falar demais, por não falar ou por escolhermos mal as palavras… Por agirmos impulsivamente, por sermos demasiadamente demorados ou, até, completamente passivos… Por termos opiniões radicais, ou por seguirmos na linha do “Maria-vai-com-as-outras”… Até mesmo o que fazemos na melhor das intenções ou seguros de sermos merecedores de todo o reconhecimento, o respeito e a gratidão de nossos semelhantes, pode estar sendo recebido e interpretado desfavoravelmente. Assim, como julgar, sem incorrermos no risco de estarmos sendo injustos ou, no mínimo, inadequados?

MOTIVAÇÕES

Voltemos ao multimilionário e à sua esposa-coelhinha. As motivações que eles têm para cultivarem esta relação e oficializarem o compromisso entre eles são, em grande parte, inconscientes. Ao longo do Polêmica, acentuamos a possível busca de mais um dia de fama e glória, pois ambos mereceram destaque na mídia de todo o mundo ocidental, graças ao inusitado casamento. Interesses econômicos – por parte dela, naturalmente – e sexuais – por parte dele, de quem mais seria?…  A imaginação corre solta. Seria ele o vilão da história? Ou melhor: haveria mesmo um vilão?…

Eu gostaria de poder compreender o que ganhamos ao nos preocuparmos com isto. Ah, sim! Certamente tudo isto tem a ver conosco, encontrando eco em algumas fantasias e alguns anseios comuns a toda a humanidade: sobrevivência, sexualidade permanentemente ativa, poder, glamour, etc. e tal. E a verdade é que boa parte de conteúdos que estimulam nossas reflexões do dia a dia têm raízes em algo que foge à nossa percepção. Não há como conhecermos todas as nossas verdades íntimas. Como, então, pretendermos conhecer e validar ou não as verdades alheias?

Sabemos que não há casamento ou qualquer tipo de relação sem que algum interesse entre em jogo. De um modo geral, a palavra interesse sugere dinheiro, bens materiais, fama, conforto, glamour… Sim, pode ser isto, mas há muitos outros interesses envolvidos, além destes tão visíveis, palpáveis e concretos. Muitos dos nossos interesses entram na linha do simbólico, e têm significados que fogem à percepção do comum dos mortais. Seus fundamentos podem ter sido lançados em nossa infância, ou antes mesmo que apontássemos na linha da vida.

Só nos resta desejar tudo de bom ao ilustre casal. Que esta relação lhes dê conforto pessoal, emocional. Que vivam a vida tão bem quanto conseguirem vivê-la. Pode ser, sim, que isto implique em parceria, cumplicidade e afeto. Ou não. Isto vale para o casamento deles, da mesma forma que para os nossos.

INTERESSES EM JOGO

A mulher-menininha sente-se atraída pelo pai provedor, protetor e assexuado? Sente-se mais protegida e segura ao se unir a um homem maduro ou, até, um ancião? Sente-se mais valorizada, ao fazer com que vibre o corpo de um homem supostamente assexuado? Dispõe-se a doar seu corpo, em troca de algumas vantagens de outra ordem?

O homem envelhecido quer encontrar na mulher jovem a mesma jovem que se dedicava a ela quando ainda bebê? O idoso quer reavivar as ilusões da juventude, fazendo-se cercar por garotas jovens e desejáveis? Ao olhar para elas, acredita mesmo estar diante de um espelho e, assim, poder negar sua realidade? Ao olhar para os de seu gênero, julga triunfar sobre todos, exibindo-lhes a fêmea, como se esta fosse um troféu, capaz de garantir sua virilidade?

As hipóteses são infindáveis. Poderíamos listar centenas delas e, curiosamente, estarem todas erradas. Ou certas, quem sabe, Importa que haja trocas. Trocas de interesses, sim. E que ambos sintam-se bem um com o outro.

