O IDOSO PERANTE OS ESPELHOS DA VIDA

 

INTRODUÇÃO: PRECONCEITOS SOCIAIS

São muitas as barreiras que a vida – e seus viventes – oferecem para uma pessoa que, bem ou mal, assume o próprio envelhecimento.

Um deles está no espelho. No espelho que se oferece aos olhos, exibindo contrastes ente a beleza juvenil que todos os meios de comunicação ostentam despudoradamente. Os efeitos dos cosméticos, por exemplo, são exibidos por artistas belos e famosos, a maioria dos quais nunca chegou nem perto dos produtos anunciados. Vende-se ilusões, pois uma coisa é estimular cuidados, através da alimentação, do exercício e do uso de produtos saudáveis e eficazes.

Lembro de duas senhoras muito próximas a mim que, aos oitenta e tantos anos, referiram ao desgosto de se olharem nos espelhos, como se estivessem irreconhecíveis – e ambas não tinha, entre si, o menor contato.

Outra frustração comum entre os idosos está ligada ao desenvolvimento de recursos tecnológicos, que muitos se recusam a usar, porque se sentem incapazes – o que fica pior ainda quando filhos e netos se mostram impacientes e, em vez de compartilhar algumas dicas, preferem resolver o problema diretamente, como se estivessem diante de quem só lhes dá trabalho.

Surgem, então, os ressentimentos, pois os jovens e adultos de hoje não lembram o que significou em suas vidas ter quem os acompanhasse em seus primeiros passos e em suas primeiras palavras. O nascimento, está ligado ao desabrochar, ao ficar e ser cada vez melhor. O envelhecimento, ao fenecer, ao diminuir competências, ao piorar, até desaparecer no seio da terra. E tais atitudes desencorajadoras também são encontradas em sistemas de “apoio” dos provedores de internet, quando jovens ignorantes e preconceituosos atendem de modo displicente, ao identificarem, pela voz, que quem se encontra do outro lado da linha é um usuário idoso.

Sim, muitas vezes estamos diante de reais dificuldades. Diante delas, deveríamos arregaçar as mangas – tanto os idosos, quanto os mais jovens que estão ao seu lado – para que dificuldades sejam superadas e novas condições de competência e autonomia sejam adquiridas.

Idosos: não desistir, persistir; há manuais de instrução por todos os lados, além de bons livros e de recursos difundidos pela internet; se as tentativas não forem exitosas através destes meios ou do apoio de familiares, há bons professores que podem orientar.

Jovens: é chegado o momento de retribuir; além disso, é chegado o momento de cuidar de si mesmo, de seu aprimoramento enquanto pessoa, e de entender que preconceitos têm que ser enfrentados e superados. A mídia proclama a necessidade de respeito em relação a negros e a homossexuais. Concordo plenamente, mas é chegada a hora de se incluir nestas campanhas outros tantos preconceitos, como, por exemplo, os sofridos pelas pessoas obesas, idosas ou portadoras de alguma deficiência qualquer.

Respeito à alteridade, às diferenças. E, neste quesito, as empresas deveriam trabalhar com muita seriedade a relação entre seus profissionais e seus clientes. Atitudes modificam-se muito lentamente e, quando se aponta ideais e se desencoraja o que “faz mal”, a tendência é que superações, passo a passo, venham a ocorrer.

Afinal, além dos espelhos físicos, o espelho que o outro representa, através do olhar, tem um poder impressionante – e nem sempre o idoso tem autoestima o suficiente para reconhecer e enfrentar o fato de que o olhar alheio pode se constituir numa enorme distorção.

A IMAGEM REFLETIDA NO ESPELHO

A imagem refletida no espelho, por sua vez, tende a ser um dos itens mais perturbadores – às vezes, até mesmo mais perturbador do que reconhecer que o corpo fala através de sintomas físicos, como diminuição de acuidades, de energia e agilidade, além do surgimento de dores e desconfortos físicos, disfunções e patologias. O espelho remete à vaidade e a decepção diante da imagem que nele se reflete, pode conduzir ao emprego maciço de defesas, tais como:

- evitar olhar-se em espelhos;

- supervalorizar elogios recebidos, alimentando ilusões de ordem narcísica, como a de estar parecendo mais jovem e belo do que, efetivamente, gentis palavras pretendiam transmitir;

- buscar compulsivamente métodos que retardem o processo e, principalmente, os sinais de envelhecimento (cosméticos, ginásticas, cirurgias plásticas);

- criticar a aparência do cônjuge e de velhos amigos;

- evitar o encontro com velhos amigos, na ânsia de conservar na memória coletiva a antiga aparência vigorosa e jovial;

- buscar avidamente o contato com pessoas mais jovens e, com elas, ter atitudes sedutoras, mostrar-se jovial e belo(a), para convencer-se de que continua em plena forma física e psíquica;

- evitar o encontro com pessoas mais jovens e buscar exclusivamente a companhia de idosos em atividades típicas, onde todos estão “no mesmo barco” e as comparações não são tão deprimentes (jogos de bocha, carteados, rituais religiosos, viagens restritas a idosos…).

