UMA DELICADA RELAÇÃO

ENTRE ALIMENTAR(SE) E ACOLHER, AMAR E SER AMADO

IARA L. CAMARATTA ANTON

PSICÓLOGA, PSICOTERAPEUTA INDIVIDUAL E DE CASAIS, CRP 07/0370

 

Alimentar-se é vida – desde sempre e para sempre.

Se é verdade que o ventre materno serviu para nós como um primeiro abrigo, quente e gostoso, também é verdade – ou deveria ser – que em seus braços encontramos o primeiro amparo neste mundo imenso, desafiador e, por vezes, até hostil, para o qual fomos lançados. E é verdade – ou deveria ser – que, em seus seios encontramos nossa principal fonte de vida e prazer.

Não, não temos como lembrar! Mas lá se encontram nossos primeiros registros e estes, de alguma forma, irão nos acompanhar ao longo de toda uma existência.

E se o alimento inicial não tiver sido ao seio, e nem oferecido pela própria mãe?

O preparo, o aconchego, a ternura de todos aqueles que estiverem exercendo a maternagem também saciam, nutrem, são prazerosos e dão a sensação de segurança. A questão fundamental está no “clima”, na “relação”, e não apenas no produto em si.

Estamos em plena fase oral do desenvolvimento. Nos primórdios de nossas vidas, era a região peri-oral a mais e melhor capacitada para o contato e o prazer, nossa experiência erótica de maior valia. O crescimento, acompanhado pelo desenvolvimento do Sistema Nervoso Central e pelo acúmulo de novas e ricas experiências, vai introduzindo outras fases, mas as que precedem não são excluídas do cenário, de modo algum! Seguem elas na base, fornecendo sustento para o presente e o futuro. Seguem elas presentes, não só porque a história nos constitui e faz parte de nós mesmos “no aqui e no agora”, mas também porque se infiltram em tudo, por vezes silenciosa, por vezes ruidosamente, a ponto de se traduzirem em sentimento e ato.

Alimentar-se e alimentar faz parte do dia-a-dia, até mesmo por uma questão de sobrevivência. Por bem ou por mal. Delicadamente ou à força. Solicitado ou oferecido. Com pressa ou com calma. Com prazer ou sem prazer. Em cada ser, uma história única, organizada ao redor de significados muito particulares.

 

Ingredientes

Que ingredientes compõem os mais diversos pratos que, bem ou mal, nos alimentam?

Boa parte dos ingredientes estão ali, à disposição. Foram semeados e, desde então, brotam livres no terreno fértil de nossas mentes, quem sabe desde os tempos de nossos antepassados. Alguns exigem cuidados, limpeza, adubação, regas, jamais em demasia. Outros crescem espontaneamente, ao sabor dos ventos, e através dos pássaros, de insetos, de uma enorme diversidade de animais. E certamente que existem inços – alguns dos quais com efeitos benéficos – e pragas. A questão, em quaisquer circunstâncias, consiste em: “o que fazemos com tudo isto”?…

Temos que zelar pela nossa horta, nosso pomar, nosso jardim. Ah! E pelo manancial das águas, pelos bosques nativos, pela pureza do ar que respiramos. É preciso semear, adubar, regar e colher. Temos que selecionar os produtos a serem utilizados, de acordo com o que tencionamos preparar. E temos que botar as mãos na massa, com atenção e carinho. Tendemos a valorizar as grandes ocasiões, em especial aquelas que foram criadas para marcar os ritos de passagem. Talvez esqueçamos que o prato que alimenta, o líquido que, literalmente, nos lubrifica, não se encontram em esporádicas comemorações, mas sim, e principalmente, no dia a dia.

Que dizer do café da manhã, da merenda escolar, do almoço, do lanche da tarde, do jantar e, quem sabe, de uma pequena ceia antes de dormir? Estamos sós ou acompanhados? Felizes ou infelizes? Usufruindo o momento ou tratando de, muito rapidamente, darmos cabo de uma tarefa necessária, ou nos livramos de uma imperiosa sensação de fome ou sede?…

No preparo e no usufruir das refeições, podemos encontrar o alimento necessário e prazeroso, para o corpo e para a alma.

Na escolha dos ingredientes, estão implícitos nossos cuidados (ou descuidos) e nossas (melhores ou piores) intenções. O modo de fazer também revela. E, não menos importante do que isto, o modo de servir e de ser servido, de usufruir, degustar, elogiar, recompensar e ser feliz junto com as pessoas a quem amamos.

