Por Iara L. Camaratta Anton

Psicóloga – CRP 07/0370

Brasil

Sonho com um Brasil sem cotas para o ingresso na universidade.

Com um Brasil muito mais justo – e melhor.

Crianças

Sonho com berçários, maternais e pré-escolas

Que abram espaço limpo, lindo e ensolarado para todas as criancinhas desse país.

Que elas entrem sorrindo, acenando alegremente para seus pais,

E sendo bem-recebidas por professores capazes de lhes abrir os braços e os corações.

Que os pais possam seguir tranqüilos para seus locais de trabalho,

Seguros de que os filhos encontram-se em boas mãos:

- bem cuidados

- bem orientados

- estimulados

- educados

- vivendo a vida da melhor forma possível.

Escolas

Sonho que a escola, em todos os níveis, disponha de material didático de primeira linha e de professores habilitados a usar,

E que o façam com prazer,

Sabendo dialogar com os alunos e levando em conta

- suas mais diversas necessidades

- suas limitações

- suas possibilidades

- suas habilidades

- seus anseios.

Professores

Sonho com professores idealistas e bem preparados

Aptos a exercerem exitosamente sua missão,

Aceitando e enfrentando de peito aberto os mais diversos desafios.

E que sejam regiamente recompensados.

Ou melhor: recompensados com justiça,

Pela aprendizagem bem sucedida,

Pela alegria de seus alunos,

Por uma remuneração digna,

Pela retomada do reconhecimento público.

Já não se faz mais professores como antigamente?

Faz, sim – em todos os níveis.

E não é necessariamente pela localização da escola, nível sócio-econômico e cultural dos alunos ou diferenciais de salário, que eles se orientam e se revelam.

Há jóias rolando também pelas periferias, movidas pelo idealismo e pela capacidade de amar e de ser amado.

Mas há os que desanimam, esmagados pela dura realidade, pelas frustrações constantes, pelo próprio desamparo.

E há aqueles que multiplicam horas e locais de trabalho, e nem reconhecem individualmente aos seus alunos, não se preparam para encontros frutíferos, gratificantes e exitosos.

Talvez seja uma questão de sobrevivência – insuficiente para a qualidade de vida, sob todos os aspectos.

In/sucessos

Muitas vezes, são reconhecidos apenas os alunos que se mostram incapazes de se adaptar a uma convivência minimamente agradável e produtiva, colaborar com professores e colegas, aproveitando as oportunidades que a vida lhe deveria oferecer.

“Você viu o que eu fiz? O que eu não fiz? Então, reaja! Mostre que eu existo!”

É o sucesso obtido por uma gama de insucessos pessoais e coletivos.

Escola de pais – e de mestres

Sonho com a escola de pais. E de mestres!

Que ela ressurja das cinzas, que ela passe a fazer parte das escolas – não só das escolas de elite, como eu a conheci.

Que retorne à classe média e às periferias.

Principalmente às periferias, sob todos os aspectos, mas carentes, mais necessitadas.

Pais e professores também precisam ser acolhidos e orientados.

Como dar aquilo que não se tem?

Como renovar aquilo que, sem alimento, sem luz e sem ar, acaba por fenecer?…

Oportunidades

Como é que as crianças de nível sócio-econômico e cultural elevado mostram-se, desde tenra idade, tão espertas, tão habilidosas, com uma linguagem tão desenvolvida, com tantas e tão exitosas iniciativas?

Oportunidades se lhes apresentam.

Saudáveis, com pais presentes, capazes de escutá-las, de conversar com elas e de oportunizar-lhes experiências ímpares fazem toda a diferença. Brinquedos e brincadeiras adequados, no lar e na escola, têm um valor incalculável.

Esta não é a realidade de muitos lares que, teoricamente, teriam condições de oferecer.

E isso também tem conseqüências.

E as “boas escolas” também têm suas falhas e nem todos os seus professores são, realmente “bons professores”.

E ambos os grupos de educadores – na família e na escola – nem sempre têm preparo, entusiasmo e condições pessoais para oportunizarem às crianças e adolescentes as melhores oportunidades de com/vivência e desenvolvimento.

Identificação com os modelos é fundamental.

Mas como são estes modelos? E quem são eles?

Quem estabelece os limites necessários? E como o faz?

Quem influencia no estabelecimento de metas, encoraja, reconhece, recompensa? E como o faz?

Vestibular

Aos trancos e barrancos, chega-se às portas do vestibular.

Crianças vinham sendo aprovadas, por ordem do Estado, mesmo sem preencherem os pré-requisitos fundamentais, os conteúdos previstos.

A educação falha, em suas bases.

Como aprender o mais complexo, se o mais simples não foi assegurado?…

Adolescentes colam descaradamente, e se orgulham disso.

O que aprendeu quem não prestou atenção, quem não estudou, quem precisa de cola para ser aprovado?

Professores assinalam “certo ou errado”, “atingiu ou não os objetivos”.

Mas em que consiste o certo e o errado? Em que consistem os objetivos?

Em ser aprovado no vestibular?

Que insana e dura inversão de valores!…

Aprendizagem e vida

Sonho com filhos e alunos que aprendam.

Que desenvolvam conteúdos, sim. Que associem, que invoquem exitosamente os arquivos de sua memória. Que saibam utilizá-los, nas mais diferentes situações. Isso, sim, é aprendizagem.

Sonho com filhos e alunos que sejam capazes de empregar seus saberes em favor de seus relacionamentos, de sua qualidade de vida, de seu exercício profissional – de um mundo melhor.

Alicerces da construção

As bases são fundamentais.

Ou, melhor dizendo: as bases são os fundamentos, apoios, sustentáculos. São os alicerces da construção.

Como edificar um prédio a partir do telhado?

E como, com que substâncias e qualidades, investe-se nos primeiros passos?

Primeiros passos

Todo o atleta, artista, cientista, profissional bem sucedido teve que dar seus primeiros passos, investir em seus talentos. Desde o início. Desde o lar. Desde a pré-escola, o primeiro e o segundo grau. Desde as brincadeiras com os amiguinhos, os campeonatos que envolvem conhecimentos e habilidades, o prazer em desenvolver-se e a obtenção inconteste de reconhecimento público.

De que público?

Primeiro, e principalmente, do público que representa afeto e segurança primordiais: os pais e seus representantes.

O Estado em favor de uma sociedade mais justa e melhor

Meu sonho é um Estado que reconheça esses princípios fundamentais:

- alicerces, bases de apoio, de sustentação.

- É nisso que se tem que investir.

- É a isso que se tem que recompensar.

- É isso que amplia a classe média, reduz a ignorância, a miséria.

- É isso que dá origem a uma sociedade mais justa e melhor.