IARA L. CAMARATTA ANTON

PSICÓLOGA – CRP 07/0370

INTRODUÇÃO

Há dias, escutei um debate na Band FM sobre a rivalidade entre as torcidas de nossos times de futebol nacionais e internacionais. A coincidência de maior destaque estava, naturalmente, na proximidade física e na identidade dos referidos clubes,

Identidade? Sim: diríamos que o “sobrenome” dos mesmos identifica a região, a família de origem, à qual pertencem. Fla-Flu, Grenal, Brasil e Argentina… a que grupos representam? De onde vem e para onde vão os títulos e as taças conquistados?

A rivalidade entre clubes e torcidas remete-nos, de imediato, à rivalidade fraterna e ao mito bíblico de Caim e Abel, entre outros tantos. Aliás, o Antigo Testamento está recheado de ilustrações acerca do mesmo tema.

RIVALIDADES FRATERNAS

Por mais que irmãos se amem e se entendam bem, há um “quezinho” de ciúme e de inveja entre eles. Um avalia o outro, temendo ser suplantado ou ser suprimido. Se formos a fundo, podemos observar que muitos dos irmãos que sempre “fazem críticas positivas”, ou “ajudam” o mais jovem ou aparentemente menos-dotado, no mais íntimo do seu ser não admitem a hipótese de perderem a utilidade e o prestígio ou virem a ser suplantados.

O alvo principal destes sentimentos está na garantia dos amores materno e paterno, com todas as regalias implicadas nisto: segurança, proteção, vantagens – as mais diversas. Quem é mais, quem é melhor? Quem chama mais atenção, e com que recursos? Se não for por bem, vai por mal… Um filho pode ser valorizado por seus atributos positivos, enquanto o outro descobre que apresentar limitações ou, até mesmo, graves problemas, dadas as circunstâncias, pode trazer muito mais vantagens do que desvantagens…

Em síntese: a rivalidade fraterna não é nem boa e nem ruim – é normal, é esperada. A questão básica consiste em que significados ela tem, quais são os suas funções no seio da família, quais os seus destinos e, portanto, o que se faz com ela. Um dos fatores que mais influenciam nestes processos de elaboração e de construção está, exatamente, em como os pais interpretam e administram os conflitos entre irmãos.

PAIS

Há pais que simplesmente negam, como se, diferentemente do resto da humanidade, seus pupilos não experimentassem a menor sombra de disputas.

Se assim for, o que irão sentir as crianças desde cedo treinadas para ignorarem e esmagarem seus conflitos? Quais os mecanismos de defesa que irão desenvolver para se manterem leais aos conceitos e à ordem implícita: “Isto é muito feio, é inadmissível e não existe em nossa família! Tratem de se conter!”

Ondas de repressão em excesso geram ondas de movimentos no sentido oposto. De alguma forma, elas vão estourar. Formando sintomas? Dando origem a formações reativas? Inibindo possibilidades de saudáveis competições? Transferindo o monstro para algo como fanatismos religiosos (que não participa da irmandade estará, automaticamente, eliminado e condenado ao fogo do inferno), fanatismos políticos (impossibilitando diálogos entre opositores), crimes por parte de governantes e de seu séquito (iludindo o povo/irmão, para roubar-lhes velada ou descaradamente), ataques entre torcidas rivais?…

E há pais que transferem suas próprias rivalidades fraternas para a relação com o cônjuge, estimulando a divisão entre pares de irmãos, e contribuindo para a criação de times rivais dentro de seu próprio lar: a mãe e os filhos contra o pai; ou a mãe e o pai formando sub-grupos sob a sua liderança e, assim, enfrentando o parceiro/opositor…

Em síntese, dependendo da forma como os pais administram suas próprias rivalidades, em relação às famílias de origem e à sua própria vida conjugal, os filhos aprendem, por identificação e pelo recebimento de diferentes reforços, a lidar com seus próprios conflitos. E mais: quando os pais são negligentes, abusadores ou hostis, os filhos podem nutrir uma necessidade extrema de permanecerem unidos, para sobreviverem, a tal ponto que a rivalidade fraterna desaparece na mais absoluta escuridão, um vivendo pelo outro, para o outro, pela vida e para a vida…

HUMANIDADE ONTEM E HOJE

Se acompanharmos os registros da história da humanidade, através das mais diversas fontes, perceberemos que sempre foi mais ou menos deste modo. Mas que, mesmo assim, formam-se grupos e indivíduos profundamente leais, capazes de lidar bem com suas naturais rivalidades, com amor e respeito mútuos. E que qualquer espécie de fanatismo, que gera a ânsia em denegrir, em submeter, em suprimir, está a serviço de conflitos primários, jamais superados e que, portanto, dão origem a inadequações e a excessos.

A própria mídia lança mão destas energias negativas, criando mensagens de mau-gosto, nas quais ridicularizar e suplantar o “rival fraterno” estimula ou deveria estimular as vendas. É lastimável. O lucro a qualquer preço suplanta qualquer princípio ético e contribui para o fortalecimento da identidade de um grupo às custas de outro grupo – a  aquisição de produtos estaria a serviço da imagem vendida. O ponto nevrálgico, nestes casos, parece-me que está no estímulo à inveja.

INVEJA

A inveja e a admiração andam juntas e são, frequentemente, usadas como sinônimos. A “boa inveja” pode conduzir a resultados muito positivos, como a aprendizagem, o desenvolvimento de qualidades, as mais diversas, e a construção de sociedades (no plano do amor, da amizade, dos negócios…) mutuamente vantajosas. A “má inveja” é destrutiva, gera mal-estar, inibições, atitudes desleais, ataques.

A inveja é dual: inveja-se aquilo que o outro possui, aquilo que ele é, suas conquistas, seus méritos, sua situação. O ciúme remete ao processo de triangulação, gerando o medo de ser excluído e, quem sabe, eliminado, caindo no vazio e na solidão. Ambos afetam à auto-imagem e à auto-estima. Ambos podem estar na raiz de construções ou da destruição. Ambos nos fazem imaginar, pensar, criar ou destruir. A inveja é mais primitiva que o ciúme e ambos são ativados, exercitados e, bem ou mal, elaborados a partir das rivalidades fraternas e da rivalidade edípica.

LEIA MAIS

“A ESCOLHA DO CÔNJUGE – UM ENTENDIMENTO SISTÊMICO E PSICODINÂMICO”:

- Cap. X: “Primeiros Vínculos” – sub-título: “Os irmãos”

- Cap. XI: “Agressividade, inveja, culpa e controle”

“HOMEM E MULHER – SEUS VÍNCULOS SECRETOS:

- Cap. XIII: “O Mistério dos Triângulos”

- Cap. XIV: “Patologia dos Triângulos”

“CEGONHA À VISTA! E AGORA, O QUE VAI SER DE MIM?…”:

- Cap. I: “Inquietações mais comuns quanto à preparação do filho mais velho para o nascimento de seus irmãos”

- Cap. 11: “Agressividade oculta ou manifesta”

- Cap. XVIII: “Casais em conflito”

COM A PALAVRA, O LEITOR

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