INTRODUÇÃO

Cumpre-se o ciclo vital. Nós crescemos, amadurecemos, frutificamos… E eis aí nossos filhos, repetindo a história. Nossos netos, completando o ciclo. Preferentemente, nem filhos e nem netos aprisionados em labirintos tortuosos ou em círculos viciosos, completamente sem saídas. O ciclo vital pode ser muito melhor representado por espirais libertadoras, que muitos autores denominam “círculos virtuosos”, apontando para o alto, ampliando cenários, enriquecendo a vida e aos seus viventes.

A BELEZA DE CRESCER

Por mais que bebês – e filhotes – nos encantem, é dura a vida de quem se vê cerceado por toda a sorte de limitações, impedido de se expandir, de crescer, de se emancipar. Infelizmente, esta é a sina de pessoas que nascem com diferentes tipos de distúrbios, não podendo usufruir o mais plenamente possível o que a elas se pretendia oportunizar. Mas, dentre as crianças com dificuldades especiais (físicas e/ou mentais), muitas encontram pais acolhedores, capazes de investir todo o afeto do mundo, de tal modo que elas conseguem se desenvolver num patamar bem significativo – melhor do que acontece com alguns bebês que preenchem todos os critérios de “normalidade”

Lembro que, há mais de 20 anos, eu fazia uma palestra aos pais e professores de uma escola especial. Um jovem me acompanhava silenciosa e atentamente, com os olhos brilhantes e interesse total. Os presentes levantavam questões, opinavam, e eu me sentia muitíssimo gratificada com o andamento do encontro. Sei que dei muito de mim, reparti estudos, reflexões, experiências de vida, ao mesmo tempo em que aprendia, pois os pais e os mestres compartilhavam aspectos inéditos – para mim – acerca da sexualidade do adolescente com síndrome de down. Ao final, pais e professores vieram ao meu encontro, afáveis, manifestando agradecimentos e recebendo meus agradecimentos por essa tão rica oportunidade. Finalmente, o jovem se aproximou, e só então, pelo seu modo de falar, percebi que ele era um dos alunos da escola. Apertou minhas mãos entre as suas e disse:

- Obrigado, doutora. Muito obrigado. Eu entendi tudo o que a senhora falou. A senhora falou sobre o amor. Sobre o amor entre os pais e os filhos, entre as pessoas. A senhora falou sobre o amor – e eu entendi!

Até hoje, esta lembrança me emociona. Penso que, lá, todos nós falávamos e escutávamos sobre o AMOR – assim mesmo, com todas as letras maiúsculas. E, o mais importante de tudo: “ele” entendeu, embora fosse um jovem com importantes limitações cuja trajetória, contudo, merecia ser representada pela espiral libertadora. Excelente!

Uma criancinha, para se desenvolver consistentemente, necessita se ampla e profundamente acolhida por pais amorosos, capazes de “reconhecê-la” como ela é e de viverem com plenitude a cada fase de seu desenvolvimento – desenvolvendo-se com ela. Necessita ser escutada em suas primeiras palavras, amparada em seus primeiros passos, apreciada em suas conquistas, liberada para viver sua própria vida.

Nessa convivência (com+vivência) os pais têm oportunidade de reciclarem suas experiências prévias, curando feridas, redescobrindo possibilidades. Crescer é muito bom, especialmente quando todos crescemos juntos, ao longo do ciclo vital.

Merecem ser lastimadas, porém, aquelas situações nas quais as crianças têm suas possibilidades delimitadas ou, até, impedidas, pelo comprometimento emocional de seus pais que, por sua vez, seguem os rumos que lhes foram ditados por suas famílias de origem, geração a geração: em nome do pai, da mãe e do filho…

EM NOME DO PAI, DA MÃE E DO FILHO

Acredito piamente que não caiba condenação à maioria dos pais despreparados, que têm filhos, mas que não sabem em que consiste ser um bom pai, uma boa mãe. Afinal, não podemos dar aquilo que não temos em nós. Geralmente, se observarmos os dramas familiares, não precisamos de nenhuma bola de cristal para percebermos que dificuldades e, mesmo, distúrbios, tendem a se repetir de geração à geração. É impressionante, também, a capacidade de as escolhas “ditas amorosas” recaírem sobre parceiros capazes de “jogar om mesmo jogo”, marcado por zonas de afinidades e de complementariedades.

