LUTO, TRAUMA E ELABORAÇÃO*

- Está completando um mês a tragédia que ocorreu em Santa Maria e sacudiu o mundo. As famílias estão de luto. Santa Maria está de luto. O fato de se tratar de um evento traumático costuma repercutir de modo bem diferente de lutos normais?

- Sim, com certeza. Luto, por si só, costuma ser uma experiência humana extremamente dolorosa, derivada de experiências que envolvem perdas significativas, traumáticas ou não. Normalmente, não existe trauma diante de eventos considerados normais e cujo desfecho vem sendo, de alguma forma, esperado, preparado. Tragédias como a ocorrida recentemente em Santa Maria, são inusitadas e surpreendentes, por ocorrerem em situações festivas, envolvendo gente jovem, saudável e cheia de vida. A tendência normal do ciclo da vida inverteu-se, filhos partindo inesperadamente e bem antes das gerações que os precederam. Se este fato repercute intensamente em cada um de nós, o que dirá entre as pessoas que mantinham laços de afeto com todos aqueles que, de alguma forma, foram vitimizados? Pais, irmãos, amigos, amores… Quanto maiores os laços, maior o impacto da perda, seja esta perda por morte ou por lesões físicas e psíquicas. Para estas pessoas, de certa forma, nada mais será como antes, e não há palavras que possam descrever com precisão tudo o que se passa dentro delas.

- O que podemos pensar a respeito de tanta tristeza? Ela se manifesta sempre às claras?

- Tristeza, desorientação e uma infinidade de emoções são, naturalmente, esperadas. Como expressá-las? Alguns conseguem comunicar vivamente seus sentimentos, falam, choram, escrevem, descrevem, buscam apoio entre os seus. Outros se isolam e silenciam – talvez até se afastem geograficamente dos locais e das pessoas que, até então, faziam parte de suas vidas. Há os que, em estado de choque, parece nem perceberem a extensão da tragédia. E há aqueles que, numa defesa extrema, entram num estado maníaco, mostrando-se inconvenientes, excessivamente falantes, agressivos, ou poderosos – fora de controle. É preciso que todos contem com a solidariedade dos seus, e da sociedade de um modo geral. Que sejam acolhidos e respeitados em suas reações. Que tenham acesso à ajuda profissional, terapêutica e medicamentosa, se for o caso.

- Tristeza e depressão se equivalem?

- É muito importante destacarmos que, se a tristeza faz parte do estado de luto, esta não pode, porém, ser confundida com depressão. Existe o luto normal, esperado e necessário. Naturalmente, nos primeiros meses, as pessoas que sofrem por perdas traumáticas, têm a sensação de que sua dor é insuperável, e necessitam vivê-la em sua plenitude; existem riscos diversos, quando se recorre ao uso indiscriminado de medicamentos para aplacar a dor psíquica: um deles seria o de se induzir a futuros sentimentos de culpa por algo que foi abafado, gerando predisposição a um luto sem fim, que pode acarretar em danos indiretos. Por esta razão, jamais se deveria aderir à automedicação ou a psicofármacos indicados por profissionais não habilitados a fazerem uma devida avaliação psiquiátrica e nem atualizados em relação aos recursos hoje existentes – indicações, restrições e possíveis reações adversas, talvez, até, paradoxais. Em outras palavras, é da alçada de profissionais devidamente capacitados fazer o diagnóstico diferencial e a terapêutica indicada; e que o tratamento medicamentoso, quando necessário, deveria se acompanhado por psicoterapia pois, se um minora e trata o quadro depressivo em si, outro contribui com a necessária elaboração do padecimento psico-emocional.

- Em que consistiria a elaboração?

- Vamos usar uma metáfora: – elaborar é algo semelhante a digerir, ou seja, tudo o que “engolimos” precisa ser metabolizado, aproveitando-se os nutrientes e eliminando-se os restos excessivos, desnecessários e potencialmente tóxicos. Vale o mesmo para nossas experiências emocionais. O processo de elaboração de lutos traumáticos tende a ser longo e árduo, por tratar-se de uma dor indizível e incomensurável.

- Mas por que razão algo, na dimensão do que ocorreu em Santa Maria, parece tão maior do que um acidente automobilístico, um afogamento, um incêndio, uma doença cujo desfecho é galopante?

- Entre outras coisas, porque escancara ao mundo a fragilidade humana; o efeito-surpresa diante do inesperado; a eterna validade daquele velho ditado: “para morrer, basta estar vivo”; e porque reascende o sofrimento que experimentamos diante da possibilidade de perdermos os seres amados; e porque somos solidários, ou seja, nós nos importamos com a dor de nossos semelhantes, mesmo que jamais venhamos a ter contato direto com eles.

- Solidariedade é “tudo de bom”?

