2. E POR FALAR EM BEBÊS…

Artigo publicado na coluna “PARA AMAR E SER AMADO”

no site “TEMPO DE MULHER” – MSN

Iara L. Camaratta Anton*

 

Não, é claro que não vamos lembrar!

Grandes neurologistas, pesquisadores da memória, comprovam que existem falsas memórias, geralmente inspiradas e desencadeadas por fotos, filmagens e histórias que as pessoas contaram a respeito de nossa vida pregressa. Vamos montando cenas, encadeando supostos fatos e sensações, revivendo emoções ditadas muito mais pela fantasia do que pela realidade.

As primeiras memórias “organizadas” vão se instalando aos poucos, e não há uma “idade certa” para que isto ocorra. Geralmente, trata-se de flashs, imagens que passam voando, como que num piscar de olhos, como se estivessem soltas no ar. Mais adiante, as memórias vão se associando com maior coerência e constância, de modo que passam a compor uma noção de história. Geralmente, trata-se de fatos marcantes, quer pelo prazer, quer pela dor que proporcionaram. Algumas memórias desfazem-se, por uma série de razões que a própria psiconeurologia explica, concretamente. Outras passam a fazer parte da face oculta da mente, de modo que se mostram inacessíveis à consciência humana – algumas, por serem muito remotas; outras, por serem menos importantes; outras, por terem sofrido recalques, dado o nível de sofrimento a elas associados.

Falávamos em bebês. Em nossos bebês, e nos bebês que, um dia, fomos nós. Não, é claro que nem nós e nem eles iremos lembrar. Isto, porém, não torna menos importantes os registros que, em nossa mente, foram gravados, a ferro e fogo.

Primeiro, pela desproteção, que nos fazia extremamente vulneráveis, dependentes de quem representava, para nós, deuses ou demônios, seres detentores de poderes que envolviam muito mais do que prazer e dor: envolviam sensações diretamente ligadas à vida e à morte.

Claro, todos nós sofremos traumas. Todos nós, sem nenhuma exceção. A cada situação onde sentíamos que não dávamos conta, medos, dos mais variados tamanhos e formas, nos invadiam completamente. Mas isso passa, quando há quem se importe, e nos socorra, nos assegure, e restaure em nós a sensação de bem-estar.

Estou insistindo na palavra “sensação”, pois esta é dominante enquanto se é um bebê, que sequer dispõe de palavras para descrever e denominar o que se passa. O predomínio das sensações de bem-estar, derivadas do atendimento adequado às necessidades infantis, instaura em nós a chamada “confiança básica”, base da crença que o mundo é um lugar bom, que há quem se importe e com quem se pode contar, e que vale a pena viver.

Estes são os primeiros passos para a aprendizagem do amor e para o desenvolvimento da capacidade de amar e ser amado.

Em nosso próximo encontro, conversaremos sobre “mães – e pais – suficientemente bons”, como parte essencial – o ABC – da escola do amor.

 

SUGESTÕES PARA A GALERIA:

Aprecie a mesma, elaborada pela jornalista ANA KESSLER. Ficou linda!

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  1. Você acredita que as vivências de um bebê, em seu primeiro ano de vida, possam fazer parte de memórias que vão contribuir para o desenvolvimento da capacidade de amar e ser amado? Estudos muito atuais têm confirmado que sim. Se você estiver em dificuldades em relação aos seus amores, pergunte-se se você está repetindo algum padrão já bem conhecido, que dê a impressão de algo “já-vivido”. Claro, nenhum de nós poderá lembrar o início de nossas vidas, mas ir em busca do fio da meada pode ser muito benéfico.
  2. Por que a gente não lembra o que se passou na mais tenra infância e, mesmo assim, ficam tão importantes marcas? Veja que boa parte de nossas ações e reações parecem ilógicas e inexplicáveis – situam-se mais no plano das sensações do que do raciocínio. Essas sensações que reaparecem a toda hora dizem muito sobre nosso passado. Pense nisso também em relação aos seus filhos. O fato de esquecerem fatos do passado, não significa que estes não estejam muito vivos e atuantes, em seu mundo inconsciente.
  3. As sensações de confiança e bem-estar em relação ao mundo, à vida e às outras pessoas são fundadas nas primeiras etapas da vida. Você se considera uma pessoa suficientemente confiante e feliz? Afinal, felicidade é um estado de espírito e muitas pessoas sentem-se bem diante de tudo e de nada – são positivas por natureza e, muito provavelmente, gravaram experiências muito boas. Se, pelo contrário, você tende a ser depressiva e desconfiada, não hesite em procurar um médico ou um psicólogo. Um diagnóstico clínico e o emprego de medicamentos adequados pode ser essencial. Mas, além disso, é essencial resgatar a si mesma, compreender-se, acolher-se… Uma boa psicoterapia pode fazer toda a diferença.
  4. Se você sabe, ou acha, que foi um bebê mais traumatizado do que, medianamente se espera, não desanime! Tente olhar para si mesmo(a) com carinho e tolerância, evite cultivar ressentimentos, entenda que o que nossos pais nos proporcionaram, e o que nós proporcionamos aos nossos filhos, está encadeado em uma infinidade de experiências, que vêm sendo repassadas de geração a geração.
  5. Arregace as mangas, tende viver – e conviver – bem. O mundo só tem a ganhar. Você só tem a ganhar. É como quando lançamos uma pedra num lago de águas límpidas, e ondas se formam, se expandem, numa beleza sem fim.
  6. Mas não sejamos ingênuos: por vezes, as marcas são tão profundas e dolorosas que exigem ajuda terapêutica para que se conquiste uma vida melhor. Avalie carinhosamente esta possibilidade em sua vida. Você pode, você merece!

* Psicóloga. Psicoterapeuta individual e de casais. Escritora. Autora dos livros “A Escolha do Cônjuge – um entendimento sistêmico e Psicodinâmico” (ARTMED/Grupo A); “Homem e Mulher – seus vínculos secretos” (ARTMED/Grupo A); Cegonha à Vista! E agora, o que vai ser de mim?…” (EST); “O casal diante do espelho. Psicoterapia de Casal – teoria e técnica” (Casa do Psicólogo).