Lembro mulheres relativamente jovens que constituíram família com senhores de certa idade. Aumentaram seu conforto, seu nível de vida. Tiveram filhos. Foram queridas e respeitadas. Cuidaram com extrema dedicação aos seus parceiros, hoje falecidos. Ficaram bem, economicamente. Foram muito criticadas, execradas… Diga-se de passagem: injustiçadas. Em muitos casamentos considerados ótimos pelos padrões sociais vigentes, não se encontra um genuíno equilíbrio nestas relações de troca, que incluem aspectos materiais, assim como comportamentais e afetivos. Um famoso autor usa uma expressão que diz tudo: lealdades invisíveis. Estas operam em diversos planos e contém inúmeras cláusulas, algumas das quais sequer temos conhecimento consciente,

Não nos cabe julgar.

A MEDICINA RESOLVE OS PROBLEMAS SEXUAIS DOS IDOSOS… ATÉ QUE PONTO?…

A medicina pode resolver problemas de ereção, de falta de lubrificação, de alguns quadros de humor e de ansiedade e muitos outros. Não resolve problemas pessoais e, muito menos, problemas sexuais.

Sexo não é apenas intercurso e penetração. Sexo é envolvimento, implica em desejo e em mutualidade. Um homem potente, mesmo que jovem, belo, rico e cheio de saúde, não necessariamente é desejável. Talvez sua potência seja muito mais importante para ele mesmo, para sua auto-estima, segurança pessoal e troféu a ser exibido para os outros homens do que para as mulheres que o acompanham.  Esta questão se agrava com o passar do tempo, pois o desejo sofre enorme influência de fatores hormonais e a aparência física também pode contar muitos e muitos pontos. Hormônios interferem tanto na capacidade de desejar, quanto de despertar desejos. Isto significa que é só repô-los para garantir uma vida sexual ativa e exitosa? Não necessariamente. Significa que um regime alimentar adequado, malhação, bons cosméticos e, até, cirurgias plásticas, influenciam na libido? Em parte, sim.

Mas acentuemos as expressões “não necessariamente” e “em parte, sim”. O fato é que sentir e despertar desejos são fenômenos complexos, influenciados por uma rede de mecanismos, fortemente entrelaçados. Assim como estes mecanismos conduzem a sentimentos e comportamentos facilmente identificáveis e traduzíveis em palavras, também podem conduzir a desencontros e a frustrações. Homens com poder econômico, que exibem uma série de sinais de “virilidade” atraem mulheres a seu redor e a inveja de seus pares, orgulhando-se disso. Basta vê-los, disputando a bola num gramado, bebendo cerveja, circulando em carrões… São incontáveis os símbolos fálicos que circulam por aí, demonstrando uma eficácia inconteste na arte da sedução. Algumas mulheres desejam isto – mas não desejam, necessariamente, a pessoa ou sexo deles. Limitam-se aos aspectos materiais e, se pudessem eliminar o sujeito para ficar com as extensões (apêndices) dele, assim o fariam. Eles, nestes casos, não interessam. Ao pararem de produzir o que produzem e de significar o que significam, são lançados à vala comum.  E a recíproca é a verdadeira: a ostentação de “virilidade”, sob as mais variadas formas, está a serviço da libido, da reprodução da espécie, do triunfo e da liderança sobre os rivais. Parte destes joga no time do garanhão – mas será eliminado se causar algum incômodo. Outra parte é claramente eliminada e ridicularizada, como se fossem menos homens, menos machos, menos potentes.

Fenômenos naturais, sim. É exatamente o mesmo no reino animal, ainda que entre os humanos exista uma vasta gama de símbolos de poder, de potência, de capacidade. Aqui, os fenômenos são de maior complexidade, de adquirem significados próprios. Aqui, a direção, os motivos e objetivos do desejo sexual podem ter um caráter afetivamente humano, traduzido por ternura, companheirismo, cumplicidade, amor. Ou serem desumanos, ou desumanizantes.

