Você tem tido a oportunidade de conviver com crianças pequenas?

Percebe como velhas teorias permanecem vivas e cheias de sentido?

Basta olhar ao redor e comparar o que se vê, se escuta e se sente já foi escrito… e que as mudanças observáveis não deixam de ser, sob inúmeros aspectos, variações ao redor do mesmo tema.

Neste momento, penso na descoberta da identidade sexual. Como é que, havendo tanto mais naturalidade ao redor de corpos nus e da denominação de diferenças anatômicas, há um determinado momento – ao redor de 2 ou 3 anos de idade – em que a criancinha “realmente” se descobre e se assume enquanto pertencente ao mundo masculino ou ao mundo feminino? E este momento, na era atual, não difere daquilo que era registrado há pelo menos um século atrás…

Freud provocou intensas reações ao falar claramente sobre aquilo que a sociedade resistia em admitir e, consequentemente, em denominar. Uma significativa fatia do que constitui a essência do ser humano se viu desnuda. Somos seres sexuados, sim, desde o início até o fim de nossas vidas. Sexo não pode ser confundido com formação anatômica ou genitalidade. É algo bem mais complexo e dinâmico. Mas vamos diretamente ao foco destas reflexões: quando e como as criancinhas formam seus conceitos – e também seus futuros preconceitos – em relação à sexualidade humana?

Há um momento em que meninos e meninas se mostram curiosos e talvez perplexos em relação às diferenças anatômicas, seus significados e funções, muito embora já as tivessem constatado desde o início de suas vidas. Velhas indagações se repetem, e eles se dão conta de que, neste mundo, há homens e mulheres, e que todos pertencemos a um ou a outro grupo – independente de sermos homo ou heterosseuxuais, homo ou heteroafetivos.

Mas em que consiste ser menino ou menina, homem ou mulher? A resposta não é tão óbvia simples quanto, à primeira vista, poderia parecer.

Percebo que as criancinhas procuram referências muito simples e concretas, na tentativa de formarem seus próprios conceitos: o corte dos cabelos, o uso de brincos ou de outros adereços, a cor e o estilo das roupas, a preferência por determinados brinquedos e brincadeiras… Não pode parecer estranho que, numa época na qual homens e mulheres temos tantos padrões em comum, as crianças sintam necessidade de tais referências organizadoras?

Não, a mim não parece estranho. Elas buscam referências simples e concretas, para se situarem num mundo bastante complexo, das quais farão parte por toda a sua vida – dados estes a serem devidamente revisados e elaborados enquanto crescem.

Preconceitos de toda a natureza – e aqui incluímos as homofobias – são formados a partir da identificação com modelos rígidos, que personificam juízos de valor mal-fundamentados, que se alinham segundo aquilo que consideram ser “do bem” ou “do mal”, “certo ou errado”, condenando e excluindo aos que não se enquadram em seus próprios padrões.

Uma criancinha é extremamente vulnerável aos estímulos que recebe, embora possa vir a ser reflexiva, questionadora e capaz de rever conceitos e preconceitos. Mas você já reparou como, muitas vezes, os atuais enunciados contra qualquer tipo de preconceito são, por si só, preconceituosos, não admitindo qualquer tipo de réplica?

Muitas vezes, o adolescente e o adulto movidos por preconceitos adotam como uma de suas principais defesas a formação reativa: no intuito inconsciente de manter a negação sobre o que está inadequadamente reprimido, fazem o oposto do que, lá no fundo, os move. Por exemplo: quantos homens e mulheres que exibem uma sexualidade exuberante, e quantos homofóbicos, na verdade, estão se defendendo de uma sexualidade inibida ou, mesmo, de tendências homossexuais? Quantos homossexuais estão se defendendo de uma infância altamente erotizada, por influências abusivas de seus próprios pais e educadores?

Simplesmente, não temos respostas e, se nos agarrarmos a qualquer idéia conclusiva, nós estaremos nos colocando em becos sem saída – na teoria e na prática.

Vamos observar nossas criancinhas, encantando-nos com elas. Com suas curiosidades, suas descobertas, seu ser e seu vir-a-ser. Lembro uma frase linda, atribuída a Rosseau:  “Deixai desabrochar a infância nas crianças”. Que nossas respostas sejam simples, claras e verdadeiras. Que nossos valores incluam respeito, consideração e amor. Amor por elas, por nós mesmos e pela humanidade.

- Eu sou um menino. Cor-de-rosa é só para as meninas. Quando brinco de casinha, sou o papai. Não gosto que homens usem brincos e nem cabelos compridos. Eu uso bonés e chuteiras. Ganhei muitos carrinhos velozes em meu aniversário e, depois, fui jogar futebol com meus amigos.

- Sou uma menina. Eu vi uma lembrancinha azul na porta da maternidade. É porque ali nasceu um menino. Gosto de bonecas e de carrinhos também – mas muito mais de bonecas. Meus cadernos são coloridos, e dizem que isto é bem coisa de menina. Eu fui na Disney e me vesti de Branca de Neve. Meu irmão estava de aniversário e os meninos usaram roupas de super-heróis. As meninas não, é claro…

Tem que “ser assim”? Claro que não, mas comumente é – e isto não significa que o referido menino jamais deixará que seus cabelos cresçam, ou que não usará camisa cor-de-rosa, ou que discriminará meninos-gays, ou que será incapaz de lavar louças; e não significa que a referida menina jamais fará parte de um time de futebol, que venha ou não a ser uma boa esposa, mãe, dona de casa ou profissional…

“Ser assim” é algo que ocorre por força do ambiente? Claro que sim, tanto os pais quanto todo um ambiente sócio-cultural alimentam tendências e estimulam a adoção de conceitos e padrões de comportamento. Mas as tendências “da natureza” não podem ser ignoradas, como se a nada representassem e a nada impulsionassem.

As pesquisas demonstram que muitos casais gays se preocupam em permitirem que seus próprios filhos possam se definir enquanto homens ou mulheres. Eventualmente, isso pode ser manifestação homofóbica neles próprios – mas não necessariamente. Talvez estes casais simplesmente sigam a frase atribuída a Rosseau, que mencionei há pouco: “deixai amadurecer a infância nas crianças…”

Os comentários feitos acima, penso eu, podem ser aplicados a qualquer outro aspecto, quando as criancinhas, vivendo, descobrem a vida: observam, perguntam, tiram suas próprias conclusões.

Ante-ontem, em Barcelona, vi um menininho de uns dois anos tendo um ataque de birra. Hoje, em Granada, aqui no hotel onde registro estas reflexões, vi uma menininha, de uns três anos, jogando-se no chão, esperneando e gritando: “no, no, no!” Coisa mais linda esses dois. Simplesmente, “é assim” – e é assim que se cresce, se aprende e se vive.

Conceitos são importantes, funcionam como parâmetros, necessários para nosso bom funcionamento e para um bom uso da energia psíquica. Preconceitos, pelo contrário, representam conceitos enrijecidos, imobilizadores, empobrecedores.

Em que ponto nos situamos nós? Espero que estejamos todos “caminhando” e “crescendo” com todas as experiências que a vida nos permite ter. Se você quiser dividir comigo suas reflexões a respeito, escreva para meu e.mail (iaracamaratta@gmail.com). Suas opiniões serão muito bem-vindas!