O pai, a mãe e suas famílias de origem não transmitem apenas sua bagagem genética. Transmitem suas crenças, seus valores; denominam, qualificam, distribuem lugares e funções. Mais curioso ainda é que o fazem automaticamente, sem uma intencionalidade consciente, sem uma autocrítica “objetiva” – se é que se pode falar em objetividade, quando o tema é de ordem emocional.

O desejo predominante, ao que tudo indica, é ser bom pai ou boa mãe, é dar o melhor de si para os filhos, e ter como resposta um desenvolvimento adequado, uma vida feliz. No entanto, nada é tão importante para os filhos do que os pais cuidarem bem de si mesmos, enquanto indivíduos e enquanto casal pois, como digo e repito desde que me vi envolvida nos mistérios da maternidade: “O MELHOR QUE PODEMOS DAR AOS NOSSOS FILHOS, É NÓS MESMOS, EM BOAS CONDIÇÕES.”

Quando um pai e uma mãe mostram-se capazes de encarar os fatos, compreendendo a si mesmos, desistindo da ânsia de encontrar culpados, mas investindo na busca de soluções para os conflitos, na qualidade de vida e de vínculos, abrem-se as portas para um belo porvir.

CRIANCINHAS DO SÉCULO XXI

Ontem, participei de uma linda e singela festa de aniversário. Quatro aninhos, sabem lá o que isto significa? O Homem Aranha estava presente, com muitos pequenos Homens-Aranhas, dispostos a se divertirem juntos. Ah, havia princesas também. E crianças que já não se achavam em fase de usar fantasias e então… vestiam-se como jogadores de futebol e com outras roupinhas muito especiais. Afinal, em qualquer uma das hipóteses, vestiam suas fantasias…

O que me encanta é ver como há crianças capazes de brincarem juntas, compartilhando alegremente brinquedos e oportunidades, sem disputas, sem brigas de qualquer natureza. Enquanto isso, o time dos tios e avós apreciava a qualidade dos filhos, amigos de longa data, competentes enquanto pais, companheiros e profissionais. Gente séria, comprometida… e feliz. Apreciava a qualidade dos netos, capazes de se divertirem, de cumprirem as “regras do jogo”, de respeitarem limites, por mais que se expandissem. Encantador. Emocionante. É isto que a gente quer!

Hoje, almocei com amigos, seus filhos e netos. Falavam em “crianças cristal” e em “crianças índigo” – nova geração de crianças, capazes de superar dilemas passados, contribuindo ativamente por um mundo melhor, como se já tivessem nascido com essa capacidade e missão. Com esse predisposição e competência…

Não digo nada, pois nada tenho a dizer. Só penso nessas muitas teorias populares, que me parecem de um caráter fantasioso, quase mágico; mas, ao mesmo tempo, estabeleço paralelos entre o se observa, o que se diz e o que se estuda acerca do psiquismo humano e da psicodinâmica da família.

Índigo?… Cristal?… Não sei bem do que se trata, mas o pouco que casualmente leio ou escuto fecha com o que constato em algumas das crianças que tenho por perto de mim, e observava em meus filhos e em seus melhores amigos – que, “casualmente”, tornaram-se os “amigos para sempre”.

Em nome do pai, da mãe e do filho: geração a geração, a cada um de nós compete fazer a sua parte por um mundo mais justo, mais saudável e mais feliz. Como? Vivendo a própria vida, da melhor forma possível.