VIDA A DOIS: PRINCÍPIO DO PRAZER X PRINCÍPIO DE REALIDADE. Artigo informal neste site.

 

INGREDIENTES PARA UMA VIDA FELIZ

Iara L. Camaratta Anton

INTRODUÇÃO

Avessa a manuais de auto-ajuda, crio um tema que pode aparentar esse caráter, para o segundo encontro da série Bate-papo na Cultura 2012, sobre Vida a Dois: a escolha do cônjuge e a construção do vínculo do amor.

Mas por que avessa a manuais de auto-ajuda?

Porque tenho observado que o que nos bloqueia em opções saudáveis não é, necessariamente, a falta de informações e de sugestões. E mais: quando dispomos das mesmas, nem sempre conseguimos empregá-las da melhor maneira possível, a tal ponto que os resultados podem ser mais desastrosos do que se agíssemos espontaneamente, a partir de nossos recursos e inspirações pessoais.

Significa que, neste momento, estou apenas compartilhando observações, que podem, eventualmente, ser úteis, dependendo da forma como ecoam em cada um. O que faz sentido para cada um de nós? Que rumos podemos tomar, perante nossa realidade pessoal? As variáveis são inúmeras.

IDENTIDADE PESSOAL

Penso que nossa identidade pessoal é um dos ingredientes básicos para a formação de vínculos saudáveis. É de nos perguntarmos:

Quem sou eu? Quais meus pontos fortes, meus pontos fracos? Minhas possibilidades, meus limites, minhas impossibilidades? O que desejo, o que temo, o que recuso, e em que grau desejo, temor e recusa influenciam meu modo de ser e de viver? Quais são meus principais objetivos, que sentido tem, para mim, a vida? Tenho elos fortes e verdadeiros, com pessoas que me são significativas e com as quais sou capaz de estabelecer relações de troca, mutuamente vantajosas? Sou capaz de dispensá-los, se for o caso?

Proponho que nossas reflexões tenham como ponto de partida a nós mesmos, pois é por aí que temos alguma chance de assumirmos nossa própria responsabilidade sobre nossas con/vivências, com ênfase na vida a dois. Ou seja:

Minha unidade é fundamental. Uma espécie de pele recobre meu corpo e minha alma, protegendo-me e permitindo que eu seja reconhecida entre os milhões de pessoas que habitam o planeta. Que eu me aproxime, que eu abrace e seja abraçada, sem me fundir e nem me confundir. Que eu reconheça e respeite os limites, indicativos de alteridade. Porque “eu sou eu”, e me reconheço como tal, nas mais diversas particularidades. Eu sou eu, e me aceito, e me amo, a tal ponto que me disponho, inclusive, a tentar superar minhas dificuldades pessoais – por mim mesma, pelas pessoas a quem eu amo, pelo universo que habito, pelos meus semelhantes.”

Essa parte é dura. Tenho que reconhecer limites, sem me aviltar, sem me humilhar por isto. E tenho que reconhecer qualidades, que podem me representar responsabilidades, e que podem acionar conflitos conscientes e inconscientes. E administrar tudo isto! Resultado: um belo teste de auto-estima que, quanto mais se desenvolve e fortalece, mais resulta em humildade. Destaca-se, então, a questão da alteridade…”

ALTERIDADE

Surge o “outro” diante de mim. Com sua própria identidade, com tudo o que faz dele um ser único no mundo e, como tal, insubstituível – como eu sou. Quem é este outro, a quem eu talvez ame ou odeie, admire ou despreze, deseje ou inveje, respeite ou ataque?… Quem é este outro que eu me disponho a descobrir, a reconhecer, a amar e a respeitar?

Sim, o reconhecimento à alteridade, à identidade, à individualidade do outro é mais um dos ingredientes básicos para uma vida feliz. Isso representa a evolução do narcisismo primário para um novo patamar, constituído a partir da autodescoberta e de uma autoestima saudável. O “outro” não é uma extensão minha, eu posso vê-lo, escutá-lo, compreendê-lo. Isto significa que podemos nos associar, porque nos queremos bem e temos belos objetivos em comum.