Você quer apreciar um fato curioso? Por que será que, na maioria das casas, os homens tendem a assumir o preparo e o servimento de carnes, enquanto as mulheres cuidam do que, neste contexto, representa “o resto”. O resto pode ser divino mas, geralmente, ao maiores e mais efusivos elogios dirigem-se à carne. E mais: muitos homens costumam não ter o menor cuidado com a limpeza e organização do ambiente, durante a após “a festa”. Querem encontrar tudo organizado, disponível, ocupando seu lugar e, de preferência, que ninguém atrapalhe, e nem se ofereça para tomar a dianteira na hora dos elogios. Num tácito acordo entre damas e cavalheiros. Comemora-se a chegada do homem das cavernas, trazendo e preparando a caça, em dias de festa, de grandes comemorações. As mulheres continuam por ali, atentas aos filhos, aos arredores, não cumprindo mais do que suas obrigações. E essa tradição, dificilmente rompida, embora signifique alguns prazeres, traz consigo enormes e crônicas situações de conflitos entre gêneros, frustrações estas que acometem a toda a família, Mesmo que conversem sobre o assunto, tendem a se perder em discussões estéreis, por não se darem conta de que o modelo com o qual se identificam é um modelo ancestral.

 

Alimentar/se e acolher…

O ato de alimenta/se e acolher encontra-se intimamente entrelaçado. Por que escrevo com uma grafia diferente da habitual, sem usar o hífen? Por que desejo assinalar uma proximidade e uma distância no ato alimentar, uma oferta e uma busca, que não caracterizam, necessariamente, uma dependência mútua.

Vemos, em mesas do dia-a-dia, que uma das partes torna-se responsável por todo o processo, sem nenhuma colaboração das outras partes envolvidas e, muitas vezes, sem nenhum tipo de reconhecimento. Desatenção e críticas podem ser a tônica, como se a alguém fosse dado o dever de suprir e de cuidar, e a outrem o direito de receber gratuitamente todos os suprimentos dos quais necessita ou, simplesmente, deseja.

A capacidade de alimentar-se (agora sim, com hífen) faz parte do processo de crescimento, cada um buscando o necessário para sobreviver e, na mesma medida, para viver e com/viver bem. Ela poderia, e eu penso que deveria, ser acompanhada pela capacidade de também se responsabilizar pelo alimento fornecido aos seus – mesmo que de forma indireta e mesmo sem dominar os segredos da arte culinária e do bem-servir. Elogios, sim, são benvindos ou, até, necessários. Colaboração na ordem, com certeza. Olho no olho, sorriso nos lábios, gentileza na voz, elegância nas atitudes… Entramos naquela seara em que o verbo alimentar não se dirige apenas aos fenômenos do corpo, mas também, e necessariamente, aos fenômenos da alma. Doar e receber, acolher e ser acolhido, são verbos implícitos no já mencionado ato de alimentar.

Vamos insistir nesta questão básica: por que um / e, lugar de um travessão?

A intenção é simples e direta: geralmente, não temos dificuldade alguma em imaginarmos alguém alimentando ou sendo alimentado. Esta observação é válida tanto para o ato concreto de amamentar, preparar um bom almoço, ornamentar a mesa e servir belos pratos, frutos ou líquidos – ou vivenciar tudo isto na forma passiva. Na esfera do amor, acontece o mesmo, tanto que, em romances, poemas, canções e novelas, os personagens principais parecem não cansarem de, em suas juras de amor eterno, repetirem esta mesma declaração: “Eu farei você feliz!”

Será isto verdade? Será isto possível? E, justo, isto será?

Nem justo, nem possível e nem verdade – por mais genuínas que sejam as intenções, por mais intenso e competente que seja o esforço dispendido nesta direção.

A psicanálise, bem como outras diferentes investigações a respeito de nossa vida psíquica, demonstra que nossos primeiros registros são fundamentais. Ou, melhor dizendo: são “fundantes”. Tal como os alicerces de uma casa, é sobre eles que é edificado o prédio, são eles que dão sustentação, além de orientarem a forma da construção. Mas há um detalhe cada vez mais claro: há bebês com alto poder de resiliência que, mesmo sofrendo muito, conseguem conservar a forma, o vigor, a predisposição à saúde. Estes bebês, no geral, aproveitam muito bem todos os suprimentos que recebem, fortalecendo-se e selecionando aqueles estímulos que se mostram os mais favoráveis à saúde e ao bem-estar, predispondo-os a excelentes níveis de convivência. Quero dizer: de com/vivência.

Espantoso, maravilhoso, não é mesmo?