Todos nós, necessariamente, desenvolvemos mecanismos de adaptação e defesa, pois é natural e necessário que estejamos aptos a viver plenamente cada fase do ciclo vital, ao mesmo tempo em que temos que nos proteger da sobrecarga de frustrações e sofrimentos que a vida oferece. Mas qualquer excesso é indício de que o que sentimos está “demais”, ou seja, causa e efeito apresentam-se em rigorosa proporcionalidade. Em condições favoráveis, os mecanismos acima enumerados, dentre outros tantos, tendem a ocorrer de forma amena, a serviço da saúde física e psíquica e da conservação de um estado em que predominam o bem-estar e a alegria de viver. Muitos idosos, porém, não suportam a carga que faz parte do processo de envelhecimento.

Já que este, por diversas razões, é doloroso para, provavelmente, todos nós, vários segmentos da sociedade atual têm investido na preservação da saúde e da estética – o que é muito bom. De qualquer forma, é necessário que se possa aceitar as consequências da passagem do tempo – e não só as boas. Cabe lembrar uma frase bem sugestiva: “só há um modo de não envelhecer…”

A morte é o fantasma que assusta, embora alguns idosos pareçam caminhar saudável e serenamente para ela. Quando a pessoa não tolera encontrar-se nessa faixa etária, todas as defesas acima mencionadas – e outras – apresentam-se em excesso, de modo a resultarem funestas. Em outras palavras: o que era para funcionar como paliativo ou solução, resulta em novos problemas.

CASAIS IDOSOS EM CONFLITO COM O PRÓPRIO ENVELHECIMENTO

Mau humor crônico, brigas e desempenho sexual insatisfatório passam a ser rotina na vida de alguns casais, especialmente quando um não suporta ver estampado no rosto e no corpo do outro os sinais do tempo que passa.

Algumas mulheres exageram na maquilagem, nas academias, nas manifestações de uma suposta felicidade; à semelhança de adolescentes e jovens, querem se mostrar espirituosas e divertidas, passando por uma nova crise de popularidade. Ao lado disso, criticam seus maridos “velhos e ranzinzas”, não experimentam prazer algum em sua companhia e nem fazem questão disso, pois, se diferente fosse, muitas “preciosas queixas” perderiam a razão de ser.

Alguns homens, buscam mulheres bem mais jovens, usam medicamentos para manterem a ereção, e tentam viver com plenitude a velha fantasia de que quem tem um falo tem tudo. O rosto e o corpo da parceira mais jovem reforça a ilusão de que suas mulheres envelheceram – mas eles não!

Este é um fato que muitas vezes se observa: conflitos conjugais podem funcionar como expressão de outro mais profundo e silencioso: a não-aceitação do processo de envelhecimento. Da mesma forma, quando um casal já não conseguia harmonizar-se em épocas anteriores, os sinais de aborrecimento acentuam-se, como as marcas na pele; e o enrijecimento emocional aumenta, da mesma forma que o físico.

Só que, para nosso gáudio, também há aqueles que adquirem sabedoria, harmonizando cada vez mais e melhor consigo mesmos, com seu parceiro, sua família, seus amigos… e vivendo com plenitude, toda a vida que ainda têm e terão.

A ESCOLHA DO CÔNJUGE – UM ENTENDIMENTO SISTÊMICO E PSICODINÂMICO (ARTMED II edição)

“O IDOSO: NOVOS TEMPOS, NOVAS PERSPECTIVAS” é tema abordado em um capítulo inédito da nova edição do A Escolha do Cônjuge. Em uma sociedade que envelhece, abrem-se novos horizontes, e os idosos realmente não só estão vivendo mais, como também estão vivendo melhor. Isso implica em novas perspectivas, inclusive nos planos amoroso e sexual. Há muitas posições arraigadas, em parte fundadas nos preconceitos que custam a mudar. Podemos observar tais preconceitos inclusive na mídia, onde circulam propagandas ridículas como aquelas que, recentemente, associavam avós de “60 anos” (!!!!!…) com pessoas frágeis e descuidadas que, acompanhando netos à escola, recebiam recomendações acerca de atravessar a rua com cuidado. 60 anos?!…

Felizmente, tais chamadas televisivas não se sustentaram por muito tempo, Evidentemente que cuidados ao atravessar as ruas têm que ser mantidos, apregoados – e que muitos idosos, senis, aventuram-se descuidadamente. Mas, para estes, será que estas chamadas fazem sentido? Além disso, trata-se de um estímulo a que os mais jovens – inclusive as crianças – sintam-se em posição superior, diante de um “pobre vovozinho de 60 anos que sequer consegue atravessar uma rua sem receber recomendações de seus cuidadores…”

Hoje, muitos homens e mulheres de 80, 90 anos, continuam ágeis, saudáveis, lúcidos e produtivos. A maior parte, abandonou ou diminuiu o investimento em suas carreiras, mas segue cheia de vitalidade. Uma sociedade preconceituosa, porém, pode barrar-lhes os passos, em qualquer plano, mas especialmente no que diz respeito ao amor e à sexualidade.

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