IARA L. CAMARATTA ANTON

PORTO ALEGRE, 15/03/2011

INTRODUÇÃO

Acabo de receber um convite daqueles bem gostosos, da parte da jornalista Raquel Carneiro, para uma entrevista telefônica com a apresentadora Sara Bodowsky, que iria ao ar pela Rádio Gaúcha, no programa Brasil na Madrugada. Tivemos um bate-papo gostoso, cuja síntese, se você desejar, poderá ser acessada e ouvida através do site da gaucha, clicando “Gaúcha na Madrugada”.

Importante dar atenção a algumas informações a serem corrigidas, no referido site:

1. Não sou mais Coordenadora do Comitê de Psicoterapia de Casais e de Famílias, há vários anos;

2. “Estou” Presidente da SPRGS de 01/07/09 a 01/07/11;

3. Não sou autora das dicas mencionadas e dificilmente daria dicas de comportamentos, pois duvido de sua real utilidade; além disso, as “dicas” que inspiram o bate-papo não têm nada de científicas e estão, em boa parte, equivocadas: partem de pesquisas numéricas e chegam a conclusões descabidas, declarando inverdades em nome da psicologia e, creio, até mesmo dos pesquisadores dos dados mencionados. Cabe acentuar que desconheço a fonte do artigo mencionado.

Em última análise, ao que tudo indica, Raquel, Sara e eu pensamos coisas semelhantes, questionando as conclusões a que os autores das tais “dicas científicas” chegaram, a partir de pesquisas que se resumem a dados estatísticos. Aqui, vou me estender mais um pouquinho e seria ótimo se você compartilhasse conosco suas opiniões a respeito.

DICAS CIENTÍFICAS?… TEM CERTEZA?…

7 dicas científicas para ter um casamento feliz

“Todo mundo sabe que casamento não é das coisas mais fáceis. Seja você um romântico que sempre sonhou com a vida a dois ou um bon vivant que foi, de alguma forma, empurrado para a união eterna, o cenário é o mesmo: é preciso rebolar um pouquinho para que o relacionamento dê certo. Mas, veja só: eis que a ciência aparece para ajudar nesse desafio. Está solteiro? Anote aí o que procurar no parceiro ideal e já comece a planejar suas táticas pós-aliança. Já se casou? Hum, seu caso é mais grave, mas nem tudo está perdido. Confira, então, o que você ainda pode fazer para melhorar esse laço. E seja, com sorte, feliz para sempre.”

COMENTÁRIO

Em primeiro lugar, eu me pergunto: o que entendemos como ciência? E, principalmente, para fazer jus ao título da matéria: o que entendemos como “dicas científicas” e como “casamento feliz”?

Existem pesquisas e pesquisas. Dados meramente numéricos, por sua vez,  nem sempre podem ser levados em conta, quando almejamos algo que diga respeito à qualidade. Por quê? Simplesmente porque nossas respostas, em se tratando de ciências humanas, por mais objetivas que sejam, sempre têm um certo caráter de subjetividade. Ou seja: aqui, nem sempre 2+2=4!

As coisas fazem sentido de um modo diferente para cada um de nós, quer por se conectarem a referenciais próprios, quer pelo fato de que as mesmas palavras, em diferentes contextos, em diferentes momentos e para diferentes pessoas podem ser interpretadas de diferentes maneiras…

Repare como acentuei a palavra “diferente”. Não se trata de um descuido, mas sim de uma intenção. O próprio título da matéria em pauta muito provavelmente não repercute da mesma maneira em cada um de nós, os seus leitores.

A título de exercício, vamos pinçar a palavra “felicidade” e lançar ao vento algumas breves reflexões. Eu estou convencida de que ninguém é “feliz para sempre”. Felicidade a gente constrói a cada dia, a cada momento e dela fazem parte desafios, frustrações, raivas, tristezas e, até mesmo, lutos. A gente pode estar triste e, ao mesmo tempo, reconhecer-se como pessoa feliz. A gente pode estar radiante e, ao mesmo tempo, ter que admitir que não se sente feliz. Paradoxal, não é mesmo? Em síntese, boa parte da felicidade depende do vai-vem das ondas do mar, da alternância entre a chuva e o sol, entre o frio e o calor… Se fosse tudo igual, contínuo, não haveria nem beleza e nem prazer em coisa alguma. E, para encerrar, as informações obtidas, mesmo que em nome de pesquisas ditas científicas, não têm o dom de nos ensinar a sermos mais felizes. A felicidade é fruto de muitas e muitas variáveis.