Vamos transpor essa observação para a vida adulta, para o ato de amar e de ser amado. Algumas pessoas são insaciáveis, vorazes, glutonas, eternas insatisfeitas. Nada parece suficiente, em quantidade e em qualidade. Cercadas por parceiros que jogam o mesmo jogo, dispondo-se a atitudes servis ou igualmente queixosas, alimentam um enorme círculo de insatisfações. Você lembra do efeito de uma pedrinha lançada em um lago sereno? É bem assim… Outras identificam-se com um seio imenso e com a fantasia de serem competentes e nutridoras – prometem aquilo que não serão capazes de cumprir, e ainda talvez se culpem por uma suposta incompetência. Mais um detalhe: este seio imenso não aceita o crescimento, o desmame, a independência daquele que nasceu para ser nutrido…

Chegamos ao “X” da questão! Ninguém é responsável pela felicidade de ninguém. Se cada um cuidar bem de si mesmo, está de bom tamanho. Quem “se” cuida, é saudável e está de bem com a vida não se torna um fardo para o outro – muito pelo contrário! A convivência tende a se tornar fácil e harmoniosa. Quanto à alimentação – física e afetiva – somos responsáveis por bem alimentarmos nossas crianças, nossos idosos, nossos doentes, fracos e desamparados – literalmente, não àqueles que dramatizam, com o único objetivo de obterem vantagens, num secreto jogo de dominações.

O que esperamos destes, que de fato necessitam de cuidados? Que tirem o melhor proveito dos suprimentos oferecidos, tornando-se fortes e saudáveis, na medida do possível, a tal ponto que possam andar com seus próprios pés. Assim sendo, o ato de alimentar corresponde a um gesto de amor, que encoraja o desenvolvimento e a autonomia. Encoraja a felicidade, ou seja, uma atitude positiva perante a vida.

Alimenta-se ou alimentar/se, da forma como estou propondo, alude à capacidade de, efetivamente, receber o que a vida oferece, e tirar o melhor proveito de todos os suprimentos, para o corpo e para a alma. É “fazer por merecer”. É aceitar, agradecer, reconhecer e… retribuir. Retribuir com seu próprio crescimento, seu fortalecimento, sua gratidão, suas contribuições para o reabastecimento do outro, enquanto indivíduo, e da coletividade.

Esse ato, generoso e simples, diz respeito tanto aos nutrientes para o corpo, quanto aos nutrientes para a alma. A arte da gastronomia merece ser tomada como metáfora para todas essas considerações.

 

Distúrbios alimentares

Existe uma infinidade de distúrbios alimentares, desde a mais simples inapetência até os hábitos mais exóticos. Atualmente, tem merecido destaque em na sociedade ocidental, fenômenos cada vez mais comuns, como a obesidade mórbida, a bulimia e a anorexia nervosa.

Estes são pesquisados a partir de ângulos que não se excluem, mas se complementam, tal como a biologia, a genética, a sociologia e a psicologia. Só desejo pinçar um aspecto digno de nota: cabe nos perguntarmos que fenômenos estão por trás desses distúrbios bio-psico-sociais, enquanto causa e enquanto consequência. São perguntas básicas: por que? para que? de que forma?

Embora não exploremos esse assunto no presente artigo, gostaria de salientar que a obesidade mórbida, a bulimia e a anorexia nervosa representam uma “atitude” perante os alimentos em si, o ato de alimentar-se, a capacidade de acolher, não só no plano concreto, mas também no comportamental e no terreno das representações psíquicas. Nestas circunstâncias, não cabe a sociedade movimentar-se em busca de explicações e de culpados, mas de buscar compreender o fenômeno em seu funcionamento mais profundo, em seus enigmas, e tentar resolvê-lo de forma efetiva, integrando ciências e técnicas. Levantemos algumas questões bem simples:

- por que Barbie fez tanto sucesso, a ponto de se tornar uma referência estética para as mulheres das últimas gerações?

- por que as empresas da moda contratam apenas modelos magérrimas, que mais fazem lembrar uma adolescente anoréxica, uma pessoa sem identidade sexual, ao invés de serem reveladas as belas formas femininas?

- por que as misses dos últimos anos passam pelo bisturi, sendo cortadas, siliconadas, formatadas, desenhadas de acordo com as concepções de duvidosas autoridades no assunto?

- por que as garotas das revistas eróticas “têm as formas que têm” e “exibem-se da forma que se exibem” – tão diferente daquelas que desfilam nas passarelas?

- por que homens e mulheres americanos (do norte ao sul) desenvolvem hábitos alimentares nada saudáveis que, sem dúvidas, prejudicam qualquer padrão estético minimamente desejável?