- É muito reconfortante sentirmos que existe solidariedade e afeto, poder manifestá-los, acolher e sermos acolhidos, compreender e sermos compreendidos, respeitar e sermos respeitados.  Mas muitas vezes, pecamos por excesso. E nossos excessos podem acontecer através de nossa discrição, de nosso desejo de não sermos inconvenientes ou, até, de nossa timidez – não importa se estamos no lugar de quem sofre ou de quem, neste momento, está no lugar de quem presta solidariedade. Nossos excessos podem ocorrer através de atitudes inconvenientes, inoportunas, indiscretas, invasivas… Em poucos lugares se faz comentários tão inadequados quanto em cerimônias de despedida ou outros rituais que envolvem luto. Há palavras que, embora movidas pela intenção de consolar, são até revoltantes e acentuam o sentimento de solidão e desamparo de quem se encontra enlutado e, talvez, também traumatizado. Boa vontade e bom senso nem sempre coincidem. Afinal, é preciso que tenhamos “olhos que vejam, ouvidos que escutem” e mentes abertas para que possamos, de fato, sermos solidários e oportunos. Isso significa, inclusive, não misturar sofrimentos, não nos confundirmos uns com os outros. Algumas pessoas que se propõem a ajudar, até atrapalham, pois estão mais invadidas pelas próprias emoções do que aquelas que, aqui e agora, estão vivenciando suas perdas mais recentes.

- Como ocorre o processo de elaboração do luto? A solidariedade humana pode contribuir para facilitá-lo?

- A elaboração do luto nunca se dá num processo linear, mas apresenta oscilações, altos e baixos, avanços e recuos. O apoio das demais pessoas é decisivo, e geralmente nada tem a ver com “bons conselhos”, mas sim com presença e acolhimento, adequados às singularidades de cada caso, de cada pessoa, de cada família. Isto pode significar, eventualmente, tolerância muito sincera a necessidades de silêncio e de afastamentos. Há maneiras e maneiras de demonstrarmos que estamos juntos e que realmente podemos contar uns com os outros.

- O que acontece com as crianças que vivem situações de luto ou que descobrem a morte a partir de tragédias como esta?

- Crianças que vivem situações de luto, necessitam atenções especiais e têm recursos próprios para curarem suas feridas, recursos estes cuja utilização deve ser favorecida.  Geralmente, são espontâneas, fazem perguntas, comentários, buscam o aconchego e as atenções desejados e tendem a mudar de foco mais rapidamente que em outras faixas etárias. Assim, podem entrar e sair das situações nas quais escancaram os sentimentos dolorosos, com uma rapidez que surpreende aos adultos, como se, de um momento para o outro, estivessem alheias a tudo e a todos. Elas assistem TV, vão para o computador, divertem-se com seus amiguinhos – isto, em principio, é útil e natural. Mas seria recomendável que contassem com muitos brinquedos e materiais ligados a artes plásticas, como lápis de cor, tinta, papel, argila, etc., para que, brincando, encontrassem caminhos próprios, através dos quais pudessem dar vazão às suas fantasias e sentimentos, de modo a facilitar a elaboração do luto – sem que o adulto se preocupe em induzir o conteúdo das representações ou interpretar o que está sendo plasticamente revelado.  Além disso, elas precisam contar com informações claras, ainda que sucintas, sobre o fato em si e o que ele pode significar para todos; e precisam poder participar diretamente de rituais de despedida, contando com a presença e o apoio dos seus.

- Que riscos existem para as crianças que fazem parte de famílias enlutadas?

- Um dos grandes riscos quando se perde um filho, é que o outro venha a se sentir rejeitado, destituído de significado e valor perante os pais; ou sobrecarregado por expectativas sobrenaturais, como se agora ele recebesse a missão de representar o ausente, preenchendo todos os vazios que ficaram; ou até culpado quando, por um acaso, volta a sorrir, a gargalhar, a galgar novos espaços e a demonstrar que, enfim, a vida continua.

- Faz cerca de um mês que a tragédia ocorrida em Santa Maria marcou definitivamente a vida de tantas pessoas. O que podemos considerar a respeito da passagem do tempo na elaboração do luto?

- Os primeiros dias, os primeiros meses, o primeiro ano, são, para a maior parte das pessoas, os mais difíceis. A todo o instante, tendemos a marcar o tempo e a fazer evocações: na semana passada, a esta hora… na próxima, aconteceria isto ou aquilo; há cinco meses, ele ou ela… As sensações tendem a ser tão vívidas que geram a convicção de serem insuperáveis. Quando alguém sugere que vai passar, a pessoa enlutada tende a ficar revoltadíssima, e com toda a razão. Afinal, o que ela vivencia no presente não tem como furar a barreira do tempo e encontrar representações ligadas ao futuro.

Aos poucos, ainda que a dor permaneça, em algum grau, muito viva dentro de nós, ela tende a diminuir de tamanho e de força, abrindo espaço para que as boas lembranças permaneçam muito vivas dentro de nós. Pois não dizem os poetas que a saudade é a presença do ausente?…

Repito aqui a frase de uma pessoa muito amada, diante de um processo terminal: “Nosso projeto de vida era para muito mais tempo. Mas, se eu tiver que parar por aqui, mesmo assim, terá valido a pena”.

Sim, valeu! Este sentimento, esta convicção, com certeza pode constituir-se num dos fatores que favorecem a elaboração do luto e a permanência de uma ternura que transcende a vida, e à qual se pode denominar, simplesmente, saudade!

 

Iara L. Camaratta Anton

Psicóloga. Psicoterapeuta individual e de casais. Autora dos livros “A escolha do cônjuge” (ARTMED), “Homem e Mulher” (ARTMED) e “O Casal diante do Espelho” (Casa do Psicólogo), entre outros.