DICA Nº 1:

“Diga sempre ‘nós’, nunca ‘eu’.”

“Quem usa mais pronomes como “nós” e “nosso” nas discussões com a cara metade tem brigas menos longas e desgastantes (consequentemente, vive mais tranquilo) do que os casados que abusam dos “eu”, “você”, “meu” e “seu”. Pesquisadores americanos chegaram a essa conclusão após observaram os papos de 154 casais. Especialmente entre os que estavam juntos há mais tempo, o discurso individualista era um forte sinal de que o casamento não ia nada bem.”

COMENTÁRIO

A idéia do “nós” é fundamental. Traduz afinidades, parceria, cumplicidade, interesses em comum… Mas não exclui, ou não deveria excluir, o “eu”, a definição de espaços, interesses, direitos e deveres individuais.

Em qualquer relação saudável, existe espaço para o reconhecimento e o exercício da alteridade. O outro não é extensão minha, tem pleno direito de ser quem é, como é, com suas diferenças e divergências. A com(vivência) e a vivência de um “nós” torna-se muito mais viável e mais fácil dentre parceiros que se respeitam em suas individualidades.

Equilíbrio é fundamental. Equilíbrio entre o eu e o nós. Como não é possível um equilíbrio absoluto, temos que retomá-lo, passo a passo e, nesta caminhada ou nesta dança o modo como se locomove cada um dos parceiros vai influenciar na elegância, na harmonia, na segurança e no prazer de ambos.

DICA Nº 2:

“Sendo mulher, escolha um cara rico.”

“Eles são pais mais presentes, o que, além de criar um clima mais “comercial de margarina” na sua casa, ainda faz bem para o cérebro dos pequenos: segundo pesquisadores do Reino Unido , os filhos de pais mais “bem de vida” tendem a ter QIs mais altos. E ah, outro detalhe interessante: os caras cheios da grana dão mais orgasmos às esposas, segundo um outro estudo britânico.”

COMENTÁRIO

Mas nem mesmo os “comerciais de margarina” ocorrem em ambiente rico, opulento!… Os cenários são sempre mais ou menos simples, à semelhança do dia a dia da classe média. Os diálogos e as manifestações de humor é que estão mais num plano ideal do que real, pois a tendência de hoje é “correria” e cada vez menos as pessoas se reúnem, tranqüila e alegremente, ao redor da mesa, para o café da manhã… Isto vale para todas as camadas sociais.

Dinheiro não tem nada a ver com afeto, disponibilidade, capacidade de criar bons vínculos. Pais ricos em poder aquisitivo não são necessariamente os melhores pais e os melhores maridos. Muitas vezes, estão bem longe disto!

Orgasmos ligado à riqueza? Que tolice! Ninguém pode ignorar que muitas mulheres se sacrificam, sexualmente, e não têm prazer algum com seus maridos ricos, mas se sujeitam a isto em prol de outro tipo de interesse. Por outro lado, muitos homens ricos pouco ou nada se importam com a satisfação de suas parceiras. E, o que é mais importante, a qualidade da vida sexual, a freqüência e o prazer nos encontros, dependem de uma infinidade de fatores, não cabendo simplificações do tipo “ele ou ela é o responsável pelo meu prazer.” Quem chegou à “dica” acima muito provavelmente não é nem psicólogo, nem sexólogo, nem médico… não é  quem entende um mínimo da alma e do corpo humanos!

Deveríamos ambicionar, sim, homens e mulheres ricos em espírito, em afetividade, em disponibilidade, em valores efetivamente humanos. “Deveríamos?…” Como se adiantasse dizer o que deveríamos ou não… como se fizesse sentido sugerirmos ou impormos crenças e valores…

Frequentemente, o que dificulta ou impede a criação de bons vínculos, em qualquer classe social, não é a preocupação com o trabalho, com o dinheiro, mas sim um egoísmo desmedido, a superficialidade, a falta de tolerância a frustrações, a dificuldade em resolver conflitos, a tendência a se descartar de tudo o que incomoda, como se os seres humanos não passassem de pedrinhas no sapato….