- a mulher fantasiada e a mulher, efetivamente, desejada coincidem?

- e os homens?

- o que queremos com tudo isto?

As perguntas “por quê” e ”para quê” mereceriam estar em todas essas reflexões e não podemos olvidar que, por trás de todas as perguntas e de todas as respostas, o poder econômico faz-se presente.

 

Amar e ser amado

O ser humano, desde que se dá conta do outro como um ser separado, anseia por amar e ser amado. É, possivelmente, nos braços e no seio da mãe acontece esta “liga” com o outro, e se surge, com força total, o “desejo de ser desejado”. Se não formos, de alguma forma, desejados, sequer conseguimos as condições mínimas para a sobrevivência. Mas a amamentação implica em algo bem mais complexo do que saciar a fome e a sede. Implica em relação e em prazer. Implica em mutualidade, e se traduz em sorrisos, e resulta em um indescritível bem-estar.

Estas sensações seguem presentes, de alguma forma, nas diferentes situações em que repetimos o gesto, oferecendo ou recebendo o alimento, que sacia e reforça o corpo e a alma. Vale o mesmo para aqueles momentos em que estamos sós. De que forma cumprimos os rituais da boa mesa? De que forma nos tratamos? Temos, incorporado em nossa mente e em nossos atos, a imagem da boa mãe nutridora, ou vivemos cercados de conflitos, que se revelam através de diversos distúrbios (tal como anorexia e bulimia, entre outros), de voracidade, ou desleixo, ou reclamações constantes?

 

Modelos de identificação e o poder da inveja

Quando muito pequeninos, provavelmente encontramos em nossos primeiros “objetos maternos” (aqueles seres que, independente de gênero e função, descobriam nossas necessidades e tratavam de garantir nossa segurança e bem estar) nossos primeiros “objetos de amor” e “modelos de identificação”. A mãe, certamente, foi o principal, o mais destacado… daí surgiu a palavra “matriz” para aqueles modelos que, uma vez impressos, dão forma para tudo o que vem depois.

Descobri-los (ou descobri-la) como separados de nós implica num primeiro baque, num primeiro dano narcisista. Passamos a invejar, desejamos incorporá-la, termos dentro, termos nosso, o que desejamos tanto.

O sentimento de inveja não é, por si só, nem bom e nem ruim. Depende do que se faz com ele.

Ele pode ser entendido como sinônimo de admiração e levar-nos a uma série de ações positivas, como fazer por merecer (aqui talvez inicie a arte da sedução), aprender com ele, etc. No futuro, uma vez estabelecida esta identificação, talvez possamos nos colocar na posição de doadores, e de quem se dispõe, generosamente, a compartilhar seus conhecimentos e habilidades, identificados com a imagem de um “seio bom”.

Mas a inveja pode ser maldosa, destrutiva, até cruel. Assim sendo, ela implica, na ausência de reconhecimento, de gratidão, e na vasão de impulsos capazes de denegrir, de machucar, física e moralmente. Trata-se de “não dar”, “não compartilhar”, “não receber”, “não reconhecer”, “não ser agradecido” e, se possível, “macular, denegrir, destruir”.

Novamente, o ato de alimentar e de alimentar-se serve como metáfora. Com que humor aceitamos o que nos é oferecido ou, mesmo, ajudamos a escolher o cardápio e os ingredientes, arrumarmos a mesa, lavarmos a louça, organizarmos o ambiente, para que ele se mantenha limpo, agradável e funcional?

Não, não é necessário que nos postemos diante de Anonymus Gourmet, aprendendo com ele e com seu time a nos tornarmos exímios na arte culinária! Estamos falando de atitudes, que englobam prazer e reconhecimento. Estamos falando em símbolos, pois a arte culinária é assunto que, indiretamente, faz parte também de nossa vida pública, sócio-cultural, da sala de jantar, da cozinha e, sim, de nossa intimidade amorosa e sexual.

Você prefere lanches rápidos, estilo fast-food? Algo que nutre e dá prazer a ambos, em cada um de seus diferentes fatos? O que você deseja, no plano do amor e da sexualidade?

Você quer? Você pode! Se realmente não puder, há como chegar lá. Passo a passo: pense no que deseja servir e, igualmente, saborear; escolha o cardápio, levando em conta a companhia; selecione rigorosamente os ingredientes; no modo de fazer, simplifique e… coloque as mãos na massa, sem medo de se lambuzar; sirva, deixe-se servir e… bom apetite!

Nestas circunstâncias, com certeza, “voltaremos!”