Iara L. Camaratta Anton

Psicóloga – CRP 07/-370

POA, 05/04/2011,

Base: artigo de Zero Hora, veiculada em 04/04/2011*

INTRODUÇÃO

O tema é instigante, e tem como fonte de inspiração matéria veiculada na Zero Hora do dia 04/04/11, que transcrevo no final destas reflexões. Gostei muito do artigo que li, no qual constam pareceres de colegas muito especiais: Lina Weinmber e Lúcia Pesca. Como este assunto, ainda que timidamente, retorna de tempos em tempos e mexe com as pessoas, penso fazer recortes do texto, da ZH usando-os como sub-títulos para estas reflexões, que divido com meus amigos.

MOVIMENTO ASSEXUAL QUASE DESCONHECIDO

O texto refere a zombarias, à falta de discussões e entendimentos, o que “dificulta até mesmo a busca de um verbo para classificá-lo: abdicar, negar, renunciar, desdenhar”.

Realmente, que verbo usar? Não me parece possível selecionar a nenhum dos mencionados, pois eles são diferentes entre si, e qualquer um deles pode estar adequado, ou não, a cada indivíduo que se diz assexuado. Uma dos grandes desafios para a boa convivência humana está no respeito e na aceitação da alteridade. Por que essa tendência a classificarmos e a avaliarmos a tudo o que nos cerca? Uma coisa é buscarmos entendimentos, e outra é essa mania de encaixotar as experiências humanas e, em seguida, rotulá-las.

Penso que, diante da sexualidade humana, pode ser útil admitirmos que um mesmo padrão de comportamento pode corresponder a diferentes motivos, pode ter diferentes objetivos e significados. Minhas perguntas básicas seriam: Está bem assim? Não prejudica, não causa mal a ninguém? Não conduz à formação de sintomas, indicadores de conflitos mal-resolvidos, de sofrimentos psíquicos sequer percebidos? Então, está bem!

Mas a tendência é formarmos grupos por afinidades, que nos permitem sermos aprovados em nossa maneira de ser. Esses grupos apresentam identidades próprias, como religiosos e ateus; como gremistas e colorados; como homo, héteros ou assexuados… É importante nos sentirmos pertencentes. Mas a sensação de pertencimento se fortalece diante de exclusões e discriminações. Para não passarmos por esse tipo de sofrimento, podemos ocultar o que seria, supostamente, censurável; ou, num processo de formação-reativa, exibirmos comportamentos opostos aos que seriam legítimos e “nossos”; ou criarmos grupos especiais, como a mencionada comunidade virtual, que reúne pessoas ditas assexuadas…

Dentre estes, alguns negam, alguns desdenham, alguns abdicam, outros, verdadeiramente, sublimam. Que importa? Seja como for, suponho que entrem em cena mecanismos de defesa – e estes são processos inconscientes – que nos levam a desenvolver determinadas posturas, diante dos dilemas da vida. E administrar a sexualidade é um desafio para cada um de nós. Ser assexuado ou sexuado, por si só, não me diz quase nada…

DESEJO SEXUAL INEXISTENTE OU DESCOMPASSADO

Quando falamos em desejo sexual, a tendência mais comum é que estejam em foco atitudes e carícias libidinosas e o coito, em si. Mas sexo, libido, é muito mais do que isto, no entendimento psicanalítico. É uma energia vital, muito ampla e profunda, que faz parte de todo o ser humano ativo e saudável. Pode ser a mola propulsora para encontros que envolvam a genitalidade, ou não. Algumas pessoas aparentemente assexuadas são cheias de vida, de energia, irradiando bem-estar. Podem, neste sentido, ser muito mais sexuais e sexuadas do que outras, cuja sexualidade é mórbida, compulsiva, exibicionista. Aliás, muito do que as pessoas exibem é bravata, e tem como objetivo camuflar dificuldades e temores. Uma sexualidade satisfatória não tem que ser alardeada aos quatro ventos, pois pertence ao território da intimidade e satisfaz por si só. Exibir-se pode estar a serviço de ansiedades pessoais e ter como objetivo secreto obter o olhar tranqüilizador do outro, que vê, aplaude e funciona como testemunha de algo do qual o próprio indivíduo duvida…

Existe um mecanismo de defesa chamado “sublimação”, e este deriva da energia sexual, colocada à disposição de outras atividades prazerosas e criativas. Assim, algumas pessoas que se consideram assexuadas, podem estar, de fato, investindo toda a energia em tarefas sublimatórias. Ou não! Várias hipóteses de cunho emocional poderiam ser levantadas, mas todas elas seriam genéricas… não podendo se aplicar a indivíduos em particular. Havendo interesse em se compreender mais e melhor, neste e em outros campos, possivelmente uma boa psicoterapia poderia representar uma excelente oportunidade.

Mas não podemos esquecer a questão fisiológica, que envolve hormônios e funções do sistema nervoso central, entre outras. A sexualidade humana tem a ver com funcionamento e, sob alguns aspectos, com saúde ou doença. Nosso corpo fala, e sua fala reflete não apenas aos nossos conteúdos emocionais e relacionais, mas também a mecanismos corporais próprios. Surge à mente aquela antiga expressão: somos um todo bio-psico-social.

