IARA L. CAMARATTA ANTON

PORTO ALEGRE, 17/03/2011

INTRODUÇÃO

Recebi um convite que muito me agradou, para contribuir com um artigo em uma revista de expressiva circulação, sobre tama super-interessante, mas o prazo era extremamente limitado, como é o mais habitual em revistas, jornais, rádios, televisões… Acontece que o desfio surge e os jornalistas têm que, naturalmente, chegar ao público com a maior rapidez possível.

Inspirada num breve bate-papo, arregacei as mangas e escrevi seis páginas, procurando responder às  questões propostas. Passava da meia noite e eu não me sentia satisfeita com minha produção, que me parecia prolixa, repetitiva. Assim, tive que renunciar a esta oportunidade.

Tive uma noite agitada, pois a proposta deixou-me o tema na mente, a borbulhar. Sonhei com fadas e bruxas; com princesas, príncipes, reis e rainhas; com castelos e pradarias; com cenários de ontem, de hoje, de amanhã. Noite agitada esta, que me fez, inclusive, sonhar com antigos sonhos meus…

Então me surgiu uma idéia: abandonar o texto, criar outro contexto, e escrever com maior brevidade, sintetizando o que me ocorreu a partir da entrevista inacabada, de meus sonhos e minhas lembranças – teóricas e práticas, profissionais e pessoais. Mas agora, ao reler o que escrevi abaixo, vejo que me prolonguei um bocado, e que há muito mais a se refletir sobre esse tema.

OS CENÁRIOS DOS CONTOS DE FADAS EM NOSSOS DIAS

Os clássicos contos de fadas passavam-se em castelos, quase sempre maravilhosos, embora alguns abandonados e em ruínas, sofrendo os danos causados pelas intempéries e pela passagem do tempo. Eram rodeados por belos jardins, bosques e pradarias. Havia carruagens, cavalos de raça, adereços de ouro e de prata, muitas jóias e pedras preciosas. Eventualmente, riachos cantantes, rios caudalosos, mares revoltos, oceano imenso. E vales, colinas, montanhas…

Não, não!

Não havia somente fartura e belezas. Havia casebres, alguns bem organizados e aconchegantes, outros miseráveis, denotando pobreza, impotência, descuido e dor. Havia monstros – pessoas invejosas e mal-humoradas, bruxas horrorosas, gigantes malvados, feras famintas – dentro e fora de qualquer um desses ambientes, dos mais ricos aos mais pobres, dos mais habitados aos mais ermos.

Os autores dos contos de fadas clássicos eram generosos ao nos convidarem a recriar cenários em nossas mentes e a viajar por eles, acompanhando os personagens.

Depois, vieram os laboratórios de cientistas malucos, os palácios e os esconderijos de bons e de maus, as viagens interplanetárias, as intergaláxicas e, também, ao centro da terra e ao fundo do mar. A palavra, oral e escrita, que nos transferia para os ambientes foi, em grande parte, substituída por cenários cinematográficos e acompanhada, inclusive, por impactantes efeitos especiais. Quase não precisamos mais imaginar. Basta clicar um controle remoto, ou sentar diante de uma tela de cinema, e lá está o mundo, exibindo-se despudoradamente diante de nosso olhar.

Quero chegar aos cenários mais óbvios que, dia após dia, fazem parte da casa dos brasileiros, também daqueles que jamais foram ou irão ao teatro ou ao cinema; a família reunida ao redor da TV.

Vamos diretamente às novelas – às e aos jogos novelas infantis e para adultos, que fazem com que muitas crianças já não sejam embaladas, e nem mesmo escutem histórias, narradas com emoção, por seus próprios pais; às novelas e aos jogos que colocam nossos filhos, muito precocemente, diante de cenas marcadas por sexo e violência; mas, principalmente, às novelas e aos jogos que recriam os cenários dos contos de fadas em moldes atuais.