Além disso, há múltiplos casos em que os mais ricos só pensam em ganhar dinheiro, em lucrar mais e mais, em usufruir mais e mais, em terceirizar até mesmo os filhos, o sexo e algo que talvez até definam como amor. E múltiplos casos em que casais de classes economicamente desfavorecidas ou medianas que têm uma vida amorosa e sexual muito interessantes, de ótima qualidade. Em outras palavras: casar com pessoa de “classe social x ou y” não garante absolutamente nada.

DICA Nº 3:

“Sendo homem,

escolha uma mulher mais bonita do que você.”

“Todo mundo fica mais feliz neste cenário. É o que mostram os resultados de um estudo da Universidade de Tenessi (EUA). Em testes feitos por lá, foi constatado que ambas as partes do casal se declaram mais satisfeitas com o relacionamento quando a esposa é mais atraente do que o marido.”

COMENTÁRIO

É relativamente comum que homens só se interessem por mulheres a quem possam exibir como troféus, sentindo-se mais seguros, mais auto-confiantes, ao verem outros homens cobiçando sua parceira.

Além disso, o critério de beleza é relativo. Alguns homens acham suas mulheres lindas, e estas podem não passar no crivo de outras pessoas, sob este aspecto. Por outro lado, há mulheres nem muito bonitas, mas que chamam atenção pela sua beleza interior, pelo seu caráter, por sua simpatia. E que podem se tornar lindas por sua postura, seu modo de andar, de falar, de gesticular, de se vestir…

Mas penso que, ao lado da satisfação em estar vinculado a uma mulher atraente, a serviço da própria vaidade e auto-promoção, há outros aspectos a serem considerados como, por exemplo: a forma física com certeza é um dos fatores que mobilizam e apimentam a atração sexual.

A forma, associada a todo um gestual, a toda uma postura, sugere uma disponibilidade interior, uma feminilidade, um “ser mulher”, que promove no homem predisposição a uma série de fatores associados à própria masculinidade. Atração, desejo, ação, sentimento… tudo está intimamente ligado. Aqui, atrevo-me a brincar com as palavras, ainda que sendo muito verdadeira nesta observação: “as belas que me perdoem… mas há pessoas (homens e mulheres) nem tão belos, nem ricos, inteligentes e poderosos, que são muito desejáveis e capazes de estabelecerem excelentes vínculos, despertando admiração, amor e tudo de bom!”

DICA Nº 4:

“Fuja das mulheres que têm pais divorciados.”

“O conselho é bem claro: “mulheres com pais divorciados são mais propensas a entrar no casamento com menos comprometimento e confiança no futuro da relação, aumentando o risco de divórcio”, diz um estudo da Universidade de Boston (EUA), que testou as expectativas de 265 casais que tinham acabado de selar o noivado.

COMENTÁRIO

Apesar dos dados da pesquisa, considero este um achado extremamente preconceituoso. As pessoas estão se divorciando cada vez mais e com mais facilidade. Se quiséssemos pesquisar o número de divórcios entre casais da mesma faixa etária ou grupo social, que está aumentando vertiginosamente, poderíamos concluir que estamos nos divorciando graças à influência dos amigos? Ou à influência dos pais dos coleguinhas de escola de nossos filhos, quando estes fazem parte de turmas nas quais a minoria dos alunos é fruto de casamentos que não se desfazem?

Casamentos longos não significam mais felicidade no amor, não significam vínculos de melhor qualidade. Casamentos que duram para sempre nem sempre são os melhores. Filhos de pais divorciados podem ter uma série de vivências favoráveis ao seu desenvolvimento – especialmente quando os casais conseguem um bom divórcio, mantendo a estima e o respeito um pelo outro e desenvolvendo bons vínculos em seus futuros relacionamentos. São inúmeros os fatores que nos influenciam e não podemos ser tendenciosos, chegando a conclusões apressadas, com bases num raciocínio simplista e linear. Basta ver que muitos casais vivem juntos, na base de brigas e ofensas mútuas, ou de indiferenças e de enormes distâncias no pano afetivo.