Falando em social, uma sexualidade adormecida pode despertar inesperadamente, em todo o seu esplendor, diante da química que surge entre os parceiros – mesmo quando um deles ou ambos consideravam-se assexuados. Pode aparecer ou desaparecer diante de circunstâncias da vida, que oferece frustrações, desafios, felicidades… toda uma gama de experiências que pode funcionar como um imã, concentrando num determinado ponto as nossas energias libidinais.

Construímos “pré-conceitos”, para nos situarmos, mas eles podem nos limitar em nossos sentimentos, palavras e ações, ao mesmo tempo em que nos empurram numa ou noutra direção. Assim, as palavras alteridade,    respeito e entendimento são muito significativas para mim.

COM A PALAVRA, O LEITOR!

Compartilhe conosco suas idéias a respeito deste tema, enviando sua mensagem para o e.mail iaracamaratta@gmail.com, sob o título “Movimento Assexual”.

*MATÉRIA DA ZERO HORA DE 04/04/2011

Movimento assexual traz à tona outra forma de encarar o desejo físico

Grupo que despreza os prazeres da carne troca experiência em comunidades virtuais

Quase um desconhecido, o conceito motiva zombaria antes das devidas apresentações. Pouco discutido e entendido , dificulta até mesmo a busca de um verbo para classificá-lo: abdicar, negar, renunciar, desdenhar. O que faz, afinal, quem decide viver sem sexo, abdicando da prática, negando o desejo, renunciando ao prazer, desdenhando de relações tradicionalmente alicerçadas em um instinto tão primitivo? Mais à vontade em comunidades virtuais, os assexuais trocam o peso do preconceito pelo alívio do entendimento entre iguais.

“Não sinto desejo ou necessidade de fazer sexo. Não me sinto atraído por homens nem mulheres. É absurdamente confuso, já que ser gay significa sentir atração pelo mesmo sexo — não é o meu caso — e ser heterossexual é desejar o sexo oposto — o que também não ocorre comigo. Resta-me uma opção: assexualidade. Mas nem sei se isso existe…”, diz um depoimento em uma discussão na Internet.

Deve-se pontuar uma diferença fundamental: assexualidade não é celibato, a abstinência atrelada a crenças e práticas religiosas. Mas isso não torna a tarefa menos complexa: afirmar-se assexual é negar, na opinião de especialistas, traços inatos da espécie humana.

— A sexualidade faz parte da construção da identidade. As pessoas não aceitam a possibilidade de alguém abrir mão do sexo, que é algo que proporciona tanto prazer e é tão valorizado. Mas é mais comum do que a gente imagina — afirma Lina Wainberg, terapeuta de casal e família e doutora em Psicologia, que avaliou em sua tese na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) a satisfação sexual e a intimidade marital de 800 casais.

Escolha ou problema sexual

A inexistência de atração sexual pode não ser uma simples escolha ou interpretação do que o corpo não consegue sentir. Há enfermidades e disfunções que comprometem a libido — tratáveis, permitem que a pessoa retome ou inicie uma vida sexual saudável.

— A pessoa pode ter vivenciado algo ruim, um abuso, uma repressão, uma decepção erótico-afetiva. Pode ter medo de se comprometer com a intimidade de alguém. Será que ela está, de fato, optando por isso ou escondendo alguma dificuldade? — questiona a terapeuta de casal e família Juliana Garcia.

Na ânsia de encontrar um diagnóstico que justifique a pouca empolgação, não se pode desconsiderar que o que à primeira vista parece problema pode não passar de um descompasso.

— Um casal que transa bastante pode passar por períodos sem sexo devido a problemas ou a outras interferências. O importante é que os dois se satisfaçam —esclarece Juliana.

Elisabete Regina Baptista de Oliveira, pedagoga, trata da assexualidade entre jovens em sua tese de doutorado pela Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP):

— A possibilidade da assexualidade como orientação sexual questiona uma das certezas históricas da ciência: a de que o desejo é universal, todo ser humano tem que sentir ou é necessariamente portador de algum problema. A recente visibilidade dos indivíduos que afirmam não sentir desejo ou atração sexual, sem que isso lhes cause angústia ou desconforto, traz à ciência o desafio de estudar a sexualidade e a assexualidade, a partir de novos paradigmas.

A Asexual Visibility and Education Network (Aven), maior comunidade de assexuais do mundo, foi fundada nos Estados Unidos em 2001 e reúne mais de 30 mil integrantes. Disponibiliza material em 13 idiomas e é referência no tema, o que aumentou o interesse de pesquisadores no exterior na última década. Por aqui, o debate ainda é incipiente.

— Os assexuais brasileiros existem, mas estão confinados às comunidades virtuais, principalmente no Orkut. Ainda não temos um movimento assexual — diz a pesquisadora.

