Íntegra de Entrevista para Jornal de SP em 19/09/2011

JORNALISTA:

- Quais são os benefícios que uma “DR” pode proporcionar para um relacionamento?

IARA:

- Se o clima for amistoso, com interesse em agregar, em congregar, discutir a relação pode ser tudo de bom. Pode ampliar a compreensão mútua, sentimentos de intimidade e de cumplicidade, e dar a ambos informações importantes sobre o que pode ajudá-los a serem mais felizes juntos.

JORNALISTA:

- O que o casal não pode fazer durante essa discussão?

IARA:

- Queixas, acusações e ofensas geralmente têm efeitos nefastos. A atitude queixosa tende a ser crônica, não visa mudanças, mas aponta e cobra supostas dívidas. Pode estar associada a vitimizações e ressentimentos, que colocam uma das partes na posição de devedora e outra na de credora. Vale o mesmo para ofensas mútuas, para agressões que incluem palavras e atos. São padrões de comportamento  que resultam em mal-estar e destrutividade mútuos.

No fundo, muitas vezes podemos observar que os cônjuges queixosos e acusadores não querem solucionar o que os aflige, querem mesmo é punir um ao outro. Quando discutem, choram ou falam cada vez mais alto, usam sempre os mesmos argumentos (ainda que em novas versões), saem batendo a porta, ameaçam com o divórcio, ou usam os filhos como instrumentos de guerra. Lastimável!

JORNALISTA:

- Qual o melhor momento para ter uma DR e o que deve ser exposto por cada um?

IARA:

- Em princípio, poderíamos dizer que o melhor momento é aquele em que o conflito se apresenta, mas nem sempre isto é possível, pois as circunstâncias podem ser desfavoráveis. Geralmente, não cabe discutir a relação perante testemunhas, perante os filhos, e em locais públicos e profissionais. Não cabe discutir ao despertar, na hora das refeições, de deitar e de fazer amor… Então, qual seria o melhor momento?

Este é muito particular, não há como adotarmos uma regra universal. O momento da emoção pode ser altamente desejável, benéfico – desde que ambos consigam se expressar com clareza e respeito, sem ofender um ao outro, podendo escutar, compreender e retratar-se ou, juntos, buscarem soluções criativas. Mas o momento da emoção pode ser o pior, se esta tomar conta, e conduzir a palavras ou atitudes desastrosas. Uma frase inesquecível para mim: “As palavras são como setas – uma vez lançadas, não voltam nunca mais!” Eu acrescentaria: “Cuidado com as setas envenenadas!” Em alguns casos, nada melhor do que um espaço terapêutico para que o casal consiga realmente “conversar”, ou seja “versarem, ambos, em conjunto”, sobre os assuntos que mais os mobilizam.

Quanto ao conteúdo, cabe dialogar sobre sentimentos, fatos, metas a serem atingidas, expectativas mútuas… Importante é que se saia de atitudes queixosas, acusativas, e se parta para o entendimento mútuo e a colaboração, tendo em vista o bem-estar de ambos.

JORNALISTA:

- Por que a maioria dos homens foge da discussão de relação enquanto as mulheres insistem tanto?

IARA:

- Observo que, cada vez mais, os homens tomam a iniciativa e têm interesse em discutir a relação. Mas, de um modo geral, talvez eles sejam mais práticos e, diante de algum problema, logo pensem em como agir, como solucionar, sem grandes divagações. As mulheres, de longa data, tendem a buscar mais facilmente a palavra, a conversa – o que não significa, necessariamente, buscar o diálogo.

Nós, seres humanos, trazemos a marca de outras gerações, e os antropólogos demonstram muito bem como se organizavam os grupos e se desenvolviam habilidades. Claro que podemos mudar – e mudamos – mas este é um processo longo, não apenas individual e familiar, mas coletivo, sócio-cultural. E é por aí que vemos homens, hoje, tão engajados nos cuidados em relação aos filhos, à casa e a funções até há pouco consideradas da alçada feminina. Inclusive, discutindo a relação por livre e espontânea vontade, e tomando a iniciativa de buscar terapia individual ou de casal. E vemos mulheres ousadas, empreendedoras, cujos horizontes se ampliaram para muito além das antigas fronteiras.

A sociedade muda, as relações humanas se desenvolvem, e a capacidade de o casal olhar atenta e cuidadosamente para a relação tende a trazer excelentes resultados para ambos os parceiros, para seus filhos e para quem os cerca.