DICA Nº 5:

“Seja companheiro, mas nem tanto.”

“Um estudo da Universidade de Iowa (EUA) constatou que o companheirismo excessivo (como dar, com frequência, conselhos que o outro não pediu) é mais nocivo para o casamento do que ser um marido ou esposa meio “nem aí”. Segundo os pesquisadores, é claro que a gente gosta de poder contar com alguém, mas quando esse alguém começa a cuidar demais da nossa vida, o senso de individualidade vai embora e a coisa azeda.

COMENTÁRIO:

Companheirismo não significa dar conselhos, estar sempre junto, grudar-se no outro. Companheirismo pressupõe uma proximidade e uma distância relativas, que permitem o conforto de ambos.

Cada um de nós tem que cuidar bem de sua vida, isto não é responsabilidade do parceiro. Há parceiros intrometidos, invasivos, que se apoderam de espaços que não são seus. Isto pode ser um veneno para uma relação saudável, entre dois adultos com suficiente maturidade.

Mas a gente sabe que alguns casais necessitam desta vida grudada, em que um não vive sem o outro, em que um a nada decide sem o outro. Se prestarmos bem atenção, veremos que, nestes casos, facilmente um dos dois está dominando e se servindo da dependência do parceiro que, por sua vez, só permanece ligado porque precisa disto ou não se sente em condições de se emancipar e buscar outras alternativas.

DICA Nº 6:

“Invista em pretendentes com boa autoestima.”

“Casar com alguém que não esteja lá muito feliz consigo mesmo é roubada. A dica vem lá da Universidade Estadual de Nova Iorque (EUA). Pesquisadores conduziram testes com jovens recém-casados e observaram que, quando uma das partes tem autoestima muito baixa, tende a se tornar co-dependente e falha em atender às expectativas do cônjuge. A tendência é que, nesse caso, o relacionamento comece a se deteriorar já no primeiro ano de papel passado. “

COMENTÁRIO:

A gente não escolhe um parceiro baseado em bom senso, em conselhos, em razões de ordem prática. A gente escolhe por instinto, e boa parte de nossas motivações e objetivos são inconscientes. Até mesmo escolhas ditas “frias e objetivas” são frutos de motivações inconscientes e de forças desconhecidas que brotam de dentro de nós.

Podemos necessitar de parceiros com baixa auto-estima, para nos provalecermos, para nos apossarmos deles, para nos servirmos, para comandarmos. Podemos necessitar deles para, por força do contraste, nos auto-afirmarmos, e nos julgarmos melhores, mais capazes e eficientes.

A gente sempre escolhe, na verdade, a quem intimamente julgamos, estar à nossa altura. Caso contrário, por que não nos permitirmos casamentos mais felizes?

DICA Nº 7:

“E finalmente: não tenha filhos.”

“Em mais um estudo da Universidade de Iowa (EUA) , um grupo de casais foi entrevistado antes e depois do nascimento do filho primogênito. Outro grupo, de casais que decidiram não aumentar a família, deu seus pitacos em períodos correspondentes. E a tendência foi clara: os casados e com filhos passaram por uma queda maior na satisfação conjugal do que os que na…”

COMENTÁRIO:

Filhos necessariamente desequilibram a relação, desequilibram as nossas vidas – e isso pode ser muito bom. Acontece que muitos casais têm filhos sem terem desenvolvido uma aliança, uma cumplicidade, um interesse mútuo, que lhes permita continuarem bem enquanto casal, após o nascimento das crianças.

Um filho deveria ser a expressão viva de uma união que justifique seu nascimento. Pressupõe estrutura, maturidade, responsabilidade. Pressupõe manter a cultivar a libido, o afeto, a vida a dois. E casamentos sem filhos também passam por desgastes…

Quero insistir que um casamento feliz, assim como a felicidade acima mencionada, é algo que se constrói passo a passo, dia a dia, todos os dias…

COM A PALAVRA, O LEITOR!

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