A descoberta do outro como realmente um “outro” mexe conosco, desde a mais tenra idade. Não deve ser fácil para um bebê descobrir que seus “objetos maternos” (pai, mãe e cuidadores que aprendem a decodificar suas linguagens e atendê-lo em suas necessidades) não fazem parte dele, não estão sempre disponíveis, nem sempre satisfeitos e felizes com suas gracinhas… Talvez seja mais difícil ainda “triangular”, ou seja, perceber que existem ligações entre as pessoas mais importantes de suas vidas – ligações estas que o excluem, ao menos sob alguns aspectos e temporariamente. Pai e mãe, por exemplo, completam-se em aspectos inacessíveis ao bebê, entre “este homem” e “esta mulher”. Claro, este limite é essencialmente libertador, permitindo que ele busque, a seu tempo e no mundo externo, esta forma específica de amor e de prazer. Mas como é que ele vai saber disso, enquanto ensaia seus primeiros passos?

Aos poucos, ele descobre que cada “outro” que lhe é significativo tem características próprias, assumindo determinados papéis e funções, apresentando expectativas, fazendo exigências, impondo limites e sanções. Abrem-se algumas feridas narcísicas que, embora dolorosas, são necessárias e importantes para seu desenvolvimento. Ele recua em suas demandas, em suas urgências. Aprende a esperar. Aprende a fazer por merecer. Parte do processo primário, caracterizado pelo princípio do prazer, e começa a desenvolver o processo secundário, onde o princípio de realidade se constitui.

A presença do outro, enquanto “outro”, define os limites necessários, entre o eu e o tu, e fornece os contornos que definem a individualidade de cada um. Mas nem todos evoluem desta forma. E, na futura vida a dois, as con/fusões entre o eu e o outro, o eu e o tu, são fontes de conflito e dor, impeditivas de uma relação minimamente feliz.

EU + TU = NÓS.

A vida a dois, para ser confortável, implica na união de pessoas independentes entre si – tão independentes que poderiam viver bem uma sem a outra e que, justamente por isto, são capazes de se aproximarem, sem se sufocarem, são capazes de se unirem, sem se confundirem.

Muito de nós, como foi colocado acima, não temos esta condição. Nossas histórias pessoais, nossas memórias conscientes e inconscientes, nem sempre favorecem o desenvolvimento de uma identidade segura, da capacidade de reconhecer e respeitar a alteridade, de criar um belo espaço para “nós”, sem que o “eu” e o “tu” se percam, seja por invadirem espaços, seja por se retraírem demasiadamente.

Identidades mal definidas conduzem a extremos:

- A tiranias, por exemplo, quando um não reconhece o outro em sua individualidade e direitos; usa-o como mera extensão, tendo em vista as próprias necessidades e, principalmente, à satisfação de suas demandas pulsionais.

- A manipulações narcisistas, quando homem ou mulher seduzem, despertando o desejo e a disposição em serem gratificados sem, contudo, experimentarem genuíno reconhecimento e verdadeira gratidão.

- A submetimentos, quando alguém não se conhece e nem se ama suficientemente, dispondo-se a ser usado e incorporado pelo outro que, na verdade, o complementa.

- À adoção de camadas rígidas ao redor de si mesmo, tornando-se impermeável a relações de afeto, tentando, contudo, a garantir o vínculo através de recursos desviadores, como a vitimização, as imposições de culpas, os ressentimentos, as chantagens emocionais.

- À formação de sintomas, a diversos tipos e graus de patologias individuais e vinculares.

- E a tantas outras dolorosas possibilidades…

Em condições saudáveis, eu + tu = a nós, sem fusões e nem maiores con/fusões. Ambos capazes de reconhecerem a si mesmos, em suas individualidades, e de reconhecerem a essa individualidade ímpar, que denominamos “casal”. O casal é muito mais do que a soma de dois indivíduos; tem a ver com o estabelecimento de fronteiras claras, bem definidas, porém flexíveis; tem a ver com a integração entre duas pessoas únicas, diferentes e que fazem a diferença.

DO PRINCÍPIO DO MPRAZER AO PRINCÍPIO DE REALIDADE

 O Princípio do Prazer implica na busca imediata de alívio para tensões, ou seja, para obtenção do prazer pelo caminho mais curto (pela “via-curta”), comportamento este absolutamente típico e natural, em se tratando de “Sua Majestade o Bebê”. Desde sua ótica, ele (o bebê) não está no centro do mundo; ele é o próprio mundo. Aos poucos, porém, diminui a onipotência absoluta, e imagina-se já não “o mundo”, mas o “centro dele”, sim.