Nossas novelas apresentam uma nova versão dos contos de fadas, fazendo-nos voar, invisíveis, para o interior e o exterior dos castelos habitados por todo este mesmo povo que, noutros moldes, já era apresentado ao ávido leitor e ao expectador das peças teatrais do século XVIII. Elas giram, quase sempre, ao redor de personagens muito ricos e poderosos, bons ou malvados, amados ou odiados, felizes ou infelizes.  Carruagens foram substituídas por automóveis, por iates, helicópteros e jatinhos particulares. Os servos, em alto estilo, permitem com que “os servidos sejam, efetiva e servilmente, servidos”. Se o cenário for rural, também não foge muito destes padrões.

E o que é o Big Brother Brasil?!… Que loucura é esta? Heróis?!… Por que, desde quando?… Bem, a verdade é que também eles se encaixam em alguns antigos padrões e retratam o imaginário popular! É isto que prende e que leva a tantos telespectadores a se envolverem, a opinarem, como se se tratasse de assunto a ser levado a sério. E, simbolicamente falando, não é?…

É isto! Desde sempre, entretemo-nos ao imaginar o paraíso, o ideal de conforto, sob todos os aspectos. Viver “de pão e de circo” anima os seres humanos, oportunizando uma espécie de lenitivo. A gente se distrai. A gente se apaixona, ama e odeia, torce a favor ou contra, cria preconceitos ou muda de idéia, forma conceitos novos, em contraste e em conflito com antigos.

Os antigos se reuniam ao redor da lareira, para ouvirem histórias, ainda que fossem as mesmas histórias, repetidas vezes. Os de hoje apegam-se a histórias quase sem fim, pois podem reencontrar nestes cenários e nestes relatos representações vivas de suas fantasias, ou seja, de seu mundo interior.

CONTOS DE FADAS DE ONTEM E DE HOJE

Os contos de fadas são, em primeiro lugar, uma expressão viva de nossos desejos, nossas fantasias, nossos sentimentos. Eles não nascem do acaso – eles nascem de nossas intimidades, traduzidas em palavras. E as palavras, por sua vez, nos ajudam a organizar nossos pensamentos, dando sentido às nossas diferentes experiências de vidas.

Desde que se tem notícias, os seres humanos contam histórias, muitas delas fictícias e certamente todas elas ao redor de pontos de grande interesse. Criá-las, reproduzi-las e narrá-las não compete apenas aos escritores, aos meios de comunicação, às escolas. Cabe também, e principalmente, aos pais, como também lhes cabe escutar e valorizar as histórias que as próprias crianças inventam, contam, escrevem, representam… É todo um mundo que se revela e se organiza através disso.

Hoje em dia, esta fascinante tarefa tem sido facilmente delegada a babás, a cuidadores e professores e, mesmo que estes sejam “pessoas”, os contos são obtidos através de um “click”, cabendo a computadores e aparelhos de TV substituírem a voz dos pais.

Existe um livro que eu amo, e que muito me marcou – nunca mais editado, que eu saiba: ”A arte de ler e contar histórias”, de Malba Tahan.

Mas parece que “contar histórias” saiu de moda! E, no entanto, nossa subjetividade constitui-se a partir de narrativas. De narrativas a nosso respeito, a respeito de nossas famílias, de nossos povos. De narrativas “paralelas”, como diria Malba Tahan, em que nosso ser e nossos laços se vêem representados por personagens, enunciados através de palavras, encenados através de fotografias, pinturas e ações que nos são descritas. Primeiro vemos e escutamos. Em seguida, somos nós mesmos a descrever fatos, idéias e sentimentos. Se não dispomos de palavras específicas, usamos metáforas que, por vezes, expressam bem mais do que mil palavras. Se não dispomos de palavras, usamos o corpo, usamos o ato, e ambos anunciam ao mundo o que se passa dentro de nós.