Não é verdade que as mulheres se interessam “pelo dinheiro” ou por aquilo que o dinheiro oportuniza e representa. Isto vale para muitas, mas não para todas. Ou, mesmo que valha, pode estar muito longe de se constituir em prioridade. Quantas, entre múltiplas escolhas, acabam de envolvendo com homens simples, de baixo poder aquisitivo, porém afetuosos, inteligentes, íntegros e profundamente leais? Quantas sentem-se atraídas e se vinculam a homens que contam com  elas como parceiras, de igual para igual, ou, até, como nutridoras, cuidadoras, maternais? Quantas jamais se venderiam, por preço algum?

Outro ponto discutido no programa foi a predominância de vínculos entre homens mais velhos mulheres mais jovens. Sim, é verdade. Se recorrermos à antropologia, à filosofia e à própria psicologia, veremos que os homens iam à caça e protegiam o território, onde permaneciam as fêmeas e suas crias. Os líderes, com maior poder e experiência, asseguravam a sobrevivência de todos, atraindo os demais homens da tribo ao seu redor, e adquirindo alguns direitos a mais em relação a todos, independente de gênero. As mulheres tornavam-se exímias na arte de cuidar do espaço interior e de seus habitantes – enquanto presentes neste mesmo espaço. Ora, isto é vivenciado e conduzido de geração a geração, numa espécie de memória genética. Cuidar e ser cuidado pode estar no cerne de nossas preferências sexuais ou, mais precisamente, para não fugirmos do tema em pauta, de nossas escolhas, de nossos vínculos.

Daí que incontáveis “casos” e, até mesmo, incontáveis vínculos entre mulheres mais velhas e homens significativamente mais jovens permanecem em segredo. O casal se assume e exibe publicamente quando se trata de mulher famosa, que contribui para que ele se afirme como macho, potente e competente e ela como eternamente desejável. Mas para as mulheres a tendência que mais de perto observo é manter a reserva, para não ser alvo de chacotas preconceituosas, como se ele fosse fraco, filho, e ela ridícula, pagando para tê-lo junto…

PRECONCEITOS = PRÉ-CONCEITOS

Por uma questão de automatismos e de economia psíquica, rapidamente associamos informações que temos a respeito de assuntos que nos tocam. Formamos conceitos, que envolvem os discursos típicos de nossa cultura, nossas experiências próprias, nossas fantasias e sentimentos a respeito. “Isto é assim” ou “isto significa isto” é a tendência comum, com a qual simplificamos drasticamente aquilo que, na verdade, mereceria não receber julgamentos. Muito menos, julgamentos precipitados. O espaço para reflexões a curto, médio e longo prazo é o que muitas pessoas buscam, ao formarem grupos que “pensam”, ao buscarem mais subsídios em suas leituras e estudos. É o que buscam em suas psicoterapias. Quanto mais se pensa e se conhece, mais facilmente se resiste a emitir juízos, baseados em pré-conceitos – as fontes de nossos preconceitos.

Acho impossível livrarmo-nos de preconceitos, até porque eles, em parte, estão no cerne de nosso ser e nos orientam. Mas temos que ter muito cuidado com eles… Perguntarmo-nos, trocarmos idéias, seja conversando, seja escrevendo, seja lendo… pode ser muito útil. Interessante, pois a própria leitura tende a não ser passiva. A gente associa, concorda, discorda e, normalmente, vai muito além daquilo que “está escrito”. Assim, perguntemo-nos, entre outras coisas:

Até que ponto valem nossos discursos acerca da importância do amor e do respeito em nossa vida sexual? Até que ponto garantir a ereção interessa, em alguns casos? Até que ponto falar em amor gratuito não passa de utopia? Até que ponto a diferença de idades favorece ou desfavorece uma relação?

COM A PALAVRA, O LEITOR!

Se assim o desejar, escreva sua opinião. Envie sua mensagem para iaracamaratta@gmail.com, intitulando-a “o multimilionário… minha opinião”, embora não seja o casamento deste com a coelhinha da Play Boy o verdadeiro foco deste nosso bate-papo…