Oh, sim, e como! Basta um gesto, um som, e todos deverão curvarem-se às suas demandas. O mundo será tido como bom, seguro e confiável, quando o bebê estiver satisfeito; hostil, cruel e, até, aterrorizante, quando o alívio tarda a chegar. Mas, aos poucos, o outro vai se definindo, com cada vez maior clareza.

E é por esse viés que nós, há muito tempo atrás, descobrimos que o mesmo ser a quem, em alguns momentos, odiamos, é aquele a quem amamos, e que queremos conservar, gratificar, e ter sempre junto conosco. Mas isto tem um preço. Aprendemos, então, a conter nossos impulsos, a avaliarmos uma realidade bem mais ampla e complexa do que supúnhamos. Aprendemos a tolerar frustrações, a adiar a gratificação desejada, a trilhar por caminhos que levem a realidade – o “outro” – em consideração, e a “fazer por merecer”.

Enquanto isso, acalentamos sonhos. Boa parte destes, foi feita só para sonhar. Avaliamos, peneiramos, escolhemos. É então que percebemos que há sonhos que podem ser transformados em objetivos, e que, reunindo forças, podemos conquistar prazeres bem mais completos e duradouros.

Isso pressupõe o desenvolvimento da capacidade de opção. Optar significa não só definir metas, a curto, a médio e a longo prazo. Significa poder adiar e, inclusive, renunciar. Significa assumir a responsabilidade para chegar lá, procurando ser merecedor dos prazeres desejados e conquistados – e capaz de zelar por eles que, assim, passam a ter valor. O equilíbrio entre o princípio do prazer e o princípio de realidade faz-se presente na saúde mental do indivíduo e de seus pares, do familiar e do coletivo.

Em se tratando de casais, ou seja, da “vida a dois”, como se pode deduzir, a capacidade de opção leva em conta a cada um dos parceiros, favorecendo-os enquanto indivíduos e enquanto casal. Implica em respeito e consideração mútuos, em apoio e em colaborações. Implica na aceitação das diferenças, na boa administração das divergências e na definição de espaços, nos quais ambos consigam se mover com conforto, segurança e felicidade.

Cabe, aqui, à guisa de encerramento, citarmos as fontes destas reflexões, tais como Freud, Klein, Winnicot, Lacan, Horney e estudiosos de Palo Alto, entre outros, e usarmos algumas frases de Rubens Alves, em “O amor que acende a lua” (Papirus, 2011), que sintetizam elegantemente as reflexões acima:

“E há o prazer da presença: a alegria de estar aqui, neste estúdio, cercado de objetos que me são caros, escrevendo. Mas, pelo fato de estar aqui, não estou nas montanhas nem nas praias. Minha presença aqui é a minha ausência de todos os outros lugares” (p. 211).

“Para se escutar uma canção, é preciso que todas as outras canções sejam silenciadas” (p. 212).

ADENDO:

Depois do Bate-papo na Cultura, em que conversamos sobre Vida a dois: princípio do prazer x princípio de realidade, recebi uma mensagem de amiga do face, Leni Fontoura Kuhn, com citação de Rubens Alves, intitulada “A outra metade” cuja inclusão nesse texto sobre “Ingredientes para uma vida feliz”, achei muito oportuna:

 “Quando você encontrar a outra metade da sua alma, você vai entender porque todos os outros amores deixaram você ir.

Quando você encontrar a pessoa que realmente merece o seu coração, você vai entender porque as coisas não funcionaram com todos os outros.

O que as pessoas mais desejam é alguém que as escute de maneira calma e tranquila. Em silêncio. Sem dar conselhos. Sem que digam: “Se eu fosse você”. A gente ama não é a pessoa que fala bonito.

É a pessoa que escuta bonito.

A fala só é bonita quando ela nasce de uma longa e silenciosa escuta. É na escuta que o amor começa. E é na não-escuta que ele termina.

Não aprendi isso nos livros. Aprendi prestando atenção”.

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