Mas, em grande parte, não sabemos muito bem do que, através de tantos recursos, estamos comunicando. Não sabemos, porque desconhecemos as palavras, somos carentes delas, especialmente quando nossos pais não tiveram tempo, capacidade e afeto para nos ensinar a linguagem do coração. Ou não sabemos, porque a intensidade é tamanha – do prazer ou da dor, da coragem ou do medo – que não nos atrevemos a transformar tudo isto em pensamento e em palavras.

Os contos de fadas, de ontem e de hoje, nos colocam em contato com este mundo interior, o mundo das fantasias e de toda a sorte de representações. Falam da convivência humana, revelam crenças e valores, ao mesmo tempo em que nos ajudam a – bem ou mal – corrigir as rotas.

Cabe acentuar que não substituem a palavra dos pais, dos amigos, dos mestres. O tom de voz, o tempo disponível, os temas escolhidos, tudo isto não pode ser substituído pelos recursos dos quais dispomos hoje para levarmos adiante as narrativas que nos descrevem e, ao mesmo tempo, nos constituem.

DISNEYLANDIA

Em outubro de 2010, voltei a visitar a Disneylandia. Fiquei impressionada com a quantidade de meninos, vestindo capas de super-heróis, e de meninas, vestindo as roupas da Branca de Neve e da Bela Adormecida. Eu me dei conta de quem estava fora do tempo e da realidade era eu, pois quase havia esquecido que estas imagens seguem tão vivas e fazem tanto sentido, ainda em nossos dias, nos quais as crianças estão tão mais espertas, bem informadas e com tantos recursos inimagináveis para muitos dos adultos, não necessariamente idosos.

O que mais me chamou a atenção foram as meninas, pois estas, devidamente paramentadas, eram as mais numerosas. De qualquer forma, cabe lembrarmos que as crianças se vêem, se descobrem, nos personagens com os quais se identificam. A fantasia de princesa é uma das mais fascinantes e tem permanecido ao longo dos tempos. Na imagem da princesa, antevemos a figura da rainha, a promessa que nos acompanha, assinalando a passagem do tempo. Entram em cena conteúdos erotizados e fantasias maternais, expressando o que, de fato, se passa dentro da mulher-menininha. Mas os meninos dificilmente se colocam na posição de príncipes, dando total preferência às vestes de super-heróis. Estes, na verdade, são muito mais ativos e poderosos do que os príncipes, mostrando-se vitoriosos diante do as mais diversas adversidades. Um rei, para se conservar no trono, depende de um exército a seu favor, ou seja, de homens muito potentes, corajosos, com capacidade de ver, de escutar e de agir com eficiência e precisão. Este é o papel do super-herói, esta é a meta edipiana. O rei fica como pano de fundo; o jovem fascina, decide, pode!

Na maior parte dos casos, incluindo também alguns contos de fadas típicos da atualidade, vaidade, doçura, coragem, sedução passiva são atributos valorizados, como indicadores de feminilidade. Mas as mudanças sócio-culturais têm sido, naturalmente, acompanhadas por mudanças em vários aspectos destas expressões literárias. Basta ver como se mostram Mulher Maravilha, She-Ra, Fiona e as mulheres da Família Simpson…

Da mesma forma, embora a sensibilidade masculina seja atributo cada vez mais valorizado, ao menos no plano das idéias, as representações masculinas não sofreram grandes alterações. E os contos de fadas da atualidade (infantis, novelescos…) seguem criando personagens que não fogem muito dos antigos padrões.

IMAGENS CONTRADITÓRIAS NOS CONTOS DE FADAS DE ONTEM E DE HOJE

Os antigos contos de fadas eram marcados por uma dualidade, por um traço imaginário que separava os bons dos maus, os heróis dos vilões, os fracos dos fortes.

Estas imagens contraditórias expressam tanto as diferentes faces de nosso mundo interior, quanto as diferentes percepções e projeções em relação a outras pessoas. No caso, a figura materna é a mais facilmente representada através destas personagens caricatas: as princesas lindas, magras e boazinhas ou as bruxas velhas, feias e más; os reis e pais poderosos, porém incapazes de defender suas princesas, suas filhas; os súditos bons que as acolhiam, os príncipes que as salvavam.

Mesmo sem tomar consciência disso, as crianças vivenciam intensamente as emoções ligadas às imagens que mais a mobilizam. Encantam-se e apavoram-se, desejam e temem, amam, odeiam… São experiências psíquicas bem interessantes pois, de um lado, elas têm oportunidade de ver retratadas suas fantasias e de expressar claramente o que sentem a respeito; além disso, o belo e o feio prestam-se como metáforas, e dão uma idéia mais ou menos claras do que pode ser apreciado, valorizado e desejável, e do que nos coloca na posição de vilões, odiosos, odiados e banidos do convívio social que se apresenta como o mais desejável. Ou seja, os personagens dos contos de fadas retratam as pessoas mais importantes de nossas vidas e, ao mesmo tempo, reforçam crenças e valores e nos fornecem modelos de identificação.

Hoje, as heroínas frágeis e boazinhas são bastante rechaçadas, pois os valores sócios-culturais vêm se adaptando a uma realidade diferente, na qual as mulheres são convidadas ou, até, obrigadas a serem menos passivas, mais dinâmicas, fazendo as próprias escolhas e responsabilizando-se por elas. Ainda que, no fundo, permaneça um certo saudosismo das imagens contrárias, onde príncipes ricos e famosos salvam as lindas, frágeis e indefesas princesinhas, o que se impõe é uma outra realidade. Poderíamos dizer que as mulheres mais saudáveis não se sujeitariam aos velhos padrões, e não suportariam aqueles modelos de comportamento, de relacionamentos. Mas o fato é que, quando tantas fazem qualquer coisa por um homem rico e poderoso, somos obrigados a admitir que os antigos contos de fadas seguem adequados a fantasias conscientes e inconscientes, que têm suas raízes plantadas na história pregressa da sociedade humana, de nossas famílias e de nós mesmos, enquanto indivíduos. Aí está uma das razões da enorme audiência das tantas novelas que, dia a dia, recheiam os canais abertos de televisão.

As vilãs ganharam espaço e simpatia. Muitas delas não pagam o preço de suas maldades, e o público torce a favor de seu sucesso e da ausência de punições. Por um lado, autores de novelas são tripudiados, ao não condenarem os pecadores ao fogo do inferno… Por outro, a escolha dos caminhos que indicam impunidade retrata perfeitamente os padrões sociais que regem a humanidade desde que se tem notícia. “É” assim e, para que isto mude, muita coisa tem que mudar, dentro e fora de nós.

Estamos diante das bruxas, dos feiticeiros malvados, dos ogros, dos lobos-maus. Estas são imagens bem mais fortes e obstinadas, de seres que sabem o que querem e seguem ao encalço de seus objetivos. Isto é bom ou é ruim? Seja lá como for, tais imagens não coincidem com meninas boazinhas e lindas, sejam elas princesas ou fadas-madrinhas. Os personagens ditos “do mal” são feios, ou a beleza que ostentam não passa de meros disfarces. Saber o que se deseja e lutar pelos próprios objetivos era (ou é?…) tido como oposto ao feminino, algo que enfeia a mulher, torna-a indesejável, mas enobrece o homem e coloca-o num pedestal, alvo de todos os olhares e de todos os anseios…

Verdade, verdade mesmo?

O que dizer da mulher-gata, e de outras vilãs que tanta atração exercem sobre os super-heróis e todo um público masculino e feminino? O que dizer destes super-homens que, à semelhança de Sansão, perdem todas as suas defesas, diante de uma mulher forte, que a eles se opõe?