— Assexualidade não é escolha, não é decisão, é um modo de ser. Não diz respeito ao comportamento sexual, mas a uma identidade.

Abdicar o sexo?

Como o movimento ainda se delineia, o ato de assumir-se assexual é corajoso. Vale a comparação:
— Hoje, ser assexual é mais difícil de admitir do que ser homossexual. É abdicar por completo de um prazer. Não é desviar, como alguns acreditam: é abdicar — comenta a terapeuta Lina Wainberg.

—  Se isso (o sexo) gera muito mais sofrimento do que prazer, pode ser uma escolha saudável.

Se forem descartadas possíveis enfermidades e alterações hormonais, a psicóloga e terapeuta sexual Lúcia Pesca julga inviável a anulação das sensações que impulsionam a busca da satisfação sexual e tudo que dela decorre.

— É impossível que alguém não tenha uma fantasia. Acho impossível não sentir vontade. Tudo que a gente estuda a vida inteira, neurológica e hormonalmente, não nos deixa explicar isso — protesta Lúcia.

Membros da comunidade quase invisível dos que desprezam os prazeres da carne não deixam de ser espirituosos. Sites internacionais, como o da Aven, comercializam camisetas, canecas, bandeiras — o símbolo do movimento são listras horizontais em
preto, cinza, branco e roxo. “Assexuais se divertem mais” e “Nada de sexo, por favor” estão entre as frases de efeito. Versões adaptadas de sites de namoro propagandeiam a possibilidade de encontrar alguém, apaixonar-se e viver as delícias de um amor… platônico. Cada um na sua, sem chegar muito perto.

“Nos sentimos como ETs”

Comerciante e estudante de Ciências Sociais na Universidade Federal de Pernambuco, Júlio Manoel Neto é uma das raras figuras dispostas a falar abertamente sobre o tema. Soube que era diferente na adolescência, quando não partilhava do interesse dos amigos pela descoberta do sexo. Hoje, aos 20 anos, descobriu que há mais gente que pensa como ele e criou um blog, em que posta reflexões sobre o que chama de “era sexual”.

“Sempre pensei diferente das outras pessoas e não via problema no meu desinteresse pelo sexo. O problema é o sentimento de que estamos fora do mundo. Nos sentimos como ETs, com a sensação de que estamos errados. Não imaginava que isso pudesse ser simplesmente normal, como qualquer outra forma de se relacionar. Até que descobri que outras pessoas também pensavam e sentiam como eu. Percebi como é importante discutir esse modelo de sociedade voltado para o culto do sexo.

Como minha opinião foi formada desde cedo e sempre tive certeza de quem sou, nunca me obriguei a fazer sexo somente para satisfazer uma convenção social. Pelo contrário, aprendi a construir relacionamentos sem sexo. Hoje não tenho namoros convencionais, o que não significa que não tenha relacionamentos. Sou livre com minha afetividade. A maior parte dos assexuais, no entanto, faz sexo por não saber que existe a alternativa de, simplesmente, não fazer.

Para tornar isso mais claro para as pessoas e fomentar a discussão, criei o blog e hospedei em um site sobre o tema, feito por uma amiga. Não pregamos bandeiras como a virgindade ou abstinência por questões morais ou religiosas. Simplesmente concordamos que o culto ao sexo que existe atualmente não é o único caminho. É possível, se for a vontade do indivíduo, ver a realidade de uma outra forma, sem a conotação sexual.”

Estereótipo premiado

Gênio da física e antissocial orgulhoso, Sheldon Cooper imprime humor ao estereótipo dos assexuados. Personagem que valeu a Jim Parsons o Globo de Ouro deste ano de melhor ator de comédia no seriado The Big Bang Theory, uma das comédias americanas de maior sucesso na atualidade (exibida no Brasil pelo canal a cabo Warner), Sheldon despreza toda forma de interação social afetiva ou sexual, então, nem se fala.

Restringe o convívio aos três amigos mais próximos e à vizinha bonitona, Penny (Kaley Cuoco), a única da turma que não é vidrada em quadrinhos, videogames e fórmulas complexas e vive a lhe despertar suspiros inconformados e olhos revirados em desapontamento.

Ao contrário de Leonard (Johnny Galecki), Howard (Simon Helberg) e Raj (Kunal Nayyar), que tentam furar a barreira que separa o universo geek das simples mortais e ensaiam alguns desastrados flertes, Sheldon não suporta a mais sutil referência a qualquer tipo de contato carnal, de um aperto de mão a — o horror, o horror — um beijo. “Procriação”, só se for com uma mãozinha da ciência e da fertilização in vitro, e apenas para perpetuar seu brilhantismo.

O físico inicia um “namoro” com a igualmente enfastiada Amy Farrah Fowler (Mayim Bialik), neurocientista sem o mínimo de feminilidade ou vaidade, que parece ser o seu improvável par perfeito. Ainda que carregado nas tintas de uma deliciosa comédia, o programa encampa a bandeira de quem acha que o mundo é muito mais interessante quando se mantém uma segura e asséptica distância dos outros.