Acontece que, diante de uma mesma imagem, podemos apresentar diferentes interpretações e reações, consciente e inconscientemente. O tido como feio e indesejável pode exercer incontrolável fascínio, por representar algo presente e ativo, na face já nem tão oculta da mente. A obstinação já não é, necessariamente, uma das faces da maldade e pode ser situada no plano de ideais da atualidade. Assim, a imagem da bruxa pode ser usada de um modo bem tendencioso, tendo em vista doutrinar e manipular às meninas para que se submetam à estrutura vigente, sem questionamentos, sem oposições, sem lutas. “Isso é feio, isto é do mal, isto implica em condenação e isolamento”. Só que, em nossos dias, já pouco se acredita nesta divisão entre pares opostos. Heróis e heroínas mostram seus lados “maus” e suas zonas de vulnerabilidade. Monstros e vilões também são frágeis, sob alguns aspectos, e têm o seu lado “bom”. E tudo isto é reapresentado nos contos de fadas da atualidade, seja nos escritos para crianças, seja naqueles supostamente elaborados para “gente grande”. Harry Potter, por exemplo,  nos oferece imagens bem sugestivas a este respeito.

O filme “O Cisne Negro”, por sua vez, também funciona à semelhança de um conto de fadas, sugerindo que a bailarina recebeu a função de realizar os anseios frustrados de sua mãe, que teve a carreira interrompida, ao gestá-la. A menina, criada como princesa e mantida numa redoma de vidro, era reforçada de todas as maneiras para cumprir o mandato da rainha-mãe e saldar a dívida contraída pelo fato de ter nascido. Reforçada através de elogios e múltiplas seduções, nasceu para ser o Cisne Branco, absolutamente bela, doce, submissa, perfeita. A mãe transforma-se em, bruxa, quando contrariada. A filha transforma-se em bruxa, mutilando-se continuamente, enlouquecida pelas repressões, por suas revoltas silenciosas, por sua ânsia em não falhar, embora, ironicamente, a imagem do Cisne Negro, ao qual também deveria representar, opunha-se ao modelo de perfeição para a qual havia sido condicionada.

BELEZA E DOCILIDADE NOS CLÁSSICOS DA ARTE E DA LITERATURA

As fadas, como as madonas dos grandes pintores clássicos, podem mudar de forma, de acordo com a cultura da qual fazem parte e da época em que são imaginadas. Elas podem influenciar o ideal de beleza feminino mas, em primeiro lugar, a imagem que fazemos delas é fruto do “aqui e agora”, ou seja, do mundo no qual vivemos. O reforço é, portanto, circular: elas tanto influenciam como, em sua origem, são influenciadas.

Trata-se de protótipos, de caricatos, que expressam tanto as fantasias eróticas femininas e masculinas, quanto as imposições sócio-culturais vigentes.

Desde bebês, quando nos percebemos separados de nossas mães, passamos a experimentar um imperioso desejo, descrito por Lacan como sendo o “desejo de sermos desejados”. Ele permanece vivo, de alguma forma, dentro nós, para sempre, ainda que esquecido, adormecido, aparentemente morto.

Temos armazenados, em nossa memória inconsciente, os olhares apaixonados de nossos pais sobre nós, quando abríamos nossos olhos e os surpreendíamos debruçados em nossos berços. Hoje, fotos e filmes documentam parte desta experiência, mas – independente deste tipo de registros materiais – o que mais marca é nossa experiência vivida. Assim, desejamos repetir a experiência – esta experiência tão prazerosa de sermos alvos do desejo e do amor de nossos príncipes encantados, sem tirarmos o brilho dos olhos de nossas mães, enquanto rainhas e fadas protetoras.

Nestas condições, em que nós, mulheres, somos despertas pelo olhar masculino, com autorização de nossas mães, nós atualizamos, de certa forma, a realização de nossos anseios infantis e, supostamente, nem somos responsáveis por isto. Somos fadas, não bruxas. E, conforme as circunstâncias, podemos garantir que “nem temos culpa de nada…”

Curiosamente, ao mesmo tempo em que nós, mulheres assumimos muito mais ativa e corajosamente nossos desejos e responsabilidades, ainda somos surpreendidas por fantasias e comportamentos que denotam inclinações à passividade e à dependência, nos planos amoroso e sexual, o que encontra correspondência em homens, que assumem posições diametralmente opostas. Mas vale acentuarmos que, entre homens, podem coexistir o encanto pela Branca de Neve e pela Bela Adormecida, a identificação com o Príncipe Encantado e o secreto desejo de ser descoberto, desejado, passivamente amado e, até mesmo, guiado. Os modelos socialmente admitidos, porém, podem impedir que se assuma este lado da realidade…

Os Príncipes Encantados são frutos do pensamento mágico, que domina a mente infantil e que, de alguma forma, persiste dentro do imaginário universal. Cada cultura cria seus príncipes, seus heróis, suas figuras míticas. Eles refletem nossos anseios mais arcaicos, nossas fantasias infantis, que permanecem vivos, dentro de nós. Entre outras coisas, representam a salvação perante os conflitos, perante as lutas entre o que se convencionou como sendo do bem ou do mal, perante as situações em que fomos subjugados por pessoas ciumentas, invejosas, competitivas e malvadas. Se transpormos a linguagem fantasiosa e a linguagem simbólica para a realidade do dia a dia, diríamos que o Príncipe nos salva de nossos sofrimentos, despertando nosso erotismo e conduzindo-nos para o reino da felicidade.

ANSEIOS MÁGICOS

Estas imagens, estas fantasias, são representações de nosso mundo inconsciente e muito mais “expressam” do que “influenciam”. No caso, expressam desejos pré-existentes, como ganhar uma loteria, encontrar um homem lindo, forte, viril, rico e poderoso que, contudo, se joga aos nossos pés, completamente rendido pelos nossos encantos. Mas qualquer jovem adulto sabe muito bem que esta não é a realidade, pois o mundo em que se vive não é o sugerido pelos finais felizes dos velhos contos de fadas, nem mesmo entre príncipes e princesas que, de fato, existem e são publicamente reconhecidos como tal.

Independente da existência e do conhecimento dos contos de fadas, as pessoas mostram que, lá no fundo, persistem estes anseios mágicos. Tanto é que, ao nos vermos face à face com a realidade do cotidiano, desiludimo-nos e reagimos como se tivéssemos sido traídos, por promessas que eram meros frutos da imaginação, individual e coletiva. Amargurados, rompemos elos, relutantes em admitir que um casamento feliz depende da capacidade de se reconhecer e aceitar o outro e a si mesmo como “pessoas”, com desejos, necessidade, possibilidades e limites.

Mas, em se tratando de contos, cabe aqui uma contradição. Iniciei este sub-título afirmando que, no meu entender, estas imagens, estas fantasias, são representações de nosso mundo inconsciente e muito mais “expressam” do que “influenciam”. Esta moeda tem mais um lado. Ou melhor: quantas são as cores que podemos visualizar através de um caleidoscópio? O fato é que se cria um reforço circular de complexidade bem maior do que, à primeira vista, poderíamos supor :

1. Projetamos nossos conteúdos internos através de todas as artes e de todas as formas, da literatura, da palavra, do gesto e, até mesmo, de silêncios.

2. Mas estes conteúdos, como se formaram dentro de nós? Como constituíram-se nossas subjetividades? Estímulos externos entraram em nós, desde tenra idade, através dos mais variados canais de acesso, e integraram-se com nossas possibilidades, limites e impedimentos.

3. Agora, uma vez que reencontramos nossos conteúdos internos através de, por exemplo, contos de fadas clássicos ou em seus novos formatos, nós passamos “a ver e a escutar”, de tal modo que o que está fora retorna para nosso mundo interior, fornecendo novos estímulos e, necessariamente, nos influenciando em nossas crenças, em nossos valores, sentimentos, modos de ser e de agir.

COM A PALAVRA, O